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domingo, 3 de maio de 2020

Diários de uma pandemia - 7ª semana

A nova semana de confinamento "prometia" novidades lá mais para o seu final havendo por essa altura a perspectiva de renovação (ou não) do estado de emergência com tudo o que isso implica em termos de limitações a determinadas liberdades que julgávamos todos por inquestionáveis mas que bem vistas as coisas não decorrem tanto de uma decisão presidencial ratificada pelo Parlamento mas de um dever geral de recolhimento a que apenas alguns resistem a cumprir, não que isso seja estranho posto que em qualquer momento haverá sempre aqueles que entendem haver uma lei geral e uma ausência de lei para eles próprios.

E é sobre liberdade que se deve falar no preciso momento que coincide com duas datas marcantes na vida democrática portuguesa: o 25 de Abril e o 1º de Maio. Em ambos os casos a realização de tais eventos foi desde cedo questionada por alguns, aplaudida por outros, mas admito que ignorada por ninguém. Se ambas as manifestações têm vindo a perder relevância mas não o significado é caso para dizer que este ano o significado superou porventura a relevância dos habituais discursos cada vez mais afastados do que se pretende celebrar e mais um prolongamento da retórica habitual em cada dia de sessão parlamentar.

Não me recordo de tantas manifestações espontâneas de quem entendeu celebrar à sua maneira sobretudo o 25 de Abril, cantando o "Grândola" à janela ou em colunas em alto e bom som, festejando como há muito não se via nas redes sociais. Talvez mais do que nunca as pessoas percebam o valor de sermos responsáveis pelos nossos destinos ou o significado de serem outros a dizer quais as nossas liberdades. Se calhar sempre souberam. Porventura estavam esquecidos. Se assim foi o vírus afinal nem tudo destruiu.

A imagem dessa liberdade tem sido expressa nos animais que à falta de humanos resolver aventurar-se num espaço quase sempre hostil mas que tendo sido deles está mais do que visto um dia voltará a ser deles, assim deixemos nós de os afastar e dar cabo do ambiente. Por aqui essa imagem surge nos gatos que sempre nos visitaram mas aos quais agora conseguimos ver a todo o momento e os pássaros, de tão distintos piares, que quase sempre se confundem com o barulho dos carros mas que agora cantam sem interrupções e se "atrevem" a vir comer umas migalhas de pão deixadas propositadamente sobre a mesa do jardim, sempre atentos a tudo, aos humanos e aos ditos gatos.

A semana anunciava também a perspectiva de um retorno controlado à empresa, numa espécie de regresso à normalidade ou mais propriamente à dita nova normalidade, num regime de escalas que se haveria de consolidar após o anuncio das medidas pós-estado de emergência por parte do Governo quinta-feira e que prevendo um desconfinamento anunciaram também a manutenção do regime obrigatório de tele-trabalho, deitando por terra as boas (embora tímidas) perspectivas de um abandono do posto de trabalho improvisado desde o dia 15 de Março.

Nunca como agora tantas pessoas viveram um momento de tamanha incerteza, perante a necessidade de evitar o alastramento do vírus que se encontra em queda há vários dias e a necessidade de sentir que à vida para além desse vírus que urge retomar, mas cuja duração, tal como no estado de emergência, dependerá afinal de contas de cada um de nós, com um plano que se conhece agora à cabeça alargado ou restringido a cada 15 dias.

Nas janelas vão surgindo os cartazes de um arco-íris que o sol se encarrega de tornar menos colorido e que anuncia que ficaremos todos bem. Será que vamos, ou melhor, será que somos capazes? Há 46 anos colocaram-se vários desafios e o principal seria o que fazer com a liberdade conquistada. Agora, simbolicamente, não será assim tão diferente.

Neste dia 3 de Maio, dia da mãe e inicio do estado de calamidade, haviam 25190 casos registado e 1023 óbitos.

