Mostrar mensagens com a etiqueta Índia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Índia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de outubro de 2016

Índia - Epílogo

Quando alguém decide fazer férias num território distinto do seu próprio sabe de antemão que a inexorável passagem do tempo há-de determinar que num determinado momento haverá que fazer o caminho inverso ao que tomou inicialmente.

A azáfama típica desse momento leva, normalmente, a uma tentativa - escusada, diga-se - de apressar o regresso, como se o objectivo fosse mais do que nunca regressar a casa, indiferentes a tudo aquilo a que os dias antecedentes haviam proporcionado.

Mas é também o momento do balanço desses mesmos dias, algo que a espera numa qualquer sala de aeroporto proporciona, após os inevitáveis olhares pelas lojas existentes nestes locais procurando uma compra de última hora, rapidamente se percebendo que o custo de qualquer artigo em tais lojas é consideravelmente superior àquele a que teria sido possível adquirir anteriormente o referido artigo mas que, por inconsciente decisão, se optou por diferir para momento posterior à sua compra.

Há, contudo, o outro lado da referida reflexão, o de "olhar" para o que representou a viagem.

Se receios havia antes da mesma, sobretudo devido ao preconceito que normalmente acompanha qualquer viagem para um destino "exótico", rapidamente esses receios foram desaparecendo à medida que se foi percebendo que muito para além de tudo aquilo que evidentemente colide frontalmente com os nossos (pre)conceitos de organização de uma sociedade está um país fascinante, capaz de mudar a nossa perspectiva sobre o referido conceito de sociedade e, nessa medida, tornar-nos pessoas de certa forma diferentes daquela que dias antes havia aterrado em solo indiano.

Um país com um nível de segurança assinalável (independentemente de não ser fácil passear isoladamente nas ruas, mas por motivos totalmente distintos), para o qual não é necessária qualquer vacina previamente à viagem, e onde as pessoas recorrente pedem para tirar connosco fotos ou as selfies da moda, sendo perceptível o gosto com que o fazem tornado impossível recusar tal pedido ainda que não seja perceptível a que título é que o fazem.

Não é o país onde se ouve o som celestial da cítara pelas ruas típico dos programas de viagem ou das pessoas a dançar com uma alegria e ingenuidade inusitada como nos filmes de bollywood.

É o país das pessoas comuns, de uma religiosidade profunda, do minúsculo comércio de sobrevivência, ou como diria o filósofo Epicteto pessoas que suportam a condição humana e inumana cultivando uma forma de indiferença a tudo o que não depende de si próprio.

A publicidade turística indiana anuncia o país como sendo a "Incredible Índia". E é isso mesmo, incrível.

Por todas as cidades onde passámos, Goa, Varanasi, Orchha, Fatehpur Sikri, Agra, Nova Dehli, Jaipur, Kathmandu e Pokhara (estas duas ultimas no Nepal), todos hotéis onde dormimos muito mais do que descansámos (7 ao todo) fica um sabor de algo novo, quase sempre majestoso mas indiscutivelmente belo, sempre surpreendente.

É isto a Índia. A tal "Incredible Índia".

Agora, na hora do regresso, em que o desejo de rever aqueles que nos são mais próximos e voltar à normalidade das nossas vidas parece tornar-se cada vez mais realidade, é tempo olhar para trás e pensar: cumpri o sonho de ver o Taj Mahal, vi o nascer do sol sobre os Himalaias e presenciei o pôr do sol nas águas quentes da Goa "portuguesa".

Cansado? Não. A pergunta seria antes: posso repetir tudo já amanhã?





sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Índia - Dia 13 (Goa)

A opção pela extensão do programa de visita ao território de Goa revelou-se, independentemente do reduzido tempo de estadia, perfeitamente acertada.

Goa é uma zona da Índia absolutamente fascinante, com evidentes disrupções relativamente às restantes zonas visitadas mais a norte.

Mas, sobretudo, o que fica é a imagem da luxuriante vegetação, um povo que extravasa simpatia e com uma abordagem aos estrangeiros que possibilita um maior a vontade para quem passeia na rua, uma qualidade de vida claramente acima da média, bons restaurantes onde é possível, embora de forma não geral e com um custo "inflacionado", comer carne de vaca.

Contudo, aquilo que mais apela a visitar esta terra é a sua ligação histórica a Portugal.

Não tenho a certeza que as actuais novas gerações de goeses tenham noção dessa ligação e a razão pela qual os apelidos tradicionais indianos aqui são substituídos por Nunes, Sousa ou Costa (um sacerdote "lembrou-nos" que o actual primeiro-ministro de Portugal tem ascendência goesa...), e tenho ainda mais dúvidas que as futuras gerações consigam manter viva essa lembrança.

No entanto, tudo o resto esta lá há vários séculos para manter essa recordação dos tempos imemoriais da aventura de Portugal por mares tão distantes.

E essa imagem é, para um português, um motivo de grande orgulho, ao perceber que naquele território há monumentos que são património da humanidade da Unesco, que num país essêncialmenfe hindu ou muçulmano existem diversos espaços onde se erguem no topo cruzes, símbolo da religião cristã por via da influência portuguesa.

