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segunda-feira, 27 de março de 2017

Roteiros - Um olhar pela Estrela

Existe um tipo de turismo para quem, como eu, procura de forma organizada locais que marcam uma qualquer cidade que, porventura, estará fora das cogitações da generalidade dos visitantes mas não estarão ausentes de uma certa curiosidade quase voyeurista de quem se habituou a caminhar por essas mesmas cidades à procura das suas principais marcas, mas igualmente daquilo que as distingue das demais.

Trata-se, por assim dizer, de um turismo alternativo, menos evidente certamente, que vai buscar a identidade histórica de cada local ao local onde repousam as suas grandes figuras, isto é, aos seus cemitérios.

Existem, pelo menos, duas referencias na Europa deste tipo de locais que se tornaram igualmente pontos de peregrinação para quem pretende antes de mais apreciar o contexto histórico deste tipo de locais ao invés de os julgar pelo seu carácter aparentemente mórbido.

Um desses locais é o cemitério "Père Lachaise" em Paris sendo o outro o Wiener Zentralfriedhof, o cemitério central de Viena, onde podemos encontrar referencias culturais da historia de cada um destes países, devidamente sinalizadas através de um mapa que nos guia por estes quase intermináveis espaços, quais cidades onde já ninguém vive.

Outros exemplos de cemitérios famosos são aqueles que guardam a memória daqueles que morreram em guerras, sendo normalmente espaços ajardinados que impressionam pela sua dimensão e pelo numero incontável e indistinto de cruzes que sinalizam as igualmente incontáveis mortes causadas pela ação auto-destruidora do Homem.

A região da Normandia é, neste especto, um dos melhores exemplos desta marca que envergonha, ou deveria envergonhar, todo o ser humano.

Tendo-me distanciado geograficamente da cidade de Lisboa importa a ela voltar fazendo a ponte sobre este mesmo tema, na medida em que também é possível encontrar um local que, embora de dimensões consideravelmente menores, apresenta uma contextualização histórica que justifica a visita a um cemitério, no caso vertente o cemitério dos Prazeres.

Este local é um verdadeiro ponto de encontro da memoria cultural, arquitectónica e politica de Portugal, onde é possível verificar que ali jazem grandes vultos da arte, seja qual for a sua forma, inúmeros registos de políticos da maior relevância histórica, seja no período da monarquia seja na forma seguinte, a republicana (entre os quais mais recentemente do Dr. Mário Soares), quase todos eles sob autenticas obras-primas de arquitetura, com a assinatura de alguns dos mais relevantes arquitectos de Portugal, não faltando inúmeras referencias à Maçonaria que, até ali, desperta a curiosidade sobre a simbologia associada ao "secretismo" sempre associado a esta organização.

Bem perto deste local encontramos um dos ex-libris da capital, a Basílica da Estrela, um imponente local católico, cujo interior impressiona pela sua dimensão e beleza dos seus mármores e pinturas, ao estilo barroco e neoclássico embora tenha sido construído no ultimo quartel do século XVIII, onde não falta um grande órgão e até mesmo o famoso presépio de Machado de Castro.

No exterior (e no interior) a imponente cúpula destaca-se no conjunto arquitectónico geral.

Mesmo em frente à Basílica existe um pequeno mas bastante rico jardim, "decorado" com variadas espécies arbóreas, cujas longas raízes antecipam a sua vetustez e onde também não falta o lago central onde se banham algumas aves características destes espaços, onde em tempos não muito distantes não era possível circular sem as necessárias cautelas devido a uma frequência menos adequada deste espaço, algo que aparentemente já não se verifica atualmente.


Como não podia deixar de ser a sugestão gastronómica termina o presente roteiro e, por isso, mesmo o restaurante Bota Velha, bem junto à Basílica, serve petiscos bons e variados a um custo simpático.





 

domingo, 5 de janeiro de 2014

O meu pior

Registo uma certa "moda" de, no inicio de cada novo ano, fazer-se uma espécie de resumo analítico do melhor e do pior do ano imediatamente anterior, algo que desperta em mim alguma curiosidade para permitir a mim próprio uma retrospectiva desse mesmo ano independentemente de concordar ou não com as "escolhas" de cada um ou da sua relevância.