  

domingo, 24 de novembro de 2013

O auto da estupidez


A liberdade de expressão é uma das consequências prácticas de qualquer estado de direito democrático e, no essencial, atribui a cada um o direito de se expressar livremente, sem que por tal facto possa vir a sofrer consequências desfavoráveis para si próprio.
Pessoalmente, actuo neste espaço precisamente no pressuposto que atrás referi sabendo, contudo, que a referida liberdade não é incondicional, não no sentido de se encontrar limitada enquanto conceito abstracto, mas porque em termos concretos, a minha liberdade não deve colidir com igual liberdade de outrem, condicionando-a ou limitando-a.
Dessa situação resultaria uma óbvia subversão do princípio que lhe subjaz e, não querendo contribuir para uma tal alteração deste paradigma, procuro não recorrer ao insulto “fácil” ou sequer ao “lançamento” de falsos argumentos, não só pela convicção de que dessa forma seriam facilmente rebatidos, mas igualmente pela percepção de que não é justificável procurar “chegar” a uma determinada conclusão com base em argumentos pouco credíveis.
Tal facto não impede que, semanalmente, emita a minha opinião e os argumentos que a fundamentam e que os mesmos sejam – espero sinceramente – passíveis de gerar opinião contraditória, ainda que consciente de que o espaço que escolhi para o efeito dispõe de uma menor exposição mediática do que outros canais.
A este respeito dediquei-me a analisar a recorrente tendência para algumas personalidades, mais ou menos relevantes da nossa vida pública, para emitirem opiniões de natureza pessoal rapidamente apelidadas de “polémicas” porque, no essencial, remetem quase todas elas para uma visão – igualmente pessoal – da contextualização social do actual período de crise.
E fazem-no – aparentemente – sem qualquer pudor, “atravessando” dessa forma a “fronteira” inicialmente referida em que a opinião pessoal ofende directamente um conjunto alargado de pessoas que são normalmente o “alvo” de tais polémicas.
A parte relativamente curiosa da questão é que a reacção “viral” (conforme é corrente apelidar-se nos tempos que correm) é quase sempre unanime em repúdio de tais afirmações o que, poderá significar uma de duas coisas: ou a pessoa que as profere está errada ou todos os demais estão enganados e, nestas coisas, cada um que escolha a versão que mais lhe agradar.
A celeridade com que, nos tempos mais recentes, este tipo de afirmações tem vindo a ser veiculado torna, porém, difícil uma selecção “justa” em função do respectivo grau de importância ou, no caso vertente, da reacção que delas emergiu, pelo que a opção correcta será a de contextualizar de forma abstracta essas mesmas afirmações.
Dessa forma e no que toca à política salarial portuguesa retenho a afirmação (entre muitas outras) do falecido Dr. António Borges que, do alto do seu “magnífico” salário, afirmava que “diminuir salário não é uma política é uma urgência”. Contudo, este “princípio” não era universal já que para alguns sectores – nomeadamente para os políticos – a resposta à questão se deveriam ser melhor remunerados foi, sem hesitação, que “não tenho dúvida nenhuma”.
Ainda de acordo com este especialista em frases infelizes não haveria um “regime melhor do que a ditadura iluminada”, citando a esse propósito o exemplo de Singapura, curiosamente um Estado onde vigora uma modelo de sociedade que não é certamente um paradigma de democracia.
Neste mesmo aspecto da moderação salarial veio mais recentemente a terreiro o economista João César das Neves afirmar que o aumento da retribuição mínima seria a pior forma de “estragar a vida aos pobres”, apelidando mesmo de “criminoso” a ideia de criação de um movimento de opinião que defenda esta medida.
Não adianta contestar que em si mesmo a afirmação é contraditória pois não se perceberá de que forma a vida de alguém que já é catalogável como pobre possa ter a sua vida ainda mais “estragada” pelo simples facto de lhe aumentarem a remuneração (mínima).
Parece, alias, que este tema é demasiado “rico” para sobre ele dissertarem poucas pessoas e, nesse aspecto, também o Eng. Belmiro de Azevedo – um dos homens mais ricos de Portugal – afirmou em tempos que “sem mão-de-obra barata não há emprego”.
Não posso, por fim, deixar de referir a expressão recente da romancista cor-de-rosa Margarida Rebelo Pinto que, entre outras preciosidades” afirmou a sua “repulsa” por quem – legitimamente, presume-se – se manifesta contra os cortes salariais porque no seu entender ela própria “como toda a gente” teve cortes e que nada mais nos resta do que “aprender a viver com menos”.
Diga-se, contudo, que a própria condição de pobreza parece ser “fonte” de alguma verbalização menos conseguida e, também aqui, por mais do que uma “personalidade” pública.
Veja-se o exemplo de Cristina Toscano Rico, da família Espirito Santo (uma das mais abastadas de Portugal) que afirmou a propósito da praia da Comporta que ali se vivia “em estado mais puro” para a seguir referir que tal seria como “brincar aos pobrezinhos”.
Não obstante e em abono da verdade a própria autora desta expressão haveria mais tarde de pedir desculpas pela infelicidade “descontextualizada” das suas afirmações. É coisa rara, mas fica bem.
Voltando a João César da Neves ficámos a “saber” que a situação de pobreza será, no que toca “à maior parte dos pensionistas” uma situação mais aparente do que real, uma vez que na sua opinião eles estarão apenas a “fingir que são pobres”. Pelo menos assim será na sua cabeça de faz-de-conta.
Por estranho que pareça até aqueles cuja actividade é a assistência aos mais desfavorecidos e que para tal necessitam de forma permanente da caridade alheia parecem ter uma opinião que mesmo aqueles que prestam essa mesma caridade terão de aprender a viver “mais pobres”, de acordo com a opinião da Dra. Isabel Jonnet do Banco Alimentar contra a Fome, porque têm vivido “muito acima das possibilidades” e para que não restam dúvidas ilustra a mensagem com uma imagem tão infeliz como absurda de que “se nós não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, então não comemos bifes todos os dias” ainda que não se perceba bem a quem é que se estará a referir em concreto que tenha uma tal ementa tão pouco variada sem ter dinheiro para tal.
A presente “ilustração” não ficaria completa sem uma referência ao entendimento que alguns destes indivíduos têm sobre o alcance da austeridade e os respectivos impactos no progressivo empobrecimento da sociedade.
Ficou, a este propósito, tristemente célebre a opinião do banqueiro Fernando Ulrich que o país deveria “aguentar mais austeridade” e se algo ficou para memória futura dos portugueses foi a resposta que se seguiu à questão se os portugueses aguentariam mais austeridade reforçando o entendimento que “ai aguenta, aguenta”.
Mas é preciso perceber o porquê desta convicção. É que, no seu entender, “se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?” referindo que a ele próprio poderia suceder passar do estatuto de banqueiro-rico para um sem-abrigo indistinto entre os demais afirmando que “isso também nos pode acontecer”. Em teoria, claro.
Nada parece deter a ansia de lançar atoardas sobre tudo e todos e por isso não é de estranhar o entendimento de João César das Neves que o Tribunal Constitucional funciona “em termos políticos” com argumentos baseados em “princípios genéricos de igualdade e outras coisas” ou que a etérea Margarida Rebelo Pinto se revele “profundamente triste” por assistir a manifestações que apenas servem para “interromper e tentar perturbar o trabalho daqueles que neste momento governam o país”. Elucidativo.
O mais grave de tudo isto é que parecem não restar dúvidas sobre a convicção com que este tipo de afirmações é produzida, podendo mesmo assumir uma carácter quase religioso tomando por exemplo a convicção do empresário Alexandre Soares dos Santos que, em 2011, afirmava que a entrada do FMI em seria “uma bênção” para Portugal. Ámen.
A meu ver e em resumo, o que está por detrás de todos estes “pensamentos” não é o desejo de uma polémica inútil mas sim a assunção despudorada de convicções pessoais que constituem uma perigosa inversão dos valores que devem guiar uma sociedade democrática onde, entre outros aspectos, se respeite e proteja aqueles que mais necessitam e o direito daqueles que exigem precisamente esse respeito e protecção. Assim vão as cousas.

