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domingo, 24 de junho de 2018

As origens do totalitarismo (revisitado)

"Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente.” (Hannah Arendt)

Um dia alguém me perguntou porque é que nunca escrevia sobre futebol. Respondi quase de imediato que "não me interessava" e que havendo tantos a fazê-lo que mais-valia poderia trazer qualquer coisa escrita por mim sobre que tema fosse.

Desengane-se, contudo, quem achar que a "promessa" estará na prestes da ser quebrada posto que continua a ser um tema cuja margem de dissertação é tão manifestamente desinteressante que, em si mesmo, não vale o esforço de tentar ser inovador sobre o mesmo.

Mas tal não impede que de alguma forma um tema tão recente que ainda não se sabe o tempo que durará, tendo por protagonista principal o presidente de um grande clube de futebol, permita uma divagação sobre a natureza do populismo e demagogia, base comum das raízes do poder absoluto que ao invés de nascer do nada, vai crescendo aos olhos de quem o semeou - os cidadãos - e que num dado momento se descontrola, tornando-se numa forma autoritária de governo que prescinde desses mesmos cidadãos ainda que fazendo crer que os representa a todo o momento.

A receita parece simples de tantas vezes "cozinhada" e assenta em pressupostos comuns que tantas vezes, como agora, nos obrigam a um esforço intelectual para compreender o incompreensível.

1. Os fundamentos

A base do populismo e a demagogia assentam na esmagadora maioria das vezes em contextos sociais e políticos de grande complexidade em que uma larga maioria da população sofre ou vem sofrendo de uma qualquer foram de constrangimento das suas liberdades e direitos, não por via da existência de uma ditadura no sentido mais comum de algo imposto por um ditador, mas sim formas distintas como de liberdade económica e perda de direitos. O desemprego ou a redução de salários ou o aumento do custo de vida são os exemplos mais comuns, mas para que faça sentido a "ponte" com o universo futebolístico o acumular de frustrações em anos sucessivos normalmente associado a um muito fraco desempenho económico do qual resulta uma quase recorrente deriva para o abismo das respetivas contas que só um estado de permanente exceção impede de transformar em falência ou insolvência.

2. A necessidade de culpados: O inimigo comum

Conhecidos os fundamentos o passo seguinte é a definição de um "inimigo" óbvio, aquele a quem não custa apontar o dedo pelos males que, contrariamente ao ditado popular, sempre duram e tendem a perpetuar-se se nada for feito em sentido contrário. A lógica passa a ser o do "contra tudo e contra todos", seja o inimigo externo seja o interno. O culpado versus as vítimas, contra o qual é preciso combater com uma rotura face ao passado, sem que nunca se explique o verdadeiro custo dessa rotura. Não interessa. Sabemos quem são, sabemos ao que nos conduziram, importa assegurar o seu afastamento para sempre. A manipulação atinge o seu auge.

3. A consulta popular 

Uma das maiores falácias dos tempos modernos, é a noção de que grande parte dos regimes ditatoriais foi inicialmente legitimada pelo voto. Esta aparente contradição serviu e ainda serve como presuntiva justificação para o que se seguiu ao escrutínio popular, ignorando que o voto em si mesmo não é em si mesmo a fator de legitimação do que quer que seja, mas a antes a liberdade de voto. De nada serve do ponto de vista democrático uma consulta popular em que a oposição foi totalmente afastada ou aparece como meramente simbólica, senão mesmo "autorizada", para alimentar a farsa que foi sendo construída, qual ilusão de pluralidade.

4. O poder absoluto: Fase 1

Ganho o poder nas urnas os primeiros tempos de governação aparentam quase sempre uma imagem de mudança que a todos parece agradar, com manifestações de políticas a favor do "bem-comum" normalmente associados a alguns resultados imediatos que, em bom rigor, ninguém poderá dizer que são consequência natural da mudança ou algo que provavelmente aconteceria em qualquer dos cenários. Não importa. As pessoas estão agora convencidas que a mudança resultou e há-de continuar a resultar, ignorando que estes primeiros tempos são aqueles em que o novo poder vai tomando conta das instituições, algo que não se faz de um dia para o outro, mas que requer paciência para que não seja muito visível o outro "rosto" da mudança que, afinal de contas, se queria para melhor. 

5. O poder absoluto: Fase 2

Dominado o poder e as instituições há que criar condições para que o poder se perpetue e para isso há que dominar os focos de contestação que aqui e acolá persistem em incomodar os novos senhores. Não interessa se têm 90% de aprovação popular, porque não compreendem nem aceitam os outros 10% (parece familiar?). Viram-se as armas - por vezes reais - contra os desalinhados. Tudo serve para os desmoralizar. Se não é possível prendê-los então que se encham de processos crime, civis, providências passando também pela sua descredibilização publica permanente, com falsas notícias (parece familiar?), passando a ideia de que aquilo que ainda não se conseguiu é culpa de outros e não própria quando, afinal, já nada há a barrar o seu próprio poder e os fins pretendidos.

