domingo, 5 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 2ª semana

Poderia achar-se que o famoso provérbio se aplica indistintamente da causa mas verdade é que a segunda semana chegou sem perspectivas optimistas quanto ao possível fim do confinamento social e menos ainda quanto à eventual redução da proliferação do vírus.

De Espanha e de Itália chegam todos os dias notícias impensáveis há 1 mês atrás para quem, como nós, vivia um momento de algum fulgor económico, boas perspetivas futuras mesmo que alguns arautos da desgraça anunciassem a mais do que previsível chegada de uma recessão, embora certamente os próprios estivessem longe de adivinhar que uma bactéria seria muito mais letal e rápida do que a usual ganância do homem que, de tempos a tempos, gera outro tipo de pandemias, de natureza financeira, quando se percebe que toda o sistema se alimenta muito mais de especulação do que de razão.

Os meus fundos de investimento que cresciam à ordem de uns galopantes 23% caiam agora a pique, não tendo sido pior o desastre porque no momento da declaração de pandemia pela OMS tive a decisão ajuizada de resgatar todos os fundos ainda positivos, recolhendo as possíveis mais-valias, deixando os restantes a aguardar melhores dias que, já se sabe, haverão de chegar.

Esta semana começa com uma espécie de sentimentos mistos, por um lado percebe-se claramente que as pessoas começaram a assimilar a "nova rotina", bastante visível no crescimento do volume de trabalho, seja através de e-mails ou de chamadas telefónicas o que pelo menos permite perceber que o mundo não parou e os negócios continuam a mexer. Por outro lado também passou a ser perceptivel que muitos desses negócios caminham a passo acelerado para um destino incerto, face aos problemas de tesouraria das empresas a quem, de um momento para o outro, deixaram de ter clientes e passaram a somar despesas.

Sucedem-se as medidas do governo, da UE, do BCE, do FMI, de tudo o que movimenta dinheiro no mundo, sobrando para mais tarde perceber quem e de que forma os Estados, ou seja, todos nós, iremos pagar a factura das maquinas de fazer dinheiro trabalharem agora imunes ao vírus. Em particular o lay-off passou a fazer parte do léxico comum o que naturalmente de uma forma ou de outra acabará por ter um crescente impacto no negócio da corretagem, pior ainda se se perpetuar no tempo.

Tirando isso mantivemos as boas práticas do regime de recolhimento, assegurando as mesmas rotinas de um qualquer dia normal de trabalho, que começa invariavelmente por volta das 9h da manhã, interrompe-se para a hora de almoço, recomeça das 14 horas e irá findar, às 18h da tarde. É importante manter tais rotinas não apenas para a nossa paz de espírito, eliminar falsas imagens de "férias prolongadas" e assegurar a normalidade possível aos Clientes, talvez mais do que nunca confiantes de que o seu parceiro corretor habitual não deixará de o apoiar nesta altura particularmente complexa.

O tempo lá fora está como o vírus, incerto. Tanto chove como faz sol. Se faz sol então o café a seguir ao almoço é tomado no jardim em frente à casa, com o sol pela cara, pequeno assomo de liberdade perdida, sem no entanto violar qualquer regra de confinamento.

Como em qualquer crise, particularmente esta que desaconselha deslocações, haverá sempre que tenha a arte e o engenho de adaptar a sua actividade às circunstâncias e, fazendo parte de uma comunidade relativamente pequena e de tendência rural onde (quase) todos se conhecem, tratámos de aproveitar o facto de os fornecedores habituais de carne, frutas e legumes fazerem serviço take-away, outra palavra que, mesmo já existindo passou a fazer parte do léxico comum, para nos abastecermos para os próximos dias, tendo constatado que sendo as encomendas tantas já não conseguem dar vazão a tantos pedidos, pelo que não foi de estranhar que num caso tivesse sido um táxi a fazer a entrega e noutro tivéssemos nós próprios de ir buscar ao local a encomenda de carne.

De resto a opção foi por ir aos supermercados do costume ao sábado de manhã para evitar filas, bem visíveis à distância devido ao condicionamento do numero de pessoas permitidas ao mesmo tempo no interior do estabelecimento, levando a que a dita fila se forme no exterior, com um espaçamento de pelo menos 1 metro, havendo quem use mascara e quem não a utilize, tema controverso até na "comunidade cientifica".