domingo, 9 de junho de 2013

Sinal dos tempos


Quando, em Setembro do ano transacto, tive ocasião de efectuar a apresentação pública do 2ª Livro de Crónicas, iniciei a minha breve palestra recordando um trecho literário extraído de um célebre livro de Charles Dickens, “A Tale of Two Cities”, escrito em meados do século XIX.

Desde logo foi meu entendimento que a frase que então proferi poderia, em si mesmo, proporcionar uma dissertação autónoma, tendo por base cada um dos “momentos” que compõem a totalidade da frase com que o livro se inicia, o qual remete para os primórdios da Revolução Francesa e há-de terminar naquilo que se convencionou chamar de período Jacobino.

Não se tratará, fica desta forma feito o aviso, de uma análise histórica de tal período, mas sim, tal como naquele dia 22 de Setembro, de procurar efectuar uma extrapolação de cariz pessoal de cada uma das referidas frases, face ao contexto histórico e contemporâneo de Portugal e do resto da Europa.

It was the best of times; it was the worst of times!

O século XX “assistiu” ao surgimento de um número considerável de regimes de natureza ditatorial na Europa, que assentavam numa figura normalmente suficientemente carismática para conseguir num primeiro momento “convencer” a população dos respectivos méritos, para progressivamente deles se afastar – dos méritos e das pessoas – tornado o seu poder quase absoluto e inquestionável, eliminando todos aqueles que a ele se opunham.