Assim, sucessivamente, os nossos caminhos e, diga-se, de bastantes indianos e pessoas de outras nacionalidade, cruzam-se com a magnífica Sé Catedral do século XVII, a basílica do Bom Jesus que remonta ao século XVI sendo a mais importante igreja de Goa, onde descansam os restos mortais de São Francisco Xavier,  ou a igreja de São Francisco de Assis igualmente do século XVII, a capela de Santa Catarina, construída no preciso ano da entrada na cidade de Afonso de Albuquerque e as ruínas da antiga igreja de Santo Agostinho, do início do século XVII, que impressiona pela percepção da monumentalidade que o espaço teria antes do desleixo, o vandalismo e até a decisão de demolição por parte do governo português em meados do século XIX a transformarem num vasto espaço arqueológico digno de ser visitado.

Eis a velha Goa.

É impossível não sentir uma sensação de orgulho profundo pela nossa história. Pela história de um pequeno território - incomensuravelmente mais pequeno do que a Índia - que um dia desbravou mares, cavalgou a ignorância, desafiou os medos, para descobrir e deixar a nossa marca em mundos tão diferentes daquele que nós próprios conhecíamos.

Mas para que não percamos a noção de que os tempos hoje são outros seguiu-se a visita a um dos mais importantes templos hindus dedicados à deusa Shiva, o Shri Manguesh Templo (o tal onde nos foi recordada a ascendência do PM), cujo interior ricamente decorado a prata é incomum pelo seu fausto, acedendo-se ao seu interior, como habitualmente, descalço, tarefa nada fácil tendo em conta o calor esmagador, que escaldava literalmente a planta dos pés.

Em seguida uma visita que se impunha na terra dos chás, uma espécie de jardim botânico onde imperam árvores ancestrais, plantas medicinais e especiarias, com direito a almoço e tudo.

O passeio por Goa terminaria com um fantástica vista sobre o mar e da respectiva costa a que se acede por uma marginal com o nome bem português de Dona Paula, para finalmente desfrutar de um passeio numa das mais frequentadas praias de Goa, a praia Miramar, onde dezenas de pessoas, famílias inteiras, passeavam pelo seu extenso areal.

O dia haveria de terminar com uma excelente amostra da gastronomia goesa, num restaurante junto à praia cujo proprietário apresenta orgulhosamente no cartão de visita o apelido Magalhães. Há dúvidas sobre o significado da nossa presença neste território?

Que outra forma poderia existir para marcar a despedida do maravilhoso país que é a Índia numa Goa cuja portugalidade nos anuncia que o regresso a Portugal está marcado para o dia seguinte, não sem antes aterrar, ainda que por pouco tempo, noutra cidade mítica na história de Portugal: Bombaim, hoje rebaptizada de Mumbai.

Por isso mesmo amanhã escrever-se-á o epílogo desta inolvidável viagem.







quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Nepal/Índia - Dia 12 (Kathmandu e Goa)

O dia ainda por nascer anunciou o final da estadia no Nepal, mas ainda estava guardado um novo momento especial.

Há medida que o avião fazia o seu percurso ascendente, o gigante Evereste surge magnânimo no horizonte, erguendo-se acima da própria altitude do avião, como que a saudar e ao mesmo tempo a despedir-se de nós, ladeado por toda a cordilheira dos Himalaias que se estende a perder de vista, acompanhando, como se de uma corte se tratasse, todo o trajecto do avião, para lá do próprio Nepal.

Era o momento da despedida em direcção a Nova Deli para dali rumar a Goa, o último destino deste roteiro.

Pelo meio um sobressalto mais ou menos comum para quem tem de apanhar um voo de ligação, isto é, a possibilidade de perder o voo seguinte, em virtude do reduzido tempo de escala em Nova Deli, o que obrigou a uma correria após a aterragem do avião da Nepal Airlines.

Tudo correu pelo melhor e nem se diga que a sucessão de formalismos ao entrar na Índia (tratava-se para todos efeitos de uma reentrada com tudo o que isso implica) constituíram um obstáculo adicional. Afinal de contas estava-me reservado o lugar 22 no avião da Vistara (companhia aérea local). Curioso....

As primeiras impressões de Goa permitem concluir tratar-se de uma região substancialmente diferente das demais regiões anteriormente visitadas na Índia.

Este estado situado no sul da Índia é fortemente marcado por um clima tropical, com traços que recordam algumas zonas no Brasil, com uma grande profusão de coqueiros, tal como a terra avermelhada lembrará a alguns o continente africano, sendo igualmente verdade que a tez dos goenses é igualmente mais escura do que no norte da Índia.

Mas aquilo que mais impressiona e até comove é constatar que neste local, tão distante do nosso, existem inúmeras referências a Portugal, seja nas diversas igrejas cristãs, claramente datadas do período colonial, seja na referência constante a nomes e apelidos portugueses.

Mas o ponto alto do dia estava reservado para o final.

Hoje pude ver, numa das suas muitas praias, o pôr do sol em Goa.

As águas quentes e agitadas do Índico tornaram especial estas primeiras horas em Goa, no mesmo local onde outros se banhavam, brincando que nem crianças que viam o mar pela primeira vez, quase sempre com trajes que dificilmente se associam a fatos de banho.

A praia, bastante ventosa, era percorrida de uma ponta à outra, por dezenas de pessoas que aproveitavam o final de tarde e aquele sol maravilhoso que se despedia de todos pouco a pouco.