Contudo e apesar da referida curiosidade, nunca dei por mim a efectuar um tal "exercício" pelo que, admitindo que o mesmo resulte necessariamente de uma forma de estar associada à nossa própria maneira de reflectir sobre os principais temas da nossa Sociedade e do Mundo em que vivemos, entendo ser chegada a hora de seleccionar pela positiva e pela negativa as minhas personalidades e factos do ano transacto.

Desta forma começarei pelas escolhas do lado negativo, numa espécie de "campeonato" que não terá mais de 10 "participantes" e que, como em qualquer competição, será também aqui escalonado do menos mau para o pior.

10. António Costa

Independentemente da vitória expressiva em Lisboa a sua proeminente figura de "salvador da pátria" dentro do PS encarna aquilo que, pessoalmente, mais me incomoda na política, isto é, alguém que parece fazer sempre "sombra" ao líder do seu próprio partido sem contudo assumir "oficialmente" essa posição, fazendo as "delicias" dos órgãos de comunicação e do próprio Governo através de uma presença mediática constante e por meio de afirmações que tudo parecem sugerir mas nada afirmar.     

9. Poiares Maduro

Este seria, caso não tivesse havido remodelação governamental no inicio do ano, o lugar destinado ao ex-ministro Miguel Relvas. Creio, contudo, que aquilo que sobrava a Miguel Relvas em termos de protagonismo, falta em absoluto a Poiares Maduro, a quem, logo que foi anunciada a sua nomeação para o cargo, não faltaram elogios devido ao seu currículo académico ao qual, pelo que se tem visto, não corresponde qualquer efeito prático, tão evidente é a ausência de factos que permitam - em consciência - perceber qual é, de facto, o seu papel no Governo, excepção feita a uma tentativa falhada de desempenhar uma espécie de "ministro da propaganda" através dos "célebres" "Briefings do Governo", que haveriam de terminar tão rapidamente como começaram por "ordem superior", tão evidente era a incompetência para a função.

8. Mário Soares

Sendo um apreciador do seu percurso político e da importância fulcral da sua acção no movimento democrático que haveria de libertar Portugal de um regime ditatorial com 48 anos, não me revejo na progressiva banalização e radicalização das suas intervenções públicas que, numa certa perspectiva poderiam ser louváveis por traduzirem uma necessidade pessoal de manter até ao fim da sua vida uma luta firme pelos seus ideais e convicções mas que, no essencial, têm sobretudo aproveitado aos seus opositores para "alimentar" uma campanha contra si e contra o seu papel na história contemporânea de Portugal que seria dispensável. Porventura o afastamento mediático dos últimos tempos poderá corresponder a algo que eu próprio sugeri numa dissertação anterior. E se assim for, ainda bem.

7. Extrema Direita na Europa

Diz-se, e provavelmente com razão, que o tempo tudo apaga, mas tal não pode ser a razão para que na Europa se esteja a viver um período absolutamente preocupante de ressurgimento de sentimentos xenófobos e anti-europeístas que começam - ironicamente - a ganhar força e expressão eleitoral em determinados países mais afectados no passado a esse mesmo discurso radical, ameaçando a estabilidade nesses mesmos países mas também na própria Europa, algo a que não é indiferente os efeitos da crise, normalmente o território de eleição para estes movimentos semearem as suas bases de apoio, perante uma aparente indiferença geral. O tempo não pode apagar a memória.

6. Nuno Crato

Provavelmente um dos piores ministros da educação da história de Portugal. "Conseguiu" o feito singular de destruir o trabalho da Dra. Maria de Lurdes Rodrigues, por mera opção ideológica, sem nunca manifestar qualquer sinal de dispor de uma verdadeira política para o ensino em Portugal. Por isso mesmo apelidei-o de "ministro avulso" por, insistentemente, anunciar medidas avulsas quase sempre elas próprias substituídas na semana seguinte. Detestado uniformemente por alunos, professores, pais, reitores e, claro está, pelos sindicatos, não se percebe ao certo afinal para quem governa este ministro.

5. José Sócrates

No ano do retorno à ribalta mediática optou por fazê-lo através de uma rubrica de opinião semanal onde, tal como era previsível, se "entretém" a destilar a sua oposição a quem o substituiu no Governo e a procurar "limpar" a sua própria imagem e do seu Governo. Odiado por muitos mas também (ainda) apoiado por muitos no seu próprio partido, não estou certo que este regresso e, sobretudo a forma escolhida, sejam o mecanismo adequado ao efeito pretendido, provavelmente ditado pela necessidade de se "defender" de uma convicção que foi sendo disseminada pelo actual governo de que seria ele próprio a encarnação de todos os males de Portugal, algo que o seu próprio partido não procurou ou não soube - porventura por conveniência - desmistificar.