Este condicionamento forçado é, sempre ou quase sempre, o veículo necessário para o surgimento de movimentos contrários ao regime, levando a que um certo numero de pessoas, com sacrifício das suas próprias vidas, lute em nome dos demais por alcançar essa aspiração suprema de liberdade.

Esta mesma Europa do século XXI não se confronta com regimes desta natureza, mas com uma forte ameaça aos princípios fundamentais da protecção social que os Estados devem assegurar aqueles que se normalmente se designam por mais necessitados.

Fala-se agora de uma ditadura do poder económico sobre os direitos sociais, e uma vez mais se erguem os movimentos de pessoas que se manifestam a favor da salvaguarda desses mesmos direitos.

É novamente o tempo dos IDEAIS.

It was the age of wisdom; it was the age of foolishness!

Em Maio de 1968 surge na França um movimento grevista, cujo significado e alcance ainda hoje é objecto de estudo aprofundado, por configurar na sua génese uma forma de insurreição popular de base estudantil, nomeadamente universitária, rapidamente estendida a milhões de outras pessoas (cerca de 2/3 dos trabalhadores franceses), provenientes das mais diversas classes.

Aos valores de uma esquerda radical e de um conceito de anarquia juntaram-se as noções de rotura com os valores da sociedade de então, ao nível da educação ou da liberdade sexual.

O carácter fugaz do fervor revolucionário de então tem, nos dias de hoje, algum paralelo com os movimentos espontâneos e de natureza sectorial que surgem um pouco por todo o lado, normalmente fruto de uma capacidade mobilizadora das denominadas redes sociais.

Contudo, esses mesmos movimentos tendem a desagregar-se tão rapidamente como se formaram, fruto de uma evidente incapacidade em dar continuidade e expressão prática dos respectivos fundamentos, porventura pelo próprio “risco” de, por essa via, se tornarem indistintos daqueles contra quem se manifestam.

Este é o momento da expressão da CIDADANIA.

It was the epoch of belief; it was the Epoch of incredulity!

Durante largos anos – demasiados anos – os Portugueses e diversos dos seus parceiros europeus “conviveram” lado-a-lado com situações de pobreza, fome e desemprego.

Eram os tempos de transformação de sociedades essencialmente rurais e de auto-subsistência em sociedades industriais, de matriz individualista, sem uma verdadeira consciência social.

O resultado foi o progressivo afastamento entre as pessoas, o fim do conceito de vizinhança e da própria vivência familiar, cuja consequência “visível” é a ausência de um acompanhamento adequado na fase de infância que não é possivel dissociar do abandono e solidão de cada vez mais idosos.

Esta “lógica” do cada um por si ou, por outras palavras, de um acentuado egoísmo colectivo determina quase sempre a imediata separação entre “fortes” e “fracos”, tendo como consequência prática o crescimento das desigualdades.

Os elevados índices actuais de desemprego e as mais do que evidentes situações de extrema pobreza e de fome, retomam nos dias de hoje a necessidade do fortalecimento dos laços de SOLIDARIEDADE

It was the season of light; it was the season of darkness.

Os sentimentos de xenofobia e racismo (e outras formas de descriminação) na Europa tiveram o seu “ponto alto” com a associação de tais sentimentos a movimentos de natureza politica que “conduziram” essa mesma Europa a uma guerra mundial e a uma estatística de mortes sem paralelo na sua história.

A divisão política na Europa que se seguiu ao Holocausto, originou novas formas de perseguição a Leste em paralelo com a progressiva recuperação económica e democratização da Europa Ocidental.

Hoje em dia é fácil constatar a existência de novas formas de intolerância numa Europa sem barreiras físicas, nomeadamente perante o fluxo de emigração proveniente de países árabes ou pela progressiva proliferação da cultura islâmica um pouco por todo o Continente Europeu.

Assiste-se hoje a uma estranha (mesmo bizarra) confluência entre movimentos de extrema-direita e aqueles que estes mesmos movimentos haviam perseguido no passado.

Teme-se pela formação da “Eurábia” e, conscientes dos perigos emergentes do acentuar dos extremismos, volta a falar-se de TOLERÂNCIA.

Por tudo isto sou “forçado” a concluir que os ideais da Revolução francesa são hoje, como nessa época, totalmente válidos, na medida em que ditaram um novo paradigma – que se estendeu a outros continentes – assente em princípios do humanismo.