6. As milícias

Frustradas as tentativas de controlo absoluto o poder entra em modo obsessivo. Julga estar a ser alvo de ataque eminente por forças que apenas o próprio parece conhecer e, pior ainda, muitas vezes apenas imagina, e para se defender reúne-se de uma espécie de força de "elite" disposta a tudo para defender o muro que se foi construindo e que ameaça tornar-se num castelo que apenas visa proteger o soberano deixando de fora quem o elegeu. Nesta altura poderá perguntar-se: o que é que tal tem a ver com futebol? Para que não se pense que a alusão inicial rapidamente foi esquecida então é preciso esclarecer que, neste particular, o "exército" mais à mão são habitualmente as claques (parece familiar? Alcochete?).

7. O poder absoluto: Fase final

Alheado do mundo e incapaz de controlar o seu próprio poder, a agressividade descontrolada toma a forma de luta pela sobrevivência. Os antigos aliados viraram opositores (parece familiar?), os apoios vão caindo, o "general" está cada vez mais isolado e só o que resta das suas tropas, um conjunto violento, a tudo disposto e com pouco ou nada a perder, vai alimentando o seu poder. Todos apelam a um bom-senso que já cessou de existir (parece familiar?), a uma réstia de capacidade de julgamento próprio que o leve a abandonar voluntariamente o poder, enfim, o sentimento inicial de pena vai dando lugar a uma revolta generalizada, cujos meios a ninguém aproveitam, mas normalmente com um triste fim à vista, senão mesmo com data marcada (parece familiar?).

8. A queda

A realidade toma conta do mundo imaginário a que o detentor do poder absoluto se arrogou. A queda é a consequência, quase sempre de forma ultrajante ou mesmo violenta, raramente pelo voto, essa réstia de esperança que se há-de seguir à queda do ditador. Alguns pseudo-seguidores disparam ainda as últimas "balas" de pólvora seca apesar de já nada haver para defender. Nos dias seguintes, qual pessoa prestes a afogar-se, mas que insiste em manter as mãos à tona, aparecerá à distância a insistir na mesma loucura que levou à sua queda. Aos seus inimigos, agora basicamente quase todos, falará de ingratidão (parece familiar?), de ressentimento, não próprio e jamais de arrependimento.

Qual é a verdadeira moral de tudo isto?

O ponto comum entre a ascensão de alguém ao poder e a sua queda são os principais "atores" neste filme de argumento tantas vezes repetido: todos nós. 

O poder não se esgota nestes dois momentos de ascensão e queda. Sobre os cidadãos impende a obrigação quase sagrada de avaliar o carácter de quem se prestam para colocar no poder. Sobre os cidadãos recai a obrigação intransferível de controlo da forma como o poder é exercido para que este não se torne um fardo sobre eles próprios. 

As falsas promessas, os messias de ocasião são, quase sempre, ilusões de uma realidade bem mais complexa que esconde as verdadeiras intenções de quem julga e quer fazer crer que tem as respostas para todos os males, sem olhar a meios para atingir os fins.

Quase sempre o que resta está bem pior do que se encontrava inicialmente e que supostamente deveria ter sido corrigido. E esse é o maior sinal de falência do sistema. É precisamente a incapacidade de perceber que a mudança tem de levar a algo novo, um novo paradigma. A certeza parece, porém, a contrária, uma espécie de "eterno retorno" no sentido da desgraça. Os novos ventos dos EUA, Alemanha, Itália, Holanda, Polónia, Filipinas, Venezuela, etc., ou até ao nível de um presidente de um grande clube de futebol, são talvez o regresso ao ponto inicial do poder absoluto: os seus fundamentos. 

"Government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the Earth" (Abraham Lincoln)

sábado, 26 de abril de 2014

O dia inicial

O momento mais patético da vida de um qualquer ditador é aquele em que o próprio perde a noção de que o seu "reinado" terminou, normalmente à luz dos tempos que conduzem ao fim dessa mesma ditadura.

Assim, se ficaram "famosas" as circunstâncias que levavam Hitler a julgar no interior do bunker onde - segundo rezam as crónicas - se haveria de suicidar, que a Alemanha ainda haveria de ganhar uma guerra à qual já se havia nessa altura rendido, também Salazar julgou até ao momento da sua morte que ainda conduzia os destinos de um país que já lhe havia arranjado sucessor.

Ora essa tal personagem que lhe havia de suceder, carregou também consigo uma espécie de opus final quando, já no exílio, afirmou que o golpe de Estado do 25 de Abril foi o principio do fim de uma "nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça".

Talvez seja então necessário perceber que Suiça era esta de que falava o sucessor de Salazar de forma a se perceber em que medida o Portugal de 24 de Abril de 1974 estaria próximo de se tornar num espécie de "estado-gémeo" daquele país da Europa Central.

A verdade é que a Suiça com que Marcello Caetano "sonhava" era, já nessa altura, um estado democrático, pacífico (fruto de uma política de neutralidade histórica), uma economia prospera e moderna, com uma muito baixa taxa de desemprego e um elevado nível de competitividade (devido à elevada formação e escolaridade da generalidade dos seus habitantes).

Sem dispor de riquezas naturais - excepto a água - e com um muito reduzido peso da agricultura, a Suiça tinha então (como hoje) um dos PIB's per capita mais elevados do mundo, baseado sobretudo no sector financeiro mas igualmente numa industria especializada em alta tecnologia.

Em suma, a Suiça era à data da revolução de 1974 - como hoje - uma das economias mais competitivas do Mundo.