4. Síria

O exemplo acabado da incapacidade internacional de lidar com um problema que a cada dia que passa vai causando mais mortes e desalojados. Segundo consta já terão morrido mais de 130.000 pessoas desde o inicio do conflito. Contudo apenas quando se constatou que uma pequena parcela dessas mortes teria resultado do uso de armas de destruição massiva é que a Comunidade Internacional pareceu reagir, numa espécie de "ética da morte" em que numa guerra não é indiferente a forma como se morre. De resto aquilo que se assiste é ao bloqueio das Nações Unidas por interesses divergentes que o comum dos mortais - mas sobretudo os próprios sírios - terão dificuldade em entender, como difícil de entender será quem são afinal os "os bons e os maus da fita" neste conflito.

3. Fogos florestais

Numa espécie de tradição sem patrono o país "assistiu" uma vez mais à devastação da sua área florestal desta vez com o lamentável acréscimo de mortes entre os bombeiros. Como sempre acontece em Portugal o assunto vai-se resolvendo pela sucessão das estações que fazem cessar os fogos mas tal como também sempre se verifica os tempos que se seguem são mais de apurar responsabilidades - pelos fogos e pelas mortes - do que "atacar" convenientemente o problema no seu tempo devido, isto é, nas estações menos expostas ao calor. Como esta "lógica" tende a imperar é expectável que neste novo ano a história se repita até que um dia esse mesmo problema deixe de existir simplesmente porque nada mais há para arder.

2. Paulo Portas

Juntou ao seu "famoso" populismo a ideia de alguém quem não consegue ele próprio lidar com a sua própria maneira de estar em política. Não está em causa sequer as "piruetas" que tem efectuado para gerir a evidente contradição entre tudo aquilo que afirmava na oposição em defesa dos reformados e dos mais pobres em geral. O que se ficou a saber é que a força das suas próprias palavras têm uma reduzida validade e que a sua "irredutibilidade" e as suas "linhas vermelhas" têm o valor que o próprio lhes quiser dar, em função da sua própria ambição. Colocou o seu partido no chamado "arco da governação" e de lá parece não querer sair nem que para isso tenha de anular as suas convicções. 

1. Cavaco Silva

Acabou o ano como começou. Um discurso inútil, pleno de auto-elogio e de afirmações de uma convicção pessoal de que a razão estará do seu lado e de mais ninguém. Continua a fazer a gestão da sua própria imagem para futuro eliminando qualquer associação à situação presente mas, sobretudo, ao seu próprio passado. Talvez por isso mesmo qualquer nova comunicação ao país é necessariamente seguida de um esclarecimento da sua "casa civil" que procurará esclarecer aquilo que supostamente deveria ter sido claro anteriormente. Continua a falar em "consensos" como se não fosse ele próprio uma das razões para essa mesma falta de consenso. Ficará para a história como o pior Presidente da 3ª República em Portugal.

Recordar o que pior se passou num ano e as figuras que o marcaram causam-me uma sensação de desgaste que procurarei "compensar" na próxima semana quando, nessa ocasião, efectuar o "desfile" das coisas boas que se passaram nesse mesmo ano. Assim vão as cousas.



domingo, 21 de julho de 2013

Fim de ciclo


Um dos momentos mais complicados de quem, num determinado momento da sua vida, se “atreve” a transpor a linha das suas opiniões de uma fase meramente associada ao seu pensamento para qualquer outro dos sentidos é aquele em que temos que reconhecer que alguma das nossas convicções possa ter sido, de alguma forma, abalada ou mesmo totalmente ultrapassada.

Tal situação só acontece, portanto, quando essas mesmas convicções colidem frontalmente com a firmeza com que, habitualmente, procuro transparecer para quem, de forma mais ou menos constante, toma contacto com estas breves letras que transformam o meu pensamento em texto, crónica ou dissertação, conforme se entenda por mais adequado descreve-las.

Ora, precisamente num dos referidos escritos tive ocasião de honrar a coerência intelectual e de vida de algumas personagens da nossa política e cultura, entre as quais se encontrava, como não podia deixar de ser, o Dr. Mário Soares.

Acontece que, os últimos tempos ou mais exactamente as mais recentes intervenções públicas de tão importante figura da politica portuguesa do século XX, têm levado a uma inflexão da minha convicção relativamente à supracitada coerência.