Infelizmente, o que parece igualmente claro é que a fronteira que nos separa entre a defesa de tais princípios e aquilo que então se designou de “Reino do Terror” é, e continuará a ser, incompreensivelmente ténue. Assim vão as cousas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A fronteira racional


Em 14 de Fevereiro de 1989 o mundo tornou-se consciente de uma realidade que remetia para uma vertente da relação entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, até aí provavelmente ignorada.

Nesse mesmo dia, o líder espiritual e político do povo iraniano, o ayatollah Khomeini, condenou à morte um escritor até aí pouco conhecido do grande público (Salman Rushdie), através de um decreto religioso (fatwa), tendo por base a acusação de blasfémia contra o Islão, devido à publicação de um livro (Versículos Satânicos), situação que obrigou o escritor a viver em quase clandestinidade durante largos anos, até que, muito recentemente, o referido decreto foi revogado.

Alguns anos mais tarde (em 2005) um jornal dinamarquês (Jyllands-Posten) resolveu publicar umas caricaturas que satirizavam o profeta Maomé, originando uma espiral de violência, uma vez mais pelo carácter blasfemo das mesmas, à luz do princípio islâmico da proibição das representações visuais do profeta.

Como consequência das ameaças de morte e recompensas pelo seu assassinato de que foram alvo, os cartoonistas (e o editor do jornal) passaram a “viver” escondidos, numa espécie de reclusão forçada por um julgamento sumário.

Mais recentemente e a propósito de um vídeo considerado anti-islâmico que começou a circular no YouTube, o mundo árabe voltou a insurgir-se contra o ocidente, levando a novos e cada vez mais graves incidentes, dos quais resultaram diversas mortes, incluindo a de um embaixador norte-americano.

De acordo com a minha perspectiva a súmula destes (e de outros menos mediáticos) pode colocar-se em dois planos distintos.

O primeiro é o do “confronto” entre a liberdade de informação e a repressão dessa mesma liberdade por parte de alguns sectores islamitas (embora não exclusiva destes), através de uma mais do que evidente intolerância religiosa, perante o mundo ocidental, não islâmico.

A questão que se coloca é se a primeira deve simplesmente soçobrar perante a segunda face à desproporcionalidade das consequências que lhe estão normalmente associadas, questão esta que remete para o segundo plano de análise, ou seja, o dos limites da liberdade de imprensa.

Se for previsível admitir que a consequência habitual da divulgação de uma determinada notícia (mesmo que seja em forma de cartoon) resultaram distúrbios e a morte de inocentes, deverá essa mesma divulgação ser impedida ou, no mínimo, revista na respectiva forma?

Os puristas da liberdade de expressão dirão, obviamente, que não, que se trata de um valor supremo, inalienável e não condicionável por outros valores.

Contudo, a liberdade de expressão não é, certamente, a única liberdade que existe, na medida em que “corre” em paralelo com outras de igual ou mesmo superior valor, entre os quais o direito à vida.

A questão a meu ver é que, quando um direito se sobrepõe a um outro deixa de ser, na maioria dos casos, um direito, mas uma forma de tirania, quando a liberdade de uns é condicionada pela liberdade de outros “justificada” pela intemporal máxima de que os fins justificam - aparentemente – todos os meios.

Poder-se-ia esperar que o “sacrifício” de algumas vidas poderia, no limite, ser o “contributo” necessário para a resolução do problema. Contudo, este argumento perdeu há muito a sua validade, face à realidade dos factos.

E esta realidade - o segundo dos planos iniciais - é que, quase sempre aquilo que se segue à difusão de imagens ou conteúdos considerados ofensivos, seja por movimentos islâmicos ou por outras confissões religiosas, resulta exclusivamente do aproveitamento de um grupo mais ou menos restrito para, em nome da fé, passar as suas próprias mensagens de ódio, as quais dificilmente terão alguma conexão, próxima ou remota, com essa mesma fé.

Em suma, é minha convicção que entre os idealismos de uns e o fundamentalismo de outros o problema irá, no essencial, manter-se no tempo, com tendência para um acentuado agravamento de uma situação que, sabendo-se como começa, também se sabe como acaba. Assim vão as cousas.

domingo, 12 de setembro de 2010

Tinta azul

Falar de censura em Portugal nos dias que correm tornou-se mais ou menos recorrente.

Será, contudo, correcto falar-se de uma verdadeira censura numa sociedade global como a nossa? Estou absolutamente convencido que não.