Será então razoável admitir que um país que no final dos anos 60 se encontrava em situação de colapso económico fruto da politica de isolacionismo e do custo do esforço de guerra em África, onde parte significativa da população vivia uma situação de analfabetismo, em que uma percentagem ínfima frequentava o ensino secundário, onde a população era essencialmente rural destituída dos mais elementares parâmetros mínimos de competências, estaria de facto a "caminho de se transformar numa Suiça"?

Poderia uma das mais duradouras ditaduras da Europa ocidental pretender comparar-se em termos futuros com um Estado onde, por exemplo, vigora um dos exemplos mais completos de "democracia directa" a partir do qual as principais questões do país são decidas por via de referendo (algumas, aliás, bem controversas)?

A resposta é demasiado óbvia para poder ser contestada e por isso mesmo, não é de estranhar que precisamente fosse a Suiça um dos Estados de eleição da onda de emigrantes que por essa altura saíam do país em fuga de um regime ditatorial e de uma total falta de perspectivas futuras.

Ninguém, para além de Marcello Caetano, poderia perspectivar que o regime que o próprio ajudou a perpetuar, poderia ser algo mais do que um país muito mais próximo do 3º mundo do que qualquer outro Estado democrático europeu, os tais que nessa altura já se haviam distanciado desse mesmo regime.

Para perceber o distanciamento entre a realidade e  os motivos pelos quais a queda de um regime se havia feito sem o disparar de um único tiro e com o apoio generalizado da população, cito precisamente um realizador suíço - Lionel Baier - que afirmava então "Quando somos pequenos e suíços a democracia é coisa normal. Os primeiros que me fizeram ter consciência do preço da democracia foram os portugueses.".

Suprema ironia, os tais suíços em que supostamente nos haveríamos de tornar, tinham uma percepção mais lúcida da realidade do que estertorante regime.

Tal como tive ocasião de afirmar em dissertações anteriores, a realidade histórica será sempre o principal "inimigo" de todos aqueles que, por ignorância ou por mera incapacidade de acompanhar essa mesma realidade, pretendem nega-la a todo o custo, "construindo" uma realidade paralela que, tal como a Suiça de Marcello Caetano, apenas existe nas suas próprias cabeças. Assim vão as cousas.

domingo, 13 de abril de 2014

Memória selectiva

O (ainda) presidente da Comissão Europeia, Dr. Durão Barroso "recordou-nos" recentemente, entre as muitas intervenções públicas com que tem "brindado" os portugueses nos últimos tempos - sem que se perceba exactamente em que contexto é que o faz - a "cultura de excelência do ensino" no Portugal antes da Democracia.

Poder-se-ia, desde logo, questionar se uma e outra coisa não serão em si mesmo contraditórias mas, fundamentalmente aquilo que parece escapar neste sentimento de súbita nostalgia do Dr. Durão Barroso é que se quase tudo na vida tende para a mudança, posto que o próprio também entendeu em momentos da sua vida, antes da sua "conversão" à social-democracia e às virtudes do capitalismo, que a via para a felicidade seria a do Marxismo-Leninismo, incluindo um "célebre" roubo de mobília da Faculdade de Direito de Lisboa.

Ora, se algo há que nunca muda, é que qualquer comparação minimamente credível só poderá ser aquela que permita comparar aquilo que é comparável e, de facto, o "exercício" de análise histórica do Dr. Durão Barroso peca, tal como o seu curto governo, por ser curta e sem qualquer relevância futura.

Para que um tal "exercício" pudesse ficar completo o Dr. Durão Barroso haveria de ter igualmente referido que a partir de 1926 a Educação foi precisamente uma espécie de inimiga do regime pois é certo e sabido que uma Sociedade instruída e culta tendencialmente mais facilmente irá questionar os fundamentos de um regime de natureza ditatorial, não sendo por isso de estranhar que o tal período de "excelência" fosse pródigo em analfabetismo e num conceito que ao povo bastaria "saber ler, escrever e contar".

Assim e ao mesmo tempo que as escolas se enchiam de crucifixos e da imagem do ditador, 39% das mulheres e 27% dos homens vivia em 1960 em estado de total analfabetismo e onde 80% da restante população apenas tinha frequentado o 1º ciclo, sendo que unicamente 1,3% acedia ao ensino secundário (*). Estas percentagens são, portanto, o reflexo da realidade do ensino em Portugal onde, por exemplo, não cabe sequer a Universidade, à qual apenas acedia uma ínfima parte da população.

Sou, portanto, forçado a concluir que a "excelência de ensino" de que fala o Dr. Durão Barroso era baseado num modelo de presumíveis excelentes professores, muitos dos quais impunham na sala de aula um regime de autoridade convencional nesse tempo baseada em princípios de violência física e moral, mas com poucos alunos para ensinar.

Tenho, por essa mesma via, de concluir que o sistema de ensino terá perdido a aludida "excelência" porque, por um lado, passou a ser acessível a todos os portugueses mas igualmente porque os métodos disciplinares até então aceites como "normais" se tornaram intoleráveis.

Não pretendo, de forma alguma, "esconder" o facto de existir nos tempos actuais uma tendência acentuada para o facilitismo, à qual não é alheia uma eventual menor preparação para o ensino por parte de alguns professores fruto da massificação do acesso à profissão e ao alheamento dos pais/encarregados de educação relativamente à exigência de maior rigor no ensino aos diversos "agentes" começando pelos seus próprios filhos/educandos.

