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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Índia - Dia 5 (Agra)

Seria demasiado injusto da da minha parte não reconhecer que ao longo da minha vida tenho sido bafejado pela fortuna, não a fortuna que remete para o saldo bancário, mas aquela que me tem permitido ao longo dos anos poder cumprir diversos sonhos, nomeadamente através das viagens que tive e tenho a oportunidade de realizar.

Sorte, acaso ou simplesmente destino, sinto-me um privilegiado por poder contemplar algumas das maiores obras da humanidade.

E é aqui que este "roteiro" da Índia se torna pessoal, porventura demasiado pessoal, por expor publicamente um momento que para mim representou uma emoção que a minha limitada capacidade de escrita não conseguirá nunca transpor para um texto.

Desde muito cedo despertou-se em mim o sonho de visitar o Taj Mahal. Aquela imagem idílica que "entrava" pelos meus olhos pela televisão ou num qualquer postal ilustrado transformou-se numa quase obrigação em criar condições de vida para um dia, quem sabe, poder estar fisicamente perante aquele edifício ora branco ora rosado consoante a luz solar, que sempre me pareceu demasiado irreal para existir de facto.

Não conseguirei, portanto, reproduzir a comoção que me invadiu quando olhei de frente para aquele mausoléu que afinal de contas é um monumento ao amor sentindo, ainda assim, que apesar de ali tão perto continuava a não ser real, fosse o edifício ou o simples facto de eu próprio estar ali naquele momento.

E sim, é um monumento ao amor, uma homenagem de um rei à sua segunda esposa mas primeiro amor da sua vida a quem construiu aquele gigantesco monumento de mármore branco em apenas 22 anos, 6 meses após a sua morte.

Por isso, ao mesmo tempo que ganhava consciência do facto de tudo aquilo era real, desejei muito, como se fosse comigo próprio, que naquele instante todas as pessoas de quem mais gosto, sejam os meus filhos (as minhas obras de arte), os meus pais, os meus queridos avós (os que já faleceram e a que ainda, embora vergada pela doença de Alzheimer, ainda está entre nós), o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos, os amigos de sempre (aqueles que nunca nos abandonam nem abandonarão), todas aquelas pessoas que ao longo da vida me tornaram naquilo que sou, sejam eles professores ou aqueles colegas de trabalho a quem devo o profissional em que me tornei, pudessem estar ali comigo juntamente com o amor da minha vida a quem gostaria de construir todos os monumentos possíveis em vida e os meus sogros.

Como se já tudo isto não fosse bastante e suficiente percebi que toda a absoluta coerência e geometria do Taj Mahal gira à volta do número 22, número este que desde sempre e sem que haja uma explicação racional para o facto - ainda para mais vindo de um não crente - se manteve sempre com o meu "número da sorte". 

Não tenho explicação para isto. Poderá ser uma feliz coincidência ou qualquer outra coisa que cada um de nós, no seu interior, entender que possa ser.

Talvez o meu destino fosse mesmo visitar o Taj Mahal num qualquer momento da minha vida. Não sei. Se o era, então já o cumpri.

Mas nem só de Taj Mahal "vive" a monumental cidade de Agra.

Anterior ao próprio Taj Mahal ergue-se num pequeno espaço o denominado "baby" Taj Mahal por ter dimensões consideravelmente menores mas a partir do qual se percebe emergirem os conceitos fundamentais de arquitectura do seu colossal irmão "famoso", estando em curso o projecto de elevar este monumento a património da humanidade, passando Agra a ter 4 monumentos com o referido título.

Um desses monumentos é o Forte de Agra, uma gigantesca fortificação, parcialmente não visitável, mas que permite, ainda assim, o acesso a um confortável número de palácios no seu interior, com a monumentalidade digna de uma riqueza histórica e religiosa, que passa de uma forma que nos dias de hoje parece bastante improvável pela fusão entre o hinduísmo e o Islão.

É tempo de descansar, o dia começou cedo - 05:55 - mas, sobretudo, por tudo aquilo que representou do ponto de vista pessoal.

Termino, porque já percebi que dá Índia não se volta a mesma pessoa, desejando a todos que possam um dia cumprir os seus sonhos, sejam eles quais forem.