Amanhã, último dia completo desta jornada na Índia, vamos percorrer os caminhos da presença portuguesa em Goa.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Nepal - Dia 10 (Kathmandu e Pokhara)

A breve estadia no Nepal permite confirmar algumas "suspeitas" da noite anterior, isto é, trata-se de um país com uma melhor distribuição de riqueza, não se percebendo de forma tão notória sinais de pobreza extrema como na Índia, sendo evidente uma maior limpeza das ruas, poucos animais a circular por essas mesmas ruas e até algum nível de planeamento urbanístico (à falta de melhor palavra).

Contudo, a falta de movimento de pessoas e viaturas nas ruas será provavelmente ilusório uma vez que nesta altura decorre no Nepal um período de férias de duas semanas, devidas a celebrações religiosas, o denominado Dashain, durante as quais se celebra de forma bastante notória esse período seja porque quase todas as mulheres e meninas (os homens nem tanto) se vestem de forma quase idêntica, com trajes vermelhos vivos e engalanadas com adereços alusivos às festividades, seja porque basicamente todos os serviços públicos estão fechados durante esse período.

É também notório que o tempo no Nepal não é tão quente e com uma humidade relativa consideravelmente mais baixa do que na Índia facto a que, presumo, não seja alheio este território se situar quase totalmente acima dos 1000 metros de altura e estar literalmente rodeado das maiores montanhas no mundo.

Ficando a visita a Kathmandu propriamente dita para quarta-feira, dirigimo-nos à cidade de Pokhara, que distam uma da outra em cerca de 200 kms, nada que não se faça em... 6 horas.

E isto porquê se nem há trânsito conforme atrás se referiu?

Junte-se uma estrada que frequentemente parece mais uma picada, a um ziguezaguear permanente pela montanha e uma viatura que raramente "mete a quinta" e facilmente se perceberá o porquê.

Felizmente o trajecto é absolutamente deslumbrante, sempre por montanhas repletas de densas florestas ou com vastas plantações agrícolas (em especial o arroz) e grandes vales banhados por rios cujo caudal provém dos Himalaias, para se compreender que não pode existir qualquer monotonia numa viagem que permite observar as luxuriantes paisagens do Nepal, sempre com as montanhas em fundo, autênticas rainhas do horizonte.

Pokhara é uma cidade surpreendentemente turística, por se situar numa zona que permite usufruir de um conjunto de facilidades, nomeadamente desportos radicais, trekking pelas montanhas, sendo também "vizinha" de uma das montanhas mais procuradas pelos alpinistas, o Annapurna, apesar deste se esconder grande parte do dia tal como a sua abundante neve atrás das espessas nuvens.

Por tudo isto Pokhara acaba por ter uma oferta hoteleira e de restauração bastante assinalável e de qualidade acima da média, onde até é possível comer porco ou optar por um restaurante de outras latitudes (no nosso caso a escolha recaiu, e ainda bem, por um Coreano).

Mas não foram esses os motivos que nos trouxeram até Pokhara.

O que verdadeiramente nos trouxe foi a possibilidade de usufruir da sua abundante riqueza natural, entre a qual se destaca fortemente o seu enorme e limpo lago (o segundo maior do Nepal), ladeado por uma imensa floresta, onde reina o silêncio ou onde é possível avistar um deslumbrante pássaro de asas azuis, de nome Kingfisher, curiosamente o nome da principal cerveja da Índia.

Outros são os motivos para a vinda a Pokhara, mas apenas serão revelados amanhã e para isso será necessário acordar às 04:30 da manhã.

Talvez alguns entendam que estes "sacrifícios" (fazer horas seguidas de carro ou levantar cedíssimo) não serão verdadeiras férias. Mas acreditem e acho que todos sabemos mais ou menos isto: quando estamos onde queremos e com queremos estar, não há nada mais recompensador do que ter umas férias assim.




segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Índia/Nepal - Dia 9 (Varanasi e Kathmandu)

A visita à cidade de Varanasi e a possibilidade de desfrutar de toda a vida e espiritualidade desta terra que, afinal de contas, é santa para os hindus marca, simbolicamente, o fim da viagem pelo norte da Índia e o início de um novo roteiro que nos há-de levar em seguida ao Nepal e, por fim, ao sul da Índia, mais concretamente a Goa.

Por isso, o dia de hoje foi dedicado - se é que assim se pode dizer - a gozar um pouco mais do "vale dos lençóis" e de alguma leitura junto à piscina do hotel para, em seguida, entrar no frenesim das caminhadas pelos aeroportos, naquela sempre entusiasmante tarefa de fazer o check-in, passar não sei quantas vezes pela segurança, mostrar sucessivamente o cartão de embarque e passaporte até que finalmente nos sentamos a bordo do avião, fazendo votos que corra tudo bem, para logo em seguida seguirmos para a recolha de bagagens (e rezar para que não se tenham perdido) para uma vez mais repetir todo cerimonial e voltar a embarcar.

Isto porque para quem está em Varanasi e quer chegar a Kahtmandu tem de fazer um primeiro voo de cerca de hora e meia até Nova Dehli, na companhia aérea Jet Airways e, em seguida, fazer pouco mais de uma hora de vôo até ao destino final, desta feita na Nepal Airlines.

Tudo tranquilo e sem sobressaltos como se quer nestas ocasiões.

E porque um dia assim passado tem a particularidade de pouco ou nada ter para se dizer sobre ele, pelo que farei uso de uma "arma" de muitos poetas e escritores e dedicar-me-ei à divagação.

Não se pense, contudo, que uma tal opção implicará igualmente o recurso a uma qualquer forma de abstração.