Contudo, fundamentalmente, a situação actual não se deve, conforme parece pretender insinuar o Dr. Durão Barroso a um qualquer efeito perverso da Democracia sobre o ensino. Deve-se, antes de mais, à incapacidade do poder político em manter uma linha de orientação desse mesmo ensino que não "flutue" em função de critérios eleitorais ou de princípios mais ou menos liberais consoante o Governo em funções em cada momento.

A sucessão de supostas e quase sempre inconsequentes "reformas" do ensino em Portugal são a "fonte" única da actual da situação do ensino em Portugal e não a Democracia em si mesmo e, por isso mesmo, talvez o Dr. Durão Barroso devesse, antes de mais, questionar a manifesta redução da qualidade dos políticos em Portugal onde a excelência de personalidades como Sá Carneiro, Mário Soares, Ramalho Eanes ou mesmo Álvaro Cunhal foram progressivamente substituídos por um conjunto de políticos manifestamente medíocres, entre os quais o próprio Dr. Durão Barroso se inclui. Assim vão as cousas.

(*) Fonte: Pordata

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O falso argumento - Parte II: O processo português

Portugal não fugiu à regra no que diz respeito à reacção do regime aos movimentos anti-colonialistas e por isso mesmo optou, como boa parte das potências coloniais dominantes de então, pelo recurso à lógica da guerra.

Se em relação às colónias portuguesas na Índia a guerra foi de curta duração tal era a supremacia dos exércitos indianos, já o mesmo não se verificou em relação às possessões africanas que Salazar pretendia manter, sem interiorizar - presume-se - os custos materiais e humanos de um tal esforço, facto que levou a partir do ano de 1961 ao inicio dos conflitos em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique (Cabo-Verde e São Tomé foram as excepções).

Rejeitando qualquer negociação pacífica, Salazar optou pela "célebre" máxima de que Portugal deveria enviar tropas para Angola "imediatamente e em força" ou ainda pela "política" do "orgulhosamente sós" que reflectia a falta de apoio internacional (incluindo por parte do Vaticano) à guerra que se iniciava.

O "resultado" de uma tal obstinação foi a mobilização de quase 1,5 milhões tropas portugueses, na sua maioria jovens, dos quais quase 10.000 não haveriam de regressar com vida ou ainda 30.000 feridos para além do número indeterminado de ex-combatentes sofrendo de um flagelo que só mais tarde havia de ser diagnosticado como "Distúrbio Pós-Traumático do Stress de Guerra" e, por fim, um número jamais contabilizado de vitimas civis.

Houve uma outra consequência, porventura menos mediática, que foi o desastroso resultado para as finanças públicas portuguesas em resultado da "necessidade" de manter o chamado "esforço de guerra".

A queda de Salazar e a ascensão ao poder de Marcello Caetano em 1971 não haveria de originar qualquer solução para o conflito 10 anos após o seu início, fruto de uma manifesta incapacidade política e diplomática para negociar uma solução pacífica do mesmo, algo que apenas viria a ocorrer em 1974.

A exaustão de um país inteiro com um conflito que se perpetuava e a erosão do próprio regime ou ainda as divisões dentro das forças armadas haveria de levar à sua queda e ao inicio do fim de Portugal como potencial colonial.

A consciência de que o "problema ultramarino" só poderia ser solucionado através do reconhecimento dos direitos dos povos à sua autodeterminação e independência seria necessariamente o primeiro passo para o fim do conflito e o inicio do processo de descolonização em Africa mas igualmente a legitimidade da ocupação da India Portuguesa ou ainda a situação particular do território de Timor.

Sucede porém que à guerra colonial se haveriam de seguir nesta altura diversas guerras civis com especial relevo para Angola e Moçambique que apenas haveriam de terminar na parte final do século XX.

No meio de tudo isto estavam, porém, centenas de milhares de portugueses (mas não só) que entre a não aceitação da ideia de criação de estados livres e de maioria negra, a desconfiança dos povos locais relativamente ao anterior país colonizador e uma guerra fratricida originou um movimento de regresso forçado a Portugal, aqueles mesmos que haveriam de ser "baptizados" para sempre de "retornados".

Em resumo e sem querer de forma alguma presumir que aquilo que é o meu entendimento sobre esta matéria possa encerrar a discussão sobre o tema é, antes de mais e conforme faço questão de sempre referir, um "convite" à reflexão individual, deixando de lado o recurso a chavões e frases feitas recorrentemente utilizadas que nada acrescentando ao tema vão disseminando uma convicção que não se encontra sustentada por qualquer enquadramento histórico.

Por isso mesmo preocupa-me que a data do 40º aniversário do 25 de Abril se possa tornar uma arma de arremesso da actual crise ao invés de um reavivar da memória colectiva. E se tal suceder, como transparece da falta de um verdadeiro conceito de celebração da data, esse será certamente um factor de preocupação futura que transcende os efeitos da própria crise. Assim vão as cousas. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O falso argumento - Parte I: A situação global

Numa altura em que se "discute" o anedótico tema do eventual patrocínio das comemorações do 40º aniversário da "Revolução de Abril" que se aproxima, aparentemente "justificado" pelos tempos de crise, têm surgido - e bem - diversas reportagens nos principais órgãos noticiosos, nomeadamente na imprensa escrita, em jeito de folhetim, descrevendo os passos que haveriam de conduzir ao fim da ditadura em Portugal mas também aos não menos conturbados tempos do PREC.

