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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Concerto a 6 Órgãos

Basílica do Palácio Nacional de Mafra
06 de Outubro de 2013


Desde o seu recente restauro, os seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra tornaram-se largamente conhecidos em todo o mundo. O que faz deles um conjunto único não é o seu número mas o facto de terem sido construídos ao mesmo tempo e terem sido concebidos originalmente para tocar em conjunto.


Os seis instrumentos foram construídos pelos dois mais importantes organeiros portugueses do seu tempo - António Xavier Machado e Cerveira e Joaquim António Peres Fonates - tendo sido terminados entre 1806 e 1807. Os últimos dois foram inaugurados a 4 de Outubro de 1807, tendo um número substancial de composições envolvendo os seis órgãos sido produzidos nesse ano.


Sinfonia a 6 órgãos (1807)
António José Soares (1783-1865)
(primeira audição moderna)


Os seis órgãos (dois na Capela-Mor, dois no transepto Norte e dois no transepto Sul, embora diferentes entre si, têm várias características comuns. Algumas, como as palhetas horizontais ou o teclado dividido, são frequentes entre os instrumentos ibéricos da época. Outras, como as palhetas de ressoador curto, a Voce umana italiana e especialmente o someiro duplo, são tipicas da escola de Cerveira e Fontanes.




domingo, 28 de abril de 2013

Cantigas de amigo


Uma das mais fortes manifestações de um sentimento de revolta contra qualquer regime de natureza ditatorial é aquele que se expressa através da música.

Dizendo de outra forma, são as letras contidas em cada canção e o significado por detrás de cada uma dessas letras que confere a aura de um movimento a que se convencionou chamar de música de “intervenção”.

Nesse sentido, o período pós 25 de Abril de 1974 foi, reconhecidamente, fértil neste capítulo, promovendo a ascensão de um conjunto de cantores até aí desconhecidos ou cujas carreiras não se encontravam necessariamente “alinhadas” com o espírito revolucionário.

Mas consagrou igualmente um núcleo de artistas que haviam construído todo o seu percurso precisamente utilizando como linha de rumo um pendor fortemente contestatário, ainda que nem sempre essa vertente fosse absolutamente evidente numa primeira leitura da letra das suas músicas, forma subtil de contornar um regime cujos censores raramente deixavam escapar ao seu “famoso” traço azul os “desvios” ao alinhamento compulsório a esse mesmo regime.

Que palavra era afinal esta que tanto parecia incomodar os líderes do anterior regime mas que, por mera analogia, sempre pareceu causar um sério “transtorno” junto de qualquer regime totalitário?

Essa palavra é, nem mais nem menos, o registo intemporal dos versos e da prosa de alguns dos principais vultos da literatura portuguesa, cuja escrita assumia dessa forma uma “visibilidade” e uma contextualização que em muitos casos se situaria longe da perspectiva inicial dos seus autores.

Desta forma cumpriam-se dois desígnios, ou seja, um de alcance imediato que passaria por transmitir o sentimento do despertar das consciências a meias com um espírito de revolta, e um segundo alcance, menos evidente, de renovar a nossa “leitura” sobre a obra de autores tão díspares e distantes temporalmente, vagueando entre Luís Vaz de Camões, Pessoa, Natália Correia ou Manuel Alegre, entre muitos outros.

Esta não é, aliás, uma característica portuguesa se assim se pode chamar, uma vez que a música sempre foi um pouco por todo o lado o “veículo” de transmissão de uma mensagem muito própria em momentos socialmente conturbados ou de forte repressão, facto que está intimamente ligado à natureza subliminar dos respectivos textos, impróprios para mentes de reduzida compreensão e inteligência.

Não será, portanto, de estranhar que na alvorada do dia 25 de Abril o mote para o que haveria de vir fosse dado ao som de duas músicas que, nesse mesmo dia, ganharam o estatuto da intemporalidade, ficando para sempre os próprios intérpretes ligados a este momento.

Dificilmente hoje em dia alguém questionará a razão pela qual foi essa a via escolhida e não qualquer outra forma de transmissão de uma mensagem que, aparentemente, seria suficientemente simples e entendível para “caber” numa letra de música.

É precisamente a mesma razão pela qual hoje em dia a música se encontra sempre presente em movimentos de contestação social, ou seja, é a expressão de um estado de alma que acompanha o ser humano desde os seus primórdios, transversal a qualquer civilização, e ao mesmo tempo uma arma tão forte que consegue derrubar regimes apenas ao som de uma simples nota. Assim vão as cousas.  

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Ludwig van Beethoven

17.12.1770 - 26.03.1827

Embora existam dúvidas sobre a autenticidade desta fotografia tendo em conta a data em que a mesma terá sido tirada e a "oficial" da invenção da fotografia, presto a minha homenagem ao grande compositor Ludwig Van Beethoven, passados 242 anos sobre o seu baptismo (desconhece-se a data de exacta de nascimento) que teve lugar na Cidade de Bonn.


O seu génio artístico e musical mas também todo o seu desespero sobre a sua crescente surdez e desejo de superar os seus problemas físicos e emocionais parecem inteiramente reflectidos nesta fotografia de um homem que caminha só, em reflexão consigo próprio.