Ao ver esse cuidado das pessoas em assegurar a distancia entre uns e outros não posso deixar de me lembrar de certos filmes apocalípticos, onde impera sobretudo o medo. Veremos o que sobrará desse medo quando tudo finalmente passar.


Entretanto o J. começou a ocupar o tempo a fazer um puzzle de 2000 peças que supostamente deveria entretê-lo no mínimo durante 2 semanas mas que, talvez por uma questão genética, o próprio tratou de acabar numa única semana. Digo genética porque eu era precisamente igual. Desconfio que quando terminar a pandemia teremos de arranjar um espaço suplementar para arrumar os puzzles.


As redes sociais são, por esta altura, o foco onde tudo se passa, seja nas remas de mensagens via wattsup ou equivalente, onde pelo menos não faltam sinais da infindável imaginação do ser humano, desde logo motivadas por um estranho fenómeno que levou milhares de pessoas a colocarem a aquisição de papel higiénico à frente de outros bens essenciais, fenómeno esse que espero um dia venha a ser devidamente estudado e enquadrado do ponto de vista sociologico.


Mas se nessas mesmas redes sociais cai um volume considerável de informação útil e válida e até de entretenimento, também não é menos verdade que rapidamente se transformou numa espécie de pandemia paralela, onde a desinformação e as famosas "fake news" são recorrentes, umas fruto da ignorância de quem as veicula, outras manifestamente o resultado da mente perversa de quem, nestas alturas, pretende obter um ganho qualquer, mais ou menos evidente, seja ele politico ou meramente de causar alarme social.



Por isso mesmo e para bem da minha sanidade mental comecei voluntariamente a ocultar todas as notícias falsas ou de incentivo ao ódio colocando ao mesmo tempo os amigos que replicam tais mensagens, sejam eles mais ou menos chegados, numa quarentena virtual forçada de 30 dias, até lhes passarem os "sintomas".

O bom tempo de fim-de-semana permitiu o usufruto do quintal ou jardim, fazendo uso do barbeque e da possibilidade que nem todos têm de almoçar ao ar livre, ao som dos pássaros que, por esta altura e na falta do som dos carros e dos humanos, se fazem ouvir maravilhosamente.


No final dessa semana, dia 29 de Março, haviam 5962 casos confirmados e 119 óbitos.

sábado, 4 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 1ª Semana

Era uma vez um vírus. Creio que é assim que começam quase todas as histórias de encantar, com heróis e heroínas, vilões e os bobos de serviço, que servem para dar um toque cómico ao tom geral de tragédia que, invariavelmente terá um final feliz.

Nesta história, contudo, é ainda cedo para dizer quando será o final e, prevendo-se (e esperando-se) que seja feliz, quanto sangue, lágrimas e sacrifícios em geral será necessário derramar quando se puder afirmar, com segurança, "acabou". 

Confesso, com algum remorso, que eu próprio desvalorizei inicialmente os sinais que "vinham da China", convicto que o dito vírus que agora começava a ganhar nome próprio fosse ele Coronavírus ou COVID-19 nunca colocaria em causa o modo de vida europeu e mundial mesmo que inevitavelmente cá um dia chegasse. E chegou. Chegou com toda a pujança.

Os primeiros tempos são, já se sabe, de um misto de desconfiança e desnorte, com uma crescente insegurança, alimentada diariamente pelas televisões e pelos números esmagadores que chegam de fora mas que, em meados de Março ainda não haviam chegado a Portugal, porventura por via da nossa localização geográfica no extremo da Europa, como se de uma nuvem epidémica estivesse a varrer todos os locais mas que de alguma forma estivesse a desviar-se destas paragens, como se fossem aquelas tempestades que parecem afectar uns países mais do que outros.

Apesar da crescente ansiedade e o avolumar de informações por parte de outros corretores e parceiros seguradores que entretanto desmarcavam eventos previamente agendados e entravam agora sucessivamente em regime de tele-trabalho, nós continuávamos firmes nos nossos postos de trabalho, embora fosse notória o progressivo alheamento e consequente redução da produtividade individual em função das notícias "que iam chegando".

Mas a realidade continua a ser o que é, e a ela não é possível fugir eternamente, ainda que falar de uma "fuga" talvez se afigure como exagerado, uma vez que de uma forma ou de outra ela há-de se impor, resta saber se de forma tranquila ou pela força.