Entre esses temas, como não podia deixar de ser, surge a referência à descolonização e é precisamente por aqui que entendo ter sido criada uma das maiores mistificações do pós-25 de Abril, fruto de uma análise histórica que - aparentemente - apenas é efectuada tendo por base as suas consequências ignorando, porém, as respectivas causas.

Ora, nenhum facto histórico pode em circunstância alguma ser avaliado em função do presente, mas apenas pelo estudo de eventos passados, sob pena da própria noção de história deixar de ter o alcance e significado que todos lhe reconhecemos.

Desta forma optarei por me debruçar não apenas sobre a situação concreta das ex-colónias portuguesas mas sim e num contexto mais vasto sobre a realidade afro-asiática no final da segunda grande guerra, fazendo votos que por essa via se compreenda o sentido da mistificação a que aludi inicialmente.

De facto, nesse período grande parte dos conflitos internacionais deslocou-se para o denominado "Terceiro Mundo" ou, dito de outra forma, transformou-se num conflito que passou a ser reconhecido como "Norte-Sul" entre as potências desenvolvidas e alguns dos mais pobres estados do Mundo, quase todos eles sob uma qualquer forma de domínio colonial.

Tais conflitos não eram sequer exclusivos do continente Africano pois alastrou igualmente a diversos países asiáticos, tomando como exemplo as guerras na Argélia, Indochina ou Coreia.

Contudo, se os locais de conflito eram suficientemente vastos para abranger mais do que um continente a verdade é que o motivo para esses mesmos conflitos não era de forma alguma substancialmente diferenciadora.

Enquanto a Europa recuperava economicamente dos efeitos da guerra nas colónias "vivia-se" precisamente o oposto fruto de uma sistemática politica de exploração e repressão em territórios cujas fronteiras naturais haviam sido substituídas por fronteiras artificiais, transformando em Estados aquilo que até então não era mais do que, em muitos casos, um ordenamento de natureza tribal.

Esta ausência de uma verdadeira política de investimento no ensino e na democratização deste povos haveria de propiciar as condições necessárias a diversas guerras civis após as respectivas independências, fruto da incapacidade para uma verdadeira coabitação cultural ou mesmo ideológica.
    
Ao mesmo tempo em que tal se verificava o continente Africano e Asiático passou a ser o terreno fértil para o desenvolvimento de uma espécie de "laboratório" por parte dos governos comunistas de então que viram nestes locais a local ideal para o combate ao "inimigo" capitalista representado pelos EUA sob o argumento da resistência dos povos locais contra a limitação da sua liberdade e dos seus direitos.

Este novo contexto agravaria ainda mais a situação destes territórios fruto da intervenção dos EUA em diversos países asiáticos, com o Vietname e a Coreia à cabeça, mas em que desta vez a ameaça nuclear era latente, embora provavelmente o receio de utilização das mesmas entre as super-potências tenha constituído um factor de maior equilíbrio entre as forças em conflito do que o seu contrário.

Por outro lado o surgimento de uma espécie de "consciência" africana em resultado da supracitada opressão colonial acabou por estar na base de diversos conflitos entre os povos africanos e as potências coloniais dominantes, havendo raros exemplos de esforços de transição pacífica.

(continua na próxima semana)

  

domingo, 22 de setembro de 2013

O novo grito do Ipiranga

Quando visitei o Brasil pela primeira vez no inicio dos anos 80, nomeadamente a cidade do Rio de Janeiro, ignorava - fruto da minha "tenra idade" - que, nessa mesma altura, este imenso território, "descoberto" pelos portugueses mas colonizado por outras potências mundiais ao longo dos séculos e até à independência em 7 de Setembro de 1822, se encontrava num processo de transição de um regime ditatorial militarista para uma sociedade de matriz democrática.

Por isso mesmo, ignorava igualmente que um dos países com maiores condições naturais do mundo para ser considerado uma potência económica mundial vivia, nessa mesma altura, uma situação de intervenção externa por parte do FMI, que impunha regras denominadas de "ortodoxia económica", ou seja, a habitual receita desta instituição internacional para "ajudar" um qualquer Estado necessitado a sair de uma crise financeira.

A situação económica do Brasil - necessariamente demasiado complexa para tão breves linhas - resumia-se a uma total estagnação económica, com níveis de inflação elevadíssimos (hiperinflação), fruto de uma política económica que, basicamente, suportava a dívida externa com recurso à emissão forçada de moeda, aumentado a dívida pública interna.

Não faltaram, nessa ocasião, planos económicos - normalmente titulados pelo nome do seu "criador" - que, sucessivamente, haveriam de fracassar, determinando que a década de 80 tenha ficado conhecida como a "década perdida" ao nível económico, do crescimento e do desenvolvimento. 

A juntar a este "cenário" havia igualmente uma situação social absolutamente confrangedora onde, por exemplo, menos de 15% das crianças frequentavam a escola e onde a pobreza era, para muitos, a face visível de um país e as suas "famosas" favelas (e a violência que lhes é associada) a imagem-tipo de uma cidade brasileira. 