Não será o caso e pegando precisamente naquela que será a marca fundamental de Varanasi - a sua profunda espiritualidade - talvez faça sentido voltar aos assuntos do corpo e, por isso mesmo, voltarei agora ao tema da alimentação, depois de num primeiro momento a ela me ter referido numa lógica de cuidados a ter, para agora me debruçar sobre o tipo de alimentação.

Esqueçam, conforme referi anteriormente, a carne de vaca de de porco. Embora existam aos milhares e por toda a parte não estão disponíveis para fazer parte de um qualquer menu, a primeira porque é sagrada o segundo porque apenas os pobres o comem.

Por isso a alimentação faz-se numa base dupla: vegetariana e não vegetariana.

Desde que chegamos somos aconselhados a não optar por restaurantes de rua ou não seleccionados  pelo guia ou condutor. "It's not good for your stomach", dizem eles. À falta de capacidade de contraditório opta-se pela via mais simples e pelos vistos menos arriscada, e assume-se como boa a escolha que nos é proposta (sem nunca impor, diga-se).

Esses restaurantes são quase sempre identificamos como sendo "multicuisine", isto é, será possível encontrar na respectiva ementa algo mais do que comida indiana, quase sempre chinesa e alguma coisa de italiano.

Como estas oportunidades - que, afinal de contas, são raras na nossa vida - entendo que a opção correcta é adaptar o ditado que nos diz que "em Roma sê romano" e, por isso mesmo, a minha atenção centra-se em exclusivo naquilo que a culinária indiana tem para nos oferecer. Ou seja, "na Índia, sê indiano".

Embora limitada, conforme referi, em termos daquilo que pode ser comido, acaba por ser relativamente ampla considerando as variações que existem nos pratos de carneiro (seekh), galinha (murgh), cabra (bhuna) ou camarão (jhinga), quase sempre acompanhado com arroz (excelente, diga-se) e pão (nan).

O custo médio de uma refeição destas fica por cerca de 7€, bebidas incluídas. Bastante em conta, portanto.

Os pratos vegetarianos são, como não podia deixar de ser à base de vegetais, ovo, queijo.

A questão principal prende-se, contudo, com o nível de "spicy" que se pretende condimentar o prato e, nesse aspecto, uma coisa deve ficar clara: são sempre picantes. Podem ser mais ou menos picantes, mas tudo tem sempre aquele toque que não deixa língua alguma indiferente.

As sobremesas não são nem muitas nem variadas, mas a fruta é genericamente boa, não fosse este um clima tropical.

Cessando por agora as divagações que, ainda assim, admito possam ser úteis a quem pretenda aventurar-se pela Índia - algo que, já se terá percebido, recomendo vivamente - e que, nessa medida, entendo a elas dedicar algum tempo, importa "regressar" à terra, mais concretamente a Kathmandu.

Não que haja muito para dizer, apenas que a primeira impressão (que não tem de ser necessariamente a que fica) é que nada tem a ver com as feéricas ruas das cidades indianas, não se vislumbrando engarrafamentos (e as correspondentes buzinadelas), lixo na rua ou animais à solta (tirando cães). Segundo nos informam durante 5 dias decorre um festival sagrado em honra aos deuses hindus.

Neste último aspecto, portanto, nada de novo.

Amanhã rumamos ao sopé dos himalaias.






domingo, 9 de outubro de 2016

Índia - Dia 8 (Varanasi)

A cidade de Varanasi, com os seus quase 5 milhões de habitantes, situada entre os rios Varanu e Asi (ambos afluentes do rio Ganges) e com uma história de de quase 3000 anos, está para os hindus como Meca está para os muçulmanos ou Jerusalém para os Judeus.

Isto é, trata-se de uma cidade sagrada para onde rumam anualmente milhões de peregrinos.

Simplesmente o politeísmo hindu torna esta cidade, banhada pelo rio Ganges (também ele sagrado), em algo único de se vivenciar, por ser indissociável da forma como o povo hindu vive a religião.

Mas não só.

Varanasi é também o local onde teve início o budismo enquanto religião, após o primeiro sermão de Buda aos seus cinco discípulos debaixo de uma árvore, o qual ocorreu precisamente nesta cidade,  sendo possível visitar esse mesmo local.

Por isso mesmo, embora os budistas sejam uma minoria em toda a Índia, esta religião ocupa um espaço bastante considerável nesta cidade, pelos motivos atrás referidos, ainda que também neste caso as invasões mongóis tenham "ajudado" a destruir boa parte dos vestígios que actualmente correspondem ao sítio arqueológico de Sarnath onde se ergue a imponente Stupa de Dhamekh do século V d.c.

Difícil mesmo é transpor, como aliás se tem percebido dos escritos anteriores, para um registo escrito as múltiplas representações e a adoração prestada pelos hindus (70% da população) aos seus milhares de deuses.

Mais difícil será ainda descrever essa mesma devoção na cidade de Varanasi.

A casa esquina a a cada rua existe um ponto de adoração a um dos deuses. Todas as pessoas parecem viver muito mais preocupadas (note-se "preocupação" em sentido totalmente figurado) com o cumprimento das suas orações diárias na certeza que a presença na Terra é apenas uma passagem (aqui sim literal) para um estado necessariamente melhor, através da reencarnação.

E, de facto, assim se perceberá melhor que não obstante a mais do que evidente pobreza de grande parte da população tal não pareça constituir qualquer motivo para um questionar da fé, como tantas vezes sucede.