Talvez por isso mesmo num tempo quase recorde a empresa iniciou o processo de transformação das nossas rotinas de trabalho "on site" para tele-trabalho, por fases, e começando por todos aqueles que tinham uma situação familiar porventura mais exposta às possíveis consequências nefastas do vírus, isto é, aqueles colaboradores com filhos menores.

Não foi por isso mesmo estranha a notícia que eu e a X., colegas na mesma empresa durante o dia e marido e mulher no restante tempo, fomos informados da decisão de iniciar o regime de tele-trabalho a partir do dia 16 Março, passando a acumular no mesmo espaço as "funções" que durante cerca de 15 anos foi possível manter separado.

E é aqui que começam estes diários, ou falsos diários posto que serão escritos numa base semanal.

A escola por esta altura já tinha encerrado e pela frente tínhamos o desafio de articular o trabalho, os deveres escolares e tudo o mais o resto, até mesmo incerteza do afastamento dos familiares mais próximos, os pais e irmãos, por tempo indeterminado.

Sem ter entrado em loucuras de açambarcamento que se iam ouvido de quem, de forma descontrolada e antevendo o Apocalipse, desatou a fazer compras desenfreadamente, tivemos o cuidado de nos abastecer o suficiente para não ser necessário fazer compras de forma contínua, uma vez que os conselhos para "ficar em casa" eram já por esta altura uma constante, mesmo que admitindo excepções.

Por coincidência do destino também eu próprio me encontrava de "férias" do MBA ou, dito de outra forma, entre cursos, aguardando o inicio daquele que será o ultimo trimestre, tendo tomado a iniciativa de iniciar a leitura antecipada do livro aconselhado para esse mesmo trimestre, algo que admito venha a "facilitar" todo o restante trabalho que me espera.

O "quartel-general" improvisado foi montado na sala de jantar, laptops frente a frente e impressora a meio, com os telemóveis ali mesmo ao lado e um rádio que passou a debitar musica quase sempre clássica ou outros estilos sempre que a C. ocupava o meu lugar.

A primeira semana de trabalho foi, sem surpresa, verdadeiramente atípica, uma vez que tal como nós próprios muitas outras pessoas estariam a mudar as suas rotinas, adaptando-se a uma nova realidade - a dita realidade - pelo que não foram nem muitos os telefonemas nem muitos os e-mails para responder, o que permitiu intercalar as minhas próprias tarefas com os deveres escolares da C. que iam sendo enviados por e-mail e aos quais cabia responder enquanto o J. se mantinha quase sempre pelo quarto alternando o estudo e os deveres com os jogos no computador, sem nunca nós próprios intervirmos, como se fosse este o ambiente normal de uma sala de aula onde, por definição, essa intervenção jamais se verifica.

E depois havia o resto do tempo, o qual passava em boa parte a ser ocupado a ver o evoluir da situação no mundo, com o primeiro caso confirmado em Portugal "apenas" no dia 2 de Março e à data do inicio do tele-trabalho ainda sem registo de mortes por cá. 

Mas a dita da realidade é inexorável e a notícia dessa morte acabaria por chegar no dia 16 de Março.

Não há um segredo para conseguir imediatamente adaptar as rotinas tão subitamente alteradas e por não haver segredo nem técnica alguma inventada para nos explicar antecipadamente o que fazer em caso de confinamento social por via de uma pandemia. Por isso mesmo adapta-se o tempo às circunstâncias, por exemplo mantendo a rotina de fazer exercícios em casa, "tarefa" na qual participei inicialmente para rapidamente concluir que não seria por ali que iria manter a forma.

Esporadicamente faziam-se caminhas curtas e ao final da tarde, tal como curtas eram as tentativas de retomar os hábitos de corrida, sempre nas redondezas e isoladamente como diziam as regras de confinamento mas também por curtas distâncias e evitando os passeios para não nos cruzarmos com outras (poucas) pessoas que por ali também circulavam.

A verdade é que sempre achei que ao fazer as ditas corridas, mesmo que com todos os cuidados e até autorizado pelo Estado de Emergência que entretanto havia sido decretado, estava de certa maneira a fugir ao "espírito" da coisa, o qual remetia claramente para um dever de consciência de evitar o mais possível o contacto com outras pessoas para dessa forma evitar a possível propagação do vírus.