Com o fim da ditadura, precisamente no final da referida década, o país entrou num processo de estabilidade política que, simbolicamente, haveria de levar ao poder, num tempo mais recente, um dos principais rostos da luta popular no período da ditadura e do movimento dos "sem-terra", o presidente Lula da Silva. 

Voltando ao presente e mais consciente do "mundo que me rodeia", detenho-me a meditar sobre o motivo pelo qual o mesmo país descrito nas linhas anteriores e que se tornou em poucos anos na sétima maior potência mundial - com perspectivas de crescimento nesta "hierarquia" - atravessa actualmente uma profunda crise social, com sucessivas manifestações de protesto de rua, independentemente daquela que seja a perspectiva de cada um relativamente à natureza dos protestos por parte alguns dos manifestantes.

É este mesmo país que desenvolveu uma industria pujante nos principais sectores tecnológicos, incluindo a engenharia aeroespacial, que é líder na produção de biocombustível e que se pode orgulhar de ser praticamente auto-suficiente no domínio das suas necessidades petrolíferas sendo ainda um dos lideres mundiais na produção energética.

Mas então, somados estes vectores a muitos outros (por exemplo na agricultura e no turismo), como justificar a actual situação social?

A razão é, aparentemente, uma só, a mesma que propositadamente omiti na breve análise à situação do Brasil nos anos 80 como na actual situação e que se reconduz, antes como agora, a uma situação de generalizada corrupção, nomeadamente no sector político, essa "doença" invisível que, afectando tanto corruptor como corrompido, não aparenta ter "cura" pelo simples facto de que dela muitos beneficiam e, por isso mesmo, poucos dela se queixam .

Contudo, algo mais mudou na sociedade brasileira.

É que, neste último quarto de século, verificou-se igualmente uma redução substancial do índice de pobreza e de analfabetismo de grande parte dos seus cidadãos, ficando, dessa forma, claramente demonstrado que só uma sociedade consciente dos seus direitos se encontra em condições de exigir uma sociedade com menos desigualdade e sobretudo mais transparente. E esta é também uma lição para os restantes países, incluindo Portugal. Assim vão as cousas.

domingo, 8 de setembro de 2013

Cortina de fumo

Há uns meses atrás exerci - conscientemente, diga-se - sobre mim próprio uma espécie de auto-flagelação ao visionar, de forma integral, um filme (?) português intitulado "A Vida Privada de Salazar".

O enredo do referido filme (?) remetia para a biografia do ditador, desde fase prévia à ascensão ao poder e a fase posterior a esse mesmo momento, correndo de forma apressada as diversas etapas da vida do homem de liderou os destinos do país com mão de ferro, durante quase meio século, até chegar aquela espécie de apoteose final coincidente com a "célebre" queda da cadeira.

Mas afinal o que é torna, a meu ver, este inenarrável exercício de pretensa cinematografia biográfica tão absurdamente mau?

Será a minha predisposição para um certo desconforto perante qualquer assunto que aborde a temática do período da ditadura? Não creio, caso contrário não teria sequer visto o filme (?), pelo que não é em si o tema que me criou tamanha sensação de tempo perdido.

Será, porventura, o fraco argumento do filme (?) aliado a igualmente fracas interpretações dos actores escolhidos? Também sou forçado a declinar esta hipótese, até porque a actor principal surgiu mais recentemente a encarnar uma personagem claramente distinta - a de Jesus Cristo - porventura numa espécie de redenção do seu próprio pecado de ter participado anteriormente na supracitada película.

Resta-me então a convicção que a minha incapacidade para valorizar adequadamente este filme (?) se deve ao facto do mesmo suscitar uma visão distorcida da realidade, a qual resulta da errada interpretação histórica que, ao invés de transportar a vida de Salazar para o cinema deveria, antes de mais, permitir que essa biografia fosse apenas parte de uma Sociedade que era "comandada" por essa mesma vida.

É que o erro de análise que tem vindo a ser seguido por quem tenta ilustrar a "vida privada" de Salazar é pressupor que essa mesma "vida" tem, em si mesmo, algo que justifique um enredo suficientemente atractivo para poder ser considerado como filme.

Nada disso. O referido filme (?) limita-se a passar quase vertiginosamente pela tal "vida" sem qualquer espécie de coerência, nem tão-pouco criando no espectador a sensação de, dessa forma, conhecer algo mais sobre o ditador ou mesmo, conforme se impõe nestas circunstâncias, pela introdução de um qualquer elemento de controvérsia que, mesmo carecendo de total capacidade probatória, não deixaria de "lançar" uma centelha de "algo de novo".

Talvez por isso mesmo, alguns historiadores, escritores mas, sobretudo, alguns canais generalistas de televisão procurem frequentemente "olhar" para o ditador não pela sua vida em si mesmo - claramente isenta de interesse documental - mas perante aqueles que o rodeavam (ou rodearam) durante o respectivo "reinado".

Exemplo flagrante de tal convicção são as sucessivas entrevistas e/ou edições literárias (?) sobre as mulheres que acompanharam o ditador, nomeadamente as suas "criadas", normalmente alvo de uma atenção muito peculiar, porventura na procura de alguma imagem menos conhecida do próprio ditador , como se através delas se espreitasse por uma espécie de buraco da fechadura. 