Pelo contrário, genericamente as pessoas parecem viver em comunhão entre o (pouco) que têm e a sua genuína devoção a deuses com forma humana, animais e representações simbólicas, entre as quais uma reconhecível "swastika", embora com as extremidades direccionadas em sentido contrário às da infame cruz gamada nazi.

O folclore que rodeia alguns dos santuários é surreal: pequenos espaços com diversas estátuas representativas de deuses ao som de música ensurdecedora saída de várias colunas, em nada coincidente com a imagem idílica do som das citaras ou das flautas tradicionais da Índia. 

O centro nevrálgico de peregrinação em Varanasi são as margens do rio Ganges, com as suas famosas escadarias (gaht) que "desaguam" no rio e o que se segue é ainda mais difícil de transmitir por escrito.

Não posso, contudo, reduzir-me ao conforto de não procurar expressar a imagem que nos invade a cada momento, quando observamos às margens do rio seja num pequeno barco de madeira a partir do qual tivemos o privilégio de presenciar os banhos purificantes no rio, o depósito de velas e, claro está, as incríveis cerimónias de cremação, seja percorrendo a pé as ruelas apertadas onde surgem a todo o momento figuras que raramente se deixam fotografar, as mesmas que nos habituámos a ver em postais ilustrados.

Antes de abordar a parte da cremação importa deixar cair um preconceito que atravessa quase todas as pessoas quando se referem ao rio Ganges, incluindo eu próprio.

Não, o rio Ganges não cheira mal. Não, o rio Ganges não está cheio de corpos a flutuar. Não, o rio Ganges não está cheio de mosquitos.

Não pretendo, com isto, afirmar - nem faria sentido algum que o fizesse - que se trata de um rio limpo.

Não, o rio Ganges não é um rio limpo. Nele são descarregadas as cinzas e os restos mortais dos cadáveres incinerados e afundados (literalmente) os corpos de todos aqueles que não podem passar pelo ritual da cremação: crianças, mulheres grávidas, leprosos e pessoas que tenham sido mordidas por cobras (e morrido em consequência disso).

Simplesmente nada disso é perceptível à vista ou ao nariz.

Aliás, apesar da profusão de animais pelas ruas e, naturalmente, os respectivos dejectos abundarem um pouco por todo o lado e as muitas viaturas que circulam nas ruas, raras vez o cheio nas ruas é desagradável. Pelo contrário, quase sempre se notam traços de cheio a incenso, ou das muitas bancadas de comida, ou ainda das lojas de óleos.

Há, reconheço, uma incoerência em tudo isto, mas a realidade é esta é não aquela que preenche demasiadas vezes o nosso imaginário sobre a Índia.

Voltando à cremação trata-se, obviamente, de um momento que para um ocidental se torna potencialmente chocante, não porque se trate de um espectáculo macabro, mas porque tudo se passa em frente aos nossos olhos, desde a chegada do corpo, embrulhado num pano ou num saree (se for uma mulher), que poderá ficar a "aguardar vez" nas escadarias (por dia são celebrados entre 100 a 200 cerimónias de cremação que duram várias horas).

O resto é o frenesim das madeiras, das cinzas, tudo com uma normalidade inquietante para quem associa o luto a um processo doloroso e sobretudo privado.

O melhor estava reservado para o final do dia com a possibilidade de presenciar o lindíssimo festival de Ganga (religioso, claro está) nas margens da principal escadaria do Rio Ganges, no qual 7 sacerdotes ensaiam um conjunto de rituais de purificação e devoção ao rio sagrado que têm em fronte de si.

O regresso ao hotel (tal como a ida para o festival) fez-se num riquexó, puxado por uma bicicleta conduzida por uma rapaz que não teria mais de 20 anos e que a determinada altura nos confidencia ser muçulmano. "Sou muçulmano. Os hindus têm demasiados deuses. Eu só adoro um Deus.".

É tudo uma questão numérica, portanto.

O dia de amanhã levar-nos-à a um outro território: o Nepal. 








sábado, 8 de outubro de 2016

Índia - Dia 7 (Khajuraho e Varanasi)

Talvez devesse começar o registo de hoje alertando para o facto de que aquilo que se seguirá, seja na forma escrita ou sobretudo graficamente através das fotografias que habitualmente selecciono para ilustrar os locais descritos no texto, deveria ser não aconselhável a menores de 18 anos.

Depois de visitar Khajuraho admito que uma tal restrição constituiria uma desnecessária catalogação de um local que é tudo menos pornográfico ou simplesmente imoral.

Haverá, no fundo, sempre que lembrar que ao visitar a Índia temos de nos despir de preconceitos e assumir com naturalidade a realidade com que este povo há centenas de anos encara determinadas questões que para um ocidental têm uma contextualização totalmente distinta.

Assim, descrever Khajuraho, uma muito pequena cidade de apenas 14800 habitantes - sim, apenas 14800 habitantes - sem indústria, isto é, com níveis de poluição e de ruído consideravelmente mais baixos do que a generalidade das cidades na Índia, que se dedica em exclusivo à agricultura e ao turismo, pode ser feita de duas maneiras.

A primeira é descrevê-la como a cidade do famoso livro do Kama Sutra, porventura a referência máxima do erotismo, e que muitos já terão desfolhado para "deitar um olho" às ilustrações, comparativamente com aqueles que, certamente em menor número, o terão lido e ainda menos os que terão interiorizado devidamente o seu sentido.

Kama Sutra significa "técnica (Sutra) do amor (Kama)" e representa um tratado sensorial que está muito para além de qualquer fetichismo que se lhe possa associar, focando-se sobretudo no espírito como forma de atingir o prazer físico.

Ou seja, as muitas imagens eróticas que aparecem de forma absolutamente natural nos muitos templos representam, antes de mais, um manual do amor e de exaltação da vida e da criação, tendo como modelos o Deus Xiva e a sua mulher Parvati.

A segunda forma de descrever Khajuraho é referindo que se trata de um vasto conjunto de templos quase inteiramente construídos entre o século X e o século XI, sendo a maior parte em homenagem a deuses hindus e, em menor número, ao budismo.

Estes monumentos tiveram a sorte, aliás, de ter escapado às invasões muçulmanas, embora se notem alguns vestígios dessa presença, nomeadamente na eliminação da representação figurativa ou, dito de outra forma, sem as respectivas cabeças e rostos.

Creio, portanto, ser essa a forma correcta que interpretar a monumentalidade dos templos de Khajuraho, isto é, mais um exemplo acabado de uma riqueza cultural absolutamente ímpar, que a Unesco elevou a património da Humanidade, o que só por si faz perceber que este local está longe de corresponder a uma qualquer forma de exaltação da imoralidade.

Acresce que a verdadeira exaltação é a da figura da Mulher, em toda a sua beleza, representada por ninfas celestiais, de corpo escultural, exibindo uma feminilidade e uma perfeição que não é facilmente associada a uma tal antiguidade, com representações de adereços que poderiam bem ser absolutamente actuais.

É extraordinária esta forma de encarar a sexualidade e o erotismo porquanto a imagem que facilmente se retém dos indianos está longe de remeter para manifestações públicas de intimidade sendo visível,  a espaços, casais de namorados em romântica cavaqueira, mas nunca (que eu tenha visto) alguma outra forma de proximidade, ainda que neste caso me esteja a referir unicamente a um simples beijo.

A explosão demográfica na Índia será, pelo menos, um sinal indicativo que as relações entre os casais não se ficam unicamente pelas palavras, mas também me permito duvidar que estejam nos antípodas dos ensinamentos do Kama Sutra.

Terminada a visita a Khajuraho é templo de rumar à terra santa de Varanasi e, nessa ocasião, falar-se-á de religião.

O transporte para Varanasi é feito de avião, numa viagem que demora cerca de 35 minutos, poupando, pelo menos por agora, o corpo a algumas horas de carro. O corpo...e o espírito.







sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Índia - Dia 6 (Orchha e Khajuraho)

Agra e os seus esplendorosos monumentos ficam para trás.

É tempo de rumar a Orchha e para isso tomamos o comboio que parte às 08:02 horas com uma pontualidade própria de uma Suíça mas a que dificilmente se associa a Índia.

A viagem não é longa, embora a chegada nada tenha tido de Suíça, pois contava um atraso de 43 minutos. Não que o comboio pare em muitas estações, até porque corresponderá mais ou menos ao "nosso" Alfa Pendular, mas porque na Índia circulam muitos comboios, a todo o momento, cada um com mais de 15 carruagens para passageiros, para além de enormes comboios de carga.

Não sendo uma viagem "em executiva" a comodidade é boa e justifica a opção.

Sobre este tema da comodidade talvez se justifiquem algumas notas.

Um dos temas "quentes" de que pretende viajar ou comenta as viagens à Índia passa pela qualidade dos hotéis, referindo-se quase sempre que a opção deve recair em hotéis de 5 estrelas.

Ora bem, o problema começa aqui. Tanto quanto me apercebo na Índia não há sequer a habitual classificação estrelar, por isso a categoria do hotel é feita de duas formas: toma-se-lhe a "pinta" por fora - e isso, acreditem, é muito fácil fazer - e arriscar num hotel de categoria equivalente a um 4 estrelas.

Sucede que o que se verifica é que o risco é praticamente nulo. Os hotéis neste patamar são genericamente bons quando não mesmo bastante bons e, por isso mesmo, tenho sérias dúvidas que o custo adicional de um categoria superior justifique em termos de qualidade essa opção.

Por outro lado e como sempre refiro, para mim hotel passa por ser apenas e só o local onde passo umas horas - e, no caso, até são bem poucas - para tomar banho e dormir, por isso apenas exijo duas características: que seja asseado e que tenha wc privativo.

Nos dias que correm faz sentido uma terceira quase exigência - doutro modo como poderia escrever estes registos diários - de poder ter Wi-Fi, essa invenção que normalmente se pede num restaurante mesmo antes da ementa.

Por aqui o Wi-Fi raramente é gratuito, e quase sempre limitado a uma hora de utilização. Tem chegado para as necessidades.

Dizia, portanto, que comboio nos trouxera ate Orchha, uma pequena cidade, curiosamente pouco frequentada por turistas, o que dificilmente se percebe, perante a beleza dos seus monumentos, em particular o palácio Jahangiri Mahal que reúne, como tantas vezes se tem visto, as influências muçulmanas e hindus, onde é possível entre outras coisas, fotografar de bastante perto (convém talvez não ser muito perto) os muitos macacos capuchinhos que por ali andam, numa atitude de complacência de quem parece desfrutar do palácio em si mesmo mas também da vista magnífica sobre os 27 vestígios arqueológicos do local, incluindo mais dois palácios e dois templos.

Bem ali perto encontra-se o Templo Chaturbhuj, outro exemplo da imponência dos templos, este dedicado a Vixnu, situando-se nas margens do rio Betwa onde é possível (e deve-se) visitar os 14 belos cenotáfios.

Orchha constituiu, portanto, mais um admirável exemplo que de melhor a Índia tem para oferecer.

Depois de almoço seguiram-se quase quatro horas de carro até Khajuraho, o tempo que leva para percorrer uma distância de aproximadamente 200 kms.

E porquê tanto tempo para uma tão relativamente curta distância?

Talvez fosse tema para a série de livros "Uma Aventura"...

Passo a (tentar) explicar.

A estrada para Khajuraho tem duas faixas de rodagem, uma para cada lado, nas quais não se pode circular a mais de 80 kms/hora, velocidade esta que creio nunca é atingida, simplesmente porque...é impossível.

Junte-se uma estrada que em quase todo o seu percurso se encontra em mau estado, a cada 100 metros uma junta de búfalos, um rebanho de cabras e, claro está, milhares de vacas invadem e se deitam na estrada, como que dizendo "eu sou sagrada, arranja maneira de dar a volta sem me tocares" e um incontável número pessoas que atravessam a estrada como se não houvesse amanhã.

Mas não é tudo. 

Apesar das duas faixas de rodagem (uma para cada lado), todas a viaturas circulam apenas numa: a do meio. Presumo que tal se deve ao facto da estrada estar menos má nesse local ou como forma de evitar pessoas, motorizadas e animais que quase sempre circulam mais à esquerda ou direita, consoante a direção (embora esteja longe de ser uma "ciência exacta" por aqui).

O efeito é engraçado (embora não pareça) e é mais ou menos este: imagine-se andar nos carrinhos de choque nas feiras mas em que no último instante cada carrinho muda de direcção e por isso nuca colidem. É isto que se passa na estrada de Khajuraho. 

Não termina, contudo, aqui a dita "aventura". Como já é de noite, apita-se menos, então conduz-se com os máximos acesos....toda a gente.

Antes que perguntem, estamos bem, obrigado. Isto é a Índia.

Amanhã o dia reserva uma visita a um local que tem direito a bolinha vermelha no canto.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Índia - Dia 5 (Agra)

Seria demasiado injusto da da minha parte não reconhecer que ao longo da minha vida tenho sido bafejado pela fortuna, não a fortuna que remete para o saldo bancário, mas aquela que me tem permitido ao longo dos anos poder cumprir diversos sonhos, nomeadamente através das viagens que tive e tenho a oportunidade de realizar.

Sorte, acaso ou simplesmente destino, sinto-me um privilegiado por poder contemplar algumas das maiores obras da humanidade.

E é aqui que este "roteiro" da Índia se torna pessoal, porventura demasiado pessoal, por expor publicamente um momento que para mim representou uma emoção que a minha limitada capacidade de escrita não conseguirá nunca transpor para um texto.

Desde muito cedo despertou-se em mim o sonho de visitar o Taj Mahal. Aquela imagem idílica que "entrava" pelos meus olhos pela televisão ou num qualquer postal ilustrado transformou-se numa quase obrigação em criar condições de vida para um dia, quem sabe, poder estar fisicamente perante aquele edifício ora branco ora rosado consoante a luz solar, que sempre me pareceu demasiado irreal para existir de facto.

Não conseguirei, portanto, reproduzir a comoção que me invadiu quando olhei de frente para aquele mausoléu que afinal de contas é um monumento ao amor sentindo, ainda assim, que apesar de ali tão perto continuava a não ser real, fosse o edifício ou o simples facto de eu próprio estar ali naquele momento.

E sim, é um monumento ao amor, uma homenagem de um rei à sua segunda esposa mas primeiro amor da sua vida a quem construiu aquele gigantesco monumento de mármore branco em apenas 22 anos, 6 meses após a sua morte.

Por isso, ao mesmo tempo que ganhava consciência do facto de tudo aquilo era real, desejei muito, como se fosse comigo próprio, que naquele instante todas as pessoas de quem mais gosto, sejam os meus filhos (as minhas obras de arte), os meus pais, os meus queridos avós (os que já faleceram e a que ainda, embora vergada pela doença de Alzheimer, ainda está entre nós), o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos, os amigos de sempre (aqueles que nunca nos abandonam nem abandonarão), todas aquelas pessoas que ao longo da vida me tornaram naquilo que sou, sejam eles professores ou aqueles colegas de trabalho a quem devo o profissional em que me tornei, pudessem estar ali comigo juntamente com o amor da minha vida a quem gostaria de construir todos os monumentos possíveis em vida e os meus sogros.

Como se já tudo isto não fosse bastante e suficiente percebi que toda a absoluta coerência e geometria do Taj Mahal gira à volta do número 22, número este que desde sempre e sem que haja uma explicação racional para o facto - ainda para mais vindo de um não crente - se manteve sempre com o meu "número da sorte". 

Não tenho explicação para isto. Poderá ser uma feliz coincidência ou qualquer outra coisa que cada um de nós, no seu interior, entender que possa ser.

Talvez o meu destino fosse mesmo visitar o Taj Mahal num qualquer momento da minha vida. Não sei. Se o era, então já o cumpri.

Mas nem só de Taj Mahal "vive" a monumental cidade de Agra.