É importante referir que nesta altura não podíamos nós próprios afirmar que não estivesse algum de nós infectado uma vez que como era já mais do que sabido o tempo de incubação do dito é de sensivelmente 14 dias e até à bem poucos dias estivéramos todos em plena actividade laboral e escolar o que significa que, potencialmente, poderíamos ter estado em contacto com alguém infectado sem que esse alguém o soubesse. Aliás, pessoalmente estivera poucos dias antes em contacto com alguém que me ia relatando por mensagens o seu estado, o qual apresentava todos os sintomas "clássicos" do vírus, ainda que não comprovado por teste adequado.

Ainda assim, e porque tinha prevista uma deslocação mais a X. à empresa precisamente no dia 15 de Março entendi alertar a Administração do possível contágio dessa colega, aconselhando a que não estivesse presente na referida reunião de forma profilática, algo que embora com alguma desconfiança foi aceite, pelo que a reunião acabou por ter lugar através do recurso ao Zoom, ferramenta bastante familiar por ser usada diversas vezes ao longo do MBA.

Entretanto os meus sogros haviam regressado da República Dominicana e, correctamente, submeteram-se à quarentena recomendada a quem vinha de fora, algo que interromperam momentaneamente sob o pretexto de nos fazerem chegar umas frutas e recordações de viagem, mas que no fundo não foi mais do que um motivo para matar saudades da família, particularmente dos netos.

Assim foi estranho vê-los chegar ao portão de máscara na cara, sem qualquer forma de cumprimento direto a nós que, por seu turno, nos mantínhamos do lado de cá do portão. O distanciamento social não nos afasta apenas dos vizinhos mas também dos familiares e nesse aspecto nem este pretexto serviria aos meus pais se deslocarem de Alcobaça (ou o inverso) para matar saudades, pois a idade e sobretudo a saúde teima e colocá-los nos denominados "grupos de risco".

A par do trabalho e a crescente preocupação sobre o destino de muitas empresas nossas Clientes tentava-se perceber o verdadeiro impacto nas nossas vidas, ao mesmo tempo que se recuperavam os hábitos de leitura, colocar o visionamento de filmes em dia.

No final dessa semana, dia 22, já haviam 1600 casos confirmados e 14 óbitos.













domingo, 27 de outubro de 2019

Ode à Memória

Olá meus queridos avós,
Posso tratar-vos por tu?
Bem sei que as convenções e os costumes o desaconselham,
Mas vamos imaginar que tenho 6, 7, 8, 9 anos,
Quando a minha ingenuidade me impedia de pensar que algum dia haveriam de partir,
Deixem-me recordar-vos assim,
Podemos ir a São Martinho outra vez para te poder ver tomar o teu banho de praia anual?
Peço-vos que me desculpem se a minha idade alguma vez vos fez sentir tristes,
Desculpem-me se eu pensava que uma galinha podia voar,
Posso voltar a comer o maior e mais bem cheiroso pêssego do arressaio?
À medida que foram partindo algo de mim foi morrendo também,
Felizmente não a cabeça e o coração para saber o quanto gosto de vocês,
Para me lembrar de vocês todos os dias,
Posso ver-te fazer bolas de futebol?
Ensinas-me a fazer uma para eu guardar para sempre?
Desculpa se eu achava que os púcaros eram para deitar abaixo,
Os vossos netos sentem a vossa falta,
Os vossos bisnetos também,
Mesmo aqueles que vocês não chegaram a conhecer,
Desculpem-me se não vos vi antes de descerem à terra,
A minha ultima imagem de vocês tem de ser viva como eu vos conheci,
Podemos andar de mota outra vez?
Lembram-se quando os vossos netos andavam de bicicleta no adro da igreja,
Quando os sinos tocavam para a missa, casamentos e funerais,
E vínhamos à janela ver quem passava escondidos atrás da cortina,
Um dia também tocaram por vocês,
Pareceu-me diferente, mais longo, mais triste,
Podemos voltar receber o Senhor Prior com as amêndoas da Pascoa?
Com os melhores fatos de Domingo?
Lamento que os vossos bisnetos nunca venham a viver tudo isto,
Espero poder transmitir-lhes quem eram vocês,
Podemos andar de carroça mais uma vez?
Posso ser eu a