No entanto, aquilo que se constata é que mesmo essas pessoas que lidaram com o ditador de forma mais próxima do que qualquer outra pessoa (pelo menos na perspectiva de um ambiente mais familiar) nada referem que altere substancialmente a visão de um total vazio de interesse naquilo que, se fosse possível, seria visível para lá da tal fechadura.

Contudo, a mais preocupante "mensagem" que acabam por transmitir é a imagem das suas próprias vidas, isoladas de um "mundo" opressor que, aparentemente, a elas nada diz ou eventualmente até preferem ignorar, criando uma imagem bucólica de uma "sociedade" que não tinha qualquer enquadramento real com a realidade social do resto do país.

É aqui que reside o "perigo" de filmes (?) como "A Vida Privada de Salazar", isto é, o de traçaram para as gerações nascidas após o 25 de Abril uma imagem distorcida da realidade que resulta da falsa presunção de que o ditador era, afinal, um cidadão como qualquer outro, líder dos destinos de uma Sociedade que seria, ela própria, igual a qualquer outra. 

Este efeito só poderá ser "contrariado" se, aqueles que agora se propõem descrever a vida privada de quem, afinal, pouco ou nada resta para conhecer, efectuem igual "exercício" relativamente a todos aqueles cujas vidas privadas foram subjugadas pela "vida pública" de Salazar, ou seja, aquela que se encontra sobejamente documentada e testemunhada, ou seja, aquela que há-de ser, para sempre, descrita como a de uma ditadura. Assim vão as cousas.

  




domingo, 28 de abril de 2013

Cantigas de amigo


Uma das mais fortes manifestações de um sentimento de revolta contra qualquer regime de natureza ditatorial é aquele que se expressa através da música.

Dizendo de outra forma, são as letras contidas em cada canção e o significado por detrás de cada uma dessas letras que confere a aura de um movimento a que se convencionou chamar de música de “intervenção”.

Nesse sentido, o período pós 25 de Abril de 1974 foi, reconhecidamente, fértil neste capítulo, promovendo a ascensão de um conjunto de cantores até aí desconhecidos ou cujas carreiras não se encontravam necessariamente “alinhadas” com o espírito revolucionário.

Mas consagrou igualmente um núcleo de artistas que haviam construído todo o seu percurso precisamente utilizando como linha de rumo um pendor fortemente contestatário, ainda que nem sempre essa vertente fosse absolutamente evidente numa primeira leitura da letra das suas músicas, forma subtil de contornar um regime cujos censores raramente deixavam escapar ao seu “famoso” traço azul os “desvios” ao alinhamento compulsório a esse mesmo regime.

Que palavra era afinal esta que tanto parecia incomodar os líderes do anterior regime mas que, por mera analogia, sempre pareceu causar um sério “transtorno” junto de qualquer regime totalitário?

Essa palavra é, nem mais nem menos, o registo intemporal dos versos e da prosa de alguns dos principais vultos da literatura portuguesa, cuja escrita assumia dessa forma uma “visibilidade” e uma contextualização que em muitos casos se situaria longe da perspectiva inicial dos seus autores.

Desta forma cumpriam-se dois desígnios, ou seja, um de alcance imediato que passaria por transmitir o sentimento do despertar das consciências a meias com um espírito de revolta, e um segundo alcance, menos evidente, de renovar a nossa “leitura” sobre a obra de autores tão díspares e distantes temporalmente, vagueando entre Luís Vaz de Camões, Pessoa, Natália Correia ou Manuel Alegre, entre muitos outros.

Esta não é, aliás, uma característica portuguesa se assim se pode chamar, uma vez que a música sempre foi um pouco por todo o lado o “veículo” de transmissão de uma mensagem muito própria em momentos socialmente conturbados ou de forte repressão, facto que está intimamente ligado à natureza subliminar dos respectivos textos, impróprios para mentes de reduzida compreensão e inteligência.

Não será, portanto, de estranhar que na alvorada do dia 25 de Abril o mote para o que haveria de vir fosse dado ao som de duas músicas que, nesse mesmo dia, ganharam o estatuto da intemporalidade, ficando para sempre os próprios intérpretes ligados a este momento.

Dificilmente hoje em dia alguém questionará a razão pela qual foi essa a via escolhida e não qualquer outra forma de transmissão de uma mensagem que, aparentemente, seria suficientemente simples e entendível para “caber” numa letra de música.

É precisamente a mesma razão pela qual hoje em dia a música se encontra sempre presente em movimentos de contestação social, ou seja, é a expressão de um estado de alma que acompanha o ser humano desde os seus primórdios, transversal a qualquer civilização, e ao mesmo tempo uma arma tão forte que consegue derrubar regimes apenas ao som de uma simples nota. Assim vão as cousas.  

domingo, 10 de março de 2013

Bom e bonito



Quando, em Setembro último, faleceu a maior referência portuguesa contemporânea da denominada música erudita, o compositor Emanuel Nunes, entendi que a sua abordagem a esta forma de arte era, em si mesmo, merecedora de uma reflexão sobre o contexto mais vasto do que é a arte si mesmo.