Heiligenstadt Testament




“Aos meus irmãos Karl e [Johann] Beethoven:

Vós, que me considerais ou me fazeis passar por melancólico, obstinado e misantropo, que injustos sois para comigo! Não conheceis as secretas razões do que se passa. O meu coração e o meu espírito eram inclinados, desde criança, para o doce sentimento da bondade. Sempre estive disposto para grandes trabalhos.

Mas imaginai que, de há seis anos para cá, me vejo numa situação desesperada e esta situação foi-se agravando por culpa de médicos incompetentes, enquanto me iludiam com a esperança de uma melhoria para, finalmente, me ver apanhado na perspectiva de um mal duradouro, cuja cura demorará anos e talvez seja impossível.

Nascido com um temperamento ardente e activo, sensível aos atractivos da sociedade, depressa me vi obrigado a isolar-me e a deixar passar a minha vida na solidão. Se bem que tivesse querido na altura superar tudo isto, ah!, que impossibilitado me via ao aperceber-me do meu problema no ouvido! Não era possível dizer às pessoas: “Falai mais alto, gritai, pois estou surdo!” Podia revelar a debilidade de um sentido que devia possuir com mais perfeição que qualquer outro, um sentido de que estive dotado num grau tal que certamente poucas pessoas do meu ofício jamais possuíram? Não, não podia. Perdoai-me portanto se me afastei, ainda que quisesse tanto estar convosco. A minha desgraça é duplamente penosa, pois devido a ela vejo-me obrigado a ter de passar por impopular; para mim acabaram-se para sempre os prazeres da sociedade, as conversas interessantes e as relações com as pessoas. Absolutamente sozinho, ou quase. Só na medida em que for absolutamente necessário poderei voltar a ter contacto com a sociedade; devo viver como um maldito. Se me aproximo das pessoas, sinto-me automaticamente atormentado por uma terrível angústia: a de me sujeitar a que adivinhem o meu estado.

Assim passei os últimos meses no campo, aconselhado pelo meu competente médico, para cuidar dos meus ouvidos o melhor possível. Ele quase previu a minha situação, se bem que às vezes, movido pelo desejo de companhia, me tenha afastado do caminho que me está destinado.

Mas, que humilhação quando alguém ao meu lado ouvia o som de uma flauta ao longe e eu não ouvia nada, ou quando alguém ouvia um pastor cantar e eu não conseguia escutá-lo! Tais circunstâncias enchiam-me de desespero, e faltou pouco para que pusesse fim á minha vida. A arte e só ela me salvou! Parecia-me impossível deixar o mundo antes de ter transmitido todo o que sentia nascer em mim, e assim, prolonguei esta vida miserável, com um corpo tão frágil que qualquer mudança brusca basta para acabar com a sua saúde. Paciência! É tudo o que devo fazer agora e assim o faço. Espero manter-me na determinação de esperar até que a cruel morte faça acabar com tanta amargura. Talvez fosse o melhor, ou talvez não, mas sou corajoso. Aos vinte e oito anos, ver-me obrigado a tornar-me filósofo não é agradável e, para um artista, é mais duro do que para outro homem. Meu Deus! Tu que do alto vês o mais fundo do meu ser, sabes que dentro de mim se movem desejos de fazer o bem e de amar o próximo. Vós, homens, se lerdes isto algum dia, pensai que tereis sido injustos comigo e que quem é infeliz se consola procurando alguém semelhante a ele. Apesar de todos os obstáculos da natureza, fiz, no entanto, todo o possível para ser admitido na categoria dos artistas e dos homens de valor.

Ao mesmo tempo, declaro-vos aqui herdeiros da minha pequena fortuna (se é que se pode chamar assim). Reparti-a com honestidade; respeitai-vos e ajudai-vos mutuamente. O que fizestes contra mim, há tempo que vos perdoei, bem o sabeis. A ti, irmão Karl, agradeço-te especialmente o afecto de que me deste provas nos últimos tempos. O meu desejo é que a vossa vida seja melhor e menos triste que a minha; recomendai aos vossos filhos a Virtude, que é a única coisa que nos pode fazer felizes e não o dinheiro, sei-o por experiência; é ela que me conforta na minha aflição; devo-lhe, assim como à arte, o não me ter suicidado.

Mas assim aconteceu. Corro ao encontro da morte com alegria. Se esta, no entanto, chegasse antes de não ter tido tempo de desenvolver todas as minhas faculdades artísticas, fá-lo-ia demasiado depressa.

Apesar da infelicidade do meu destino, queria que ainda demorasse. Mas mesmo assim havia de me conformar: a morte não me livraria talvez de um interminável sofrimento? Que venha quando quiser, irei ao seu encontro com alegria. Adeus, e não me esqueçais após a minha morte.

Bem o mereço, pois pensei em vós muitas vezes e desejei que fosseis felizes: sede-o.

Heiligenstadt, 6 de Outubro de 1802, Ludwig van Beethoven”.


quarta-feira, 21 de março de 2012

"O livro da ciência da música"

Istambul 1710
"O livro da ciência da música" de Dimitrie Cantemir e as tradições musicais sefarditas e arménias




Hespèrion XXI
Jordi Savall, direcção musical
Casa da Música
Sábado, 6 de Novembro, 18:00, Sala Suggia