Mas, vamos por partes.

O Dr. Mário Soares é e será sempre uma figura incontornável da história contemporânea de Portugal por motivos tão vastos que certamente tão poucas e frágeis linhas não se encontram em condições de sintetizar com a justiça que tais motivos determinam.

Assim sendo, limito-me a remeter para o seu papel determinante na conquista da liberdade após 48 anos de ditadura ou ainda, nesse mesmo contexto, a intervenção que levaria ao subestimado evento do 25 de Novembro que, em bom rigor, impediu que uma ditadura fascista levasse, em pouco tempo, a uma outra de cariz marxista.

Pelo meio fica a sua intervenção na chamada descolonização que é hoje injustamente criticada, não pela sua forma, mas por criar a convicção que essa mesma descolonização não era já nessa altura totalmente inevitável face ao perpetuar de um conflito que não poderia ser ganho no campo de batalha mas que já havia sido perdido muito anteriormente no preciso momento em que o ditador decidiu subjugar pela força das armas a vontade das colónias de então.

Deu cara e corpo pelas suas convicções como Primeiro-Ministro num momento de certa forma coincidente com aquele que agora se vive pela via da necessidade de um resgate externo do FMI (a troika só “nasceria” muitos anos mais tarde) que curiosamente determinou, então como agora, uma receita de austeridade que, cada vez mais, é contestada quanto aos respectivos ditames mas, sobretudo, quanto aos seus resultados.

Foi Presidente da República durante dois mandatos sucessivos de forma tão incontestada e popular que até a sua oposição se absteve de apresentar candidato na segunda eleição.

Viajou (muito) e criou o conceito de “Presidência Aberta”, marcando de forma decisiva a sua presença internamente e internacionalmente, saindo pela “porta grande” da cena política, como estadista que de facto é.

Talvez o primeiro “sinal” de alerta para uma determinada predisposição para alterar esta espécie de “título” de Senador vitalício tenha surgido quando entendeu voltar a concorrer à Presidência da República contra Cavaco Silva mas, em particular contra Manuel Alegre, com quem havia (aparentemente) rompido uma amizade de longa data.

Esta decisão, tomada a meu ver sem o necessário pragmatismo, não só “custou” uma derrota eleitoral da “sua” esquerda como espelhou para si próprio a diminuição da sua base de apoio, pouco convencida da possibilidade de alguém, com a sua idade, poder assegurar o cargo mais elevado na Nação durante a totalidade do mandato.

Esta “realidade” que, porventura, o próprio não anteciparia tem, contudo, vindo a acentuar-se nos últimos tempos fruto das intervenções públicas que insiste em manter, não obstante a sua provecta idade, mas que revelam uma preocupante tendência para a transmissão de mensagens que facilmente resvalam para extremismo, algo que manifestamente não faz parte da sua “genética” política.

O resultado de tais intervenções tem sido a progressiva desvalorização do significado das mesmas por parte dos seus “seguidores tradicionais” e, sobretudo, um movimento não menos extremista de reacção por parte daqueles que sempre o criticaram.

Ora, quando a crítica resulta da oposição às convicções políticas podemos, com segurança, entender que tal se deve ao normal “jogo” da ideias. Contudo, quando as mesmas, como agora se verifica, pretendem questionar não o presente mas o passado e a importância do Dr. Mário Soares na vida política portuguesa, o caso ganha consistentemente um outro relevo.

A pergunta que fica é, portanto, qual a necessidade do Dr. Mário Soares em expor-se publicamente desta forma numa fase tão avançada da sua vida em que nada tem a provar?

Alguns poderão invocar que tal se deve à sua permanente (e fundamental) necessidade de representar uma voz “audível” perante a opinião pública em linha com o que sempre fez ao longo da vida, sem receio pelas respectivas consequências.

Outros remetem certamente para uma redução da sua capacidade de discernimento em função da idade, tendo mesmo surgido (na lógica do extremismo) quem o tenha apelidado de inimputável, ou seja, alguém que já não se encontra na posse das respectivas faculdades mentais e com capacidade de decisão.

Acredito, pessoalmente, que a resposta estará numa espécie de síntese das duas variáveis, eliminando, contudo, os elementos irracionais que cada um acaba por conter.

Para que, em circunstância alguma, a segunda variável possa claramente ser demonstrada, é fundamental que o Dr. Mário Soares reduza o actual nível de exposição mediática e o “ruido” que se vai espalhando.

É nesta “etapa” que a união da sua própria consciência com a acção daqueles que o acompanham serão fundamentais para essa “tarefa”, para que os tempos conturbados que vivemos e a falta de valores que parecem cada vez mais ocupar um lugar na nossa Sociedade, não manchem um percurso decisivo na história da democracia portuguesa e a sua eminente figura de Estadista. Assim vão as cousas

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Medo da sombra


Os últimos anos da “governação Sócrates” foram marcados por um acentuar da conflitualidade social entre o cidadão “comum” e os membros do Governo e, em particular, relativamente à figura do então Primeiro-Ministro.

É bom dizer-se, no entanto, que a presente dissertação tendo o seu início histórico no anterior executivo poderia, em bom rigor, situar-se em momentos anteriores, na medida em que, independentemente dos “intérpretes”, a conflitualidade a que me refiro não foi em caso algum um fenómeno que tenha tido nesse momento o seu início ou que possa sequer ser “apropriado” por alguém, a título de exclusividade.

Regressando ao tema que há-de nortear estas linhas, pretendo dirigi-lo não na perspectiva dos agentes activos da contestação – os cidadãos – mas sim aqueles que de alguma forma serão o seu oposto, isto é, os políticos, ou mais exactamente a sua reacção aos movimentos de contestação.

Diga-se, em abono da verdade, que seja em tempos de “bonança” ou de “tempestade” a relação dos políticos com todos aqueles que neles depositaram (ou não) a sua confiança, foi quase sempre de receio, sendo que este verdadeiro “estado de alma” é progressivamente ampliado de forma proporcional ao aumento da insatisfação.

Existem, mesmo para os menos atentos, sinais evidentes desta convicção, quando, por exemplo, as conferências de imprensa deixam de o ser enquanto tal, passando a meras operações discursivas, em que o orador previamente define as regras do “jogo”, e que passam pela ausência de possibilidade de questionar qualquer das afirmações anteriormente produzidas, limitando-se o auditória a ser “espectador” passivo da informação que acaba de lhe ser transmitida.

Este comportamento, cada vez mais usual, não tem outra razão de ser que não seja o de evitar que o referido orador seja “confrontado” com as expectáveis questões que se seguiriam, presumindo-se até prova em contrário, que delas decorria a necessidade de aprofundamento dos temas abordados, levando à necessidade de uma resposta que não se pretende dar.

Uma outra evidência deste sintoma é o aparentemente incompreensível hábito do recurso à “famosa” porta dos fundos para entrar e sair de qualquer recinto (normalmente a grande velocidade), evitando dessa forma o contacto com um qualquer grupo de maior ou menor dimensão que, esperando certamente um comportamento diferente do seu representante o aguardava “pacientemente” à entrada da porta principal, por onde o mesmo não chegará a passar.

Mais recentemente mesmo esta espécie de “fuga” deixou de ser “meio” suficiente e, sempre com a devida justificação, passou a ser frequente a ausência “à última da hora” do ilustre convidado que se aguardava, ficando quase sempre “no ar” a convicção que essa mesma ausência possa ter tido uma motivação mais compatível com a percepção da necessidade de evitar o contacto com uma qualquer manifestação de circunstância, que certamente o próprio não ignoraria.

Por fim, o receio com que a classe política parece “relacionar-se” com os cidadãos é igualmente mensurável pelo crescimento exponencial do número de elementos da respectiva segurança pessoal, ou conforme é comum dizer-se, dos seus guarda-costas.

Compreender-se-á agora a “ponte” que procurei efectuar entre os últimos anos de governação do Eng. José Sócrates e aquilo que é possível constatar em pouco mais de um ano do actual governo do Dr. Pedro Passos Coelho.

O que parece faltar a uns e outros é a percepção que este distanciamento forçado em relação às pessoas podendo “defende-los” de algum encontro indesejado com algum cidadão mais inconformado, afasta-os não apenas dessas mesmas pessoas, mas fundamentalmente da realidade que aparentemente querem ignorar.

Por isso mesmo sou forçado a concordar com o Dr. Mário Soares (ele próprio com histórias para contar neste capítulo) quando diz que «quem tem medo do povo não tem o direito de cumprir as missões importantes que a alguns foram conferidas”.

Esta talvez seja, em resumo, a principal diferença entre um verdadeiro político e um oportunista. Assim vão as cousas.