À memória surge-me uma frase do actor Gerard Depardieu no filme “Green Card” que, depois de tocar ao piano uma obra totalmente atonal olhando para o ar de espanto do seu “público” de ocasião, diz simplesmente “C’est pas du Mozart”, literalmente traduzível por “Não é Mozart”.

 De facto, esta espécie de justificação, quase pedido de desculpa, remete para a noção da percepção que cada um de nós tem da arte, independentemente da forma de expressão da mesma.

A arte, nas suas diferentes formas, é uma realidade que se encontra nos antípodas de uma possível caracterização estática, acompanhando o Homem desde o início dos tempos, evoluindo em função da sua própria evolução, criando invariavelmente roturas com o passado.

Esse movimento de rotura foi sempre “visto” por uns como um evento “natural” e imediatamente assimilável e por outros como uma verdadeira afronta aos modelos até então em vigor, resultado prático de uma tendência natural para uma certa aversão à mudança por boa parte do Ser Humano.

Com maior ou menor resistência, a “força” dos tempos sempre prevaleceu sobre as vontades individuais, levando à assimilação por parte das gerações seguintes das novas tendências, criando uma dinâmica que, qual pedra lançada ao espaço, podendo desacelerar, não mais deixará de seguir o seu caminho.

No entanto, nos períodos de alguma estabilidade artística e antes de qualquer nova mudança, sempre houve aqueles que, antecipando-se aos tempos que haveriam de vir, “forçaram” as referidas roturas, numa espécie de movimento “avant la lettre”, sendo estes aqueles que normalmente haveriam de ser vistos com maior desconfiança.

Esta rotura temporal quase sempre criou para os respectivos autores uma espécie de “olhar desconfiado” não apenas por parte daqueles que são os destinatários finais de qualquer forma de arte, isto é, o público, mas igualmente entre os seus próprios pares.

Na génese de todos estes movimentos está e estará sempre uma visão pessoal sobre a arte e tudo aquilo que nos rodeia, que poderá ou não “beneficiar” de uma maior ou menor adesão por parte de quem com ela se “confronta” sem, contudo, jamais perder essa individualidade.

Por isso se justifica que, no mesmo mundo onde um dia houve Mozart, também possa haver um Emanuel Nunes, ou onde houve Michelangelo possa existir Picasso ou ainda que no mesmo país se possa simultaneamente desfrutar da escrita de Eça de Queiroz e de António Lobo Antunes.

A livre expressão artística é, em si mesmo, uma forma de manifestação de democracia, sendo precisamente em períodos de ditadura que normalmente se procura impor uma espécie de arte de regime, aquela que deverá ser aceite por todos e, consequência disso mesmo, à perseguição - essa forma suprema de incompreensão – de quem a tal se opuser.

O “problema”, mesmo no pior dos tempos, é que a arte não foi nem nunca será consensual. E ainda bem. Assim vão as cousas.

domingo, 11 de julho de 2010

Bolo do caco

O nosso mundo está repleto de lideres, mais ou menos carismáticos, que sendo democráticamente eleitos para os cargos que ocupam, constituem eles próprios a subversão dos regimes democráticos.
Esta minha convicção - assente em demasiados casos concretos - prende-se com a nocção de que a democracia é, ela própria, um regime imperfeito.
Os lideres a que me refiro chegam, normalmente ao poder por via de uma eleição que lhes confere uma ampla maioria de apoiantes que serão, na prática, o suporte futuro da sua manutenção no poder.
Após a "tomada" do poder iniciam, passado pouco tempo, uma leitura da sociedade a partir do qual todos aqueles que não alinham pela vontade da maioria torna-se inimigos do desenvolvimento do país ou da região.
Tudo o resto acaba por se desenvolver de forma relativamente simples e célere.
O partido dominante passa a dominar parte dos orgãos de comunicação, subvencionando-os ao ponto de os tornar dependentes dos subsidios estatais. Não raras vezes o líder politico passa ele próprio a escrever uma coluna ou a ter "tempo de antena" a propósito de quase tudo mesmo que não seja sobre nada.
A aquisição de novos funcionários é feita de forma galopante criando numa legislatura um conjunto de dependentes do poder, seja na perspectiva da manutenção do seu posto de trabalho, seja na convicção de que de outra forma não poderão ganhar novos concursos.
Não raras vezes, contudo, estes locais pouco ou nada tem para oferecer, tão escassa são as suas riquezas naturais ou produtividade dos seus "nativos" e então tornam-se pedintes profissionais em função da natureza desfavorecida da sua região ou ainda dos custos da insularidade.
Não obstante tal dependência, é comum vê-los imbutidos de uma arrogância e sobranceria da "obra feita" (com o dinheiro dos outros) quais "filhos mal agradecidos", obrigando tudo e todos a assistir impávidos e serenos aos mais aberrantes dislates verbais, normalmente perante um silêncio que pouco ou nada tem de complacente mas que dificilmente se entendem.
As oposições, se existentes (ou resistentes) são relegados a um plano pouco mais do que decorativo, tal é o silêncio que se lhes é imposto por constituirem uma minoria.
E então, quem de nós se pode admirar que as reeleições se sucedam de forma natural e quase consensual?
Poderia lembrar nesta ocasião diversos nomes a quem a presente mensagem caberia integralmente, mas alguém dúvida que é exactamente isto que se passa na Madeira desde o 25 de Abril? Assim vão as cousas.