Anterior ao próprio Taj Mahal ergue-se num pequeno espaço o denominado "baby" Taj Mahal por ter dimensões consideravelmente menores mas a partir do qual se percebe emergirem os conceitos fundamentais de arquitectura do seu colossal irmão "famoso", estando em curso o projecto de elevar este monumento a património da humanidade, passando Agra a ter 4 monumentos com o referido título.

Um desses monumentos é o Forte de Agra, uma gigantesca fortificação, parcialmente não visitável, mas que permite, ainda assim, o acesso a um confortável número de palácios no seu interior, com a monumentalidade digna de uma riqueza histórica e religiosa, que passa de uma forma que nos dias de hoje parece bastante improvável pela fusão entre o hinduísmo e o Islão.

É tempo de descansar, o dia começou cedo - 05:55 - mas, sobretudo, por tudo aquilo que representou do ponto de vista pessoal.

Termino, porque já percebi que dá Índia não se volta a mesma pessoa, desejando a todos que possam um dia cumprir os seus sonhos, sejam eles quais forem.

Eu "avisei" que isto hoje seria absolutamente pessoal...









quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Índia - Dia 4 (Fatehpur Sikri e Agra)


Saídos bem cedo da bela e, para não variar, movimentada cidade de Jaipur, colocamo-nos a caminho de Agra, que distam uma da outra cerca de 225, possíveis de percorrer num tempo bem mais "simpático" desde logo porque não é necessário enfrentar o trânsito infernal à saída de Jaipur - embora não se possa propriamente falar de ausência de trânsito - mas também porque a autoestrada é surpreendentemente boa, ainda que também o nosso conceito deste tipo de estrada seja questionado no momento em que percebemos que nela circulam todo o tipo de veículos - literalmente - que é atravessada a todo o momento por peões e, cereja no topo bolo, porque frequentemente sucede circularem veículo em contra-mão. Sem problema, buzina-se e nada acontece. Wellcome to Índia.

Antes da chegada a Agra tempo para uma paragem num daqueles locais que quase justifica uma viagem à Índia, um local chamado Fatehpur Sikri, ao qual se acede num autocarro apinhado de gente, igual a tantos outros que existem nas cidades, suficientemente decrépitos para se pensar que jamais se entraria num deles. Enganei-me.  

Fatehpur Sikri éuma fortaleza imponente do tempo dos sultões, isto é, de influência muçulmana, construído em arenito vermelho, conferindo uma beleza inacreditável que se estende por diversos pisos no seu interior, quatro para ser mais exacto, embora não se trate de um edifício de quatro andares.

O primeiro piso era reservado às audiências públicas. O segundo, terceiro e quarto destinavam-se à segunda, terceira e quarta esposa, sendo a primeira muçulmana, a segunda cristã e a terceira muçulmana e onde, tirando o sultão, apenas os eunucos por ali circulavam.

Anexo ao forte encontra-se uma outra construção absolutamente deslumbrante, uma grandiosa mesquita de nome Jami Masjid, a cujo interior apenas se acede descalço, muito embora o chão esteja positivamente a arder.

Este é também um local onde colocar em pratica a táctica do macaco que não vê, não ouve e não fala faz todo sentido, tantas, mas tantas, são as solicitações para comprar algo ou fazer alguma acção de caridade que rapidamente se tornariam num inferno se caíssemos na asneira de "contribuir para este peditório".

A monumentalidade dos edifícios é esmagadora é difícil de descrever nestas linhas.

Faz-nos relativizar tudo aquilo que vamos vendo de menos bom e aproveitar ao máximo aquilo que de melhor a Índia tem para oferecer.

Antes da entrada em Agra veio finalmente o almoço.

E refiro-me a este aspecto pela primeira vez não para descrever o restaurante mas por se tratar de um "ponto quente" sempre que alguém fala na Índia.

Não há ninguém que não conheça alguém que conhece alguém que passou mal na Índia por ter comido ou bebido a comida ou a água de cá.

Pessoalmente opto sempre por me lembrar de quem conhece alguém que conhece alguém que gostou imenso de visitar a Índia e não teve problemas....gástricos.

Chamem-me optimista ou outra coisa qualquer mas a verdade é que seguindo-se regras básicas a possibilidade de tais problemas diminui consideravelmente.

Desde logo pela escolha do restaurante.... Sinceramente, mais vale deixar o guia/condutor escolher o local de repasto. Por um lado aumenta a garantia de alguma qualidade culinária - por aqui chama-se "multicuisine" - mas também ao nível de higiene, por outro provavelmente garante ao referido guia/condutor uma refeição gratuita o que, convenhamos, para quem ganha certamente tão pouco, custa ainda menos "alinhar" nesta evidente cumplicidade entre restaurante e guia/condutor.

Não fica mais barato do que se a opção recaísse por uma das milhares de bancas de comida existentes nas ruas, mas não fica suficientemente caro para se pensar duas vezes. E sinceramente.... Vale a pena arriscar?

Quanto à água a coisa está facilitada. Os hotéis oferecem sempre duas garrafas por dia. Basta colocá-las no frigorífico durante a noite e temos água para o dia seguinte todo, até porque a transpiração torna-se, na prática, o nosso melhor diurético, não sendo necessário ir ao wc a cada meia-hora.

Se esta estratégia resulta? Até agora sim. No final logo se vê.

O dia termina coma chegada à caótica Agra, a terra do Taj Mahal, que antecipo....enfim....todo nós já vimos o postal.