Entendo, aliás, que existe um verdadeiro paradoxo na convicção de que exista alguma forma de condicionamento da liberdade de expressão. É que em regimes ditatoriais não é, tão pouco, possivel falar da propria censura.

Os exemplos na nossa Sociedade são suficientes para se perceber que quem mais fala de censura é quem mais usa da prorrogativa da liberdade de dizer o que bem lhe entender.

Ao ler as crónicas de Eduardo Cintra Torres ou de José Manuel Fernandes, ambos jornalistas do Público, quando falam sobre o dominio dos poderes politicos sobre os orgãos de comunicação social, questiono-me se não são eles próprios a demonstração do contrário do que pretendem afirmar.

Ouvimos de forma preocupada a rábula do jornalista Mário Crespo que "ouviu" alguém que tinha "ouvido" que o primeiro-ministro, durante um repasto, se referiu a ele proprio como um "problema" que era necessário "resolver" (versão, aliás desmentida pelo próprio director do canal de televisão, também ele presente no local da "conspiração). Uma semana depois surge nas estantes um novo livro baseado numa crónica supostamente "censurada", livro este sobre o qual o jornalista Mário Crespo refere que "preferia não ter escrito" (curioso livro este que é escrito, editado e publicado numa semana).

Ou, "last but not least", a cada vez mais do que evidente agenda politica do casal Moniz na TVI, assente numa produção de novos factos politicos - normalmente com o mesmo visado - apresentados a um ritmo vertiginoso, cujo estilo era, inclusivamente, contestado por destacadas referências da classe jornalistica. No fundo vale a lógica de que dois factos desgarrados se apresentados no mesmo contexto, formam um conjunto coerente (ao estilo Michael Moore em relação aos podres da América).

Então pergunto-me: não será então que estaremos perante um movimento inverso, tão comum noutros países, de condicionamento da acção politica devido a impulsos, mais ou menos corporativo, das linhas editoriais de alguns orgãos comunicação?

A ser verdade, não será esta também uma forma de censura? Não deve ser, porque na verdade podemos falar dela. Assim vão as cousas.



domingo, 22 de agosto de 2010

O homem e a sua cadeira

"O que este país precisava era de um novo Salazar". Esta é uma frase que, dita uma vez que seja, constitui um dos chavões mais hediondos que eu posso imaginar.

O país "comemora" os 40 anos da morte do ditador e porque de um ditador se tratava só consigo imaginar que alguém possa conceber tal raciocinio (se é que assim pode ser apelidado) que acima se expressa por um de dois motivos:

  • Por ignorância histórica ou,

  • Por se tratar de alguém que beneficiava directamente do regime.
Tirando isso não vislumbro qual seja o motivo pelo qual alguém nos dias de hoje possa desejar um clone da "outra senhora".

Portugal foi governado durante meio século por uma ditadura caduca, periodo durante o qual este país regrediu a olhos vistos da restante Europa Ocidental, nomeadamente no pós-guerra, quando todas os demais países floresciam no seio de regimes democráticos.

Um dos segredos de qualquer ditadura é cultivar a ignorância, porque quem não sabe ou não conhece não aprende a questionar.

Quem ousou faze-lo sofria as respectivas consequências sob a forma de prisão, tortura, deportação ou mesmo a morte. Para isso o Estado criou uma figura de autoridade denominada PIDE que, bem ao estilo das SS, garantia a manutenção de um "status quo" que impedia formalmente a contestação.

Sob o dominio das grandes familias criou-se a ideia, que passou até hoje, de uma economia de pleno emprego, feito à custa da total de total dependência, assente na ausência dos mais elementares direitos laborais ou mesmo de um regime de segurança social, cujas consequências andamos todos a pagar até agora.

Lançaram-nos, por fim, numa guerra cujo resultado final era expectável. A vontade de um povo não pode ser silenciada pela força e assim foi mais uma vez. Perdemos a guerra e comprometemos o futuro imediato dos novos países saidos da independência.

Criticamos a arrogância dos nossos lideres politicos, mas admitimos a subjugação total.

E então se nos causa repugnância - quase unânime - verificar a ausência de liberdade de expressão, de manifestação, da liberdade de voto noutros contextos geográficos, porque é que esta seria a solução dos nossos males?

Um dia ouvi um popular de Santa Comba Dão dizer, na sua genuinidade, que o único mal do Salazar foi "ter nascido". É nesta pureza e na nossa memória colectiva que devemos perspectivar o nosso presente mas sobretudo o nosso futuro. Assim vão as cousas.