Eu "avisei" que isto hoje seria absolutamente pessoal...









terça-feira, 19 de março de 2013

A genealogia de um povo - Conclusão


As minhas deambulações pela natureza do conceito daquilo que é ser português, “levaram-me” anteriormente as temáticas da simbologia nacional associado ao furor exacerbado de uma competição desportiva de massas e da memória colectiva através da reflexão sobre a simbologia dos feriados nacionais.

É agora chegado o momento de encerrar esta espécie de trilogia involuntária abordando uma vertente que considero da maior relevância na determinação daquilo a que, conforme o título que encima a presente dissertação, nos remete para o nosso posicionamento perante a nossa própria identidade.

Esta terceira aproximação a tal conceito não podia deixar de enveredar pelos denominados “caminhos do património”.

Este trilho, que facilmente se confunde com a noção de cultura, “transporta-nos” para os momentos iniciais da nossa história enquanto país, seja na perspectiva de um estado formal com fronteiras definidas seja num período ainda mais remoto.

Ora, destes períodos não resta ninguém, como é absolutamente razoável concluir, que possa relatar nos dias de hoje tudo aquilo que então se passava e como era a Sociedade de então.

Restam, pois, duas formas de aceder a tais informações, isto é, pela análise crítica da documentação que “sobreviveu” a todas as vicissitudes dos séculos que matematicamente se sucedem uns aos outros, ficando dependente nesse caso da interpretação que cada um de nós possa dar a esses intemporais testemunhos de tempos idos, mas também pela possibilidade que o destino nos reservou de poder participar numa espécie de exposição permanente.

Tal “exposição” corresponde, como não podia deixar de ser, ao património físico dos monumentos, a pintura, mas também o traçado arquitetónico das diversas localidades, independentemente da sua dimensão e importância geográfica.

São precisamente estes marcos da nossa identidade, que o tempo se “encarregou” de trazer até aos nossos dias que nos ajudam a integrar-nos em Sociedades que, nada tendo a ver com a actual, explicam em grande parte esta mesma Sociedade, como se de uma marca hereditária se tratasse.

Este vector é de primordial relevância e, por isso mesmo, carece de ser devidamente acautelada no tempo presente para que possa ser usufruída no futuro.

Creio, contudo, que esta tenha deixado de ser há largos anos uma prioridade do poder político, quer seja pelos fracos recursos financeiros normalmente atribuídos a esta área – pouco “visível” na captação do voto dos eleitores – quer pela desvalorização do seu enquadramento orgânico nas estruturas governamentais, reservando-se-lhe normalmente um foro de Secretaria de Estado.

Acontece que a manutenção e conservação de todos estes locais carecem precisamente de um esforço adicional, uma vez que tal como diz o ditado “o tempo não perdoa” e neste aspecto é de uma “crueldade” inapelável perante elementos que não dispõem de qualquer capacidade de auto-regeneração.

Poder-se-ia conduzir esta necessidade pela via meramente económica e, ainda assim, seria a justificação bastante e suficiente para o princípio que lhe subjaz, tendo em conta a importância do sector do Turismo numa economia que, fruto das circunstâncias, poucos mais fontes de “riqueza” consegue produzir.

Mas o meu propósito não é esse.

A minha análise recai sobre uma verdadeira “herança” que necessitamos de fazer “circular” entre gerações e que as permitirá dispor de uma percepção de tudo aquilo que somos a partir daquilo que fomos.

Numa época em que as cedências de parcelas daquilo a que se convencionou chamar de soberania são uma realidade premente à luz dos interesses de confluência e integração económica, são estes elementos de natureza estática que precisamente “resistirão” a tais movimentos e que permitem a cada um de nós afirmar a tal identidade única e indissolúvel.

Contudo, o “cenário” de abandono, degradação e mesmo desinteresse de alguns dos principais momentos da nossa História, parece indicar um caminho precisamente contrário.

Ao passar recentemente perto da mais antiga igreja de Portugal, datada de um período anterior à sua própria nacionalidade (Sec.VII) e à qual foi conferido o estatuto de Monumento Nacional, constato que a mesma se encontra num absoluto estado de ruína por falta de conservação e, por isso mesmo, inacessível ao público.

Atrevo-me a pensar que, no fundo, esta é a nossa própria imagem, isto é, um povo cuja memória colectiva se encontra a meio caminho entre o desaparecimento e a esperança de um futuro melhor.

Ignoramos, contudo, que, tal como aos distintos navegadores de antigamente, a decisão relativamente ao caminho a trilhar pertence precisamente a nós próprios. Assim vão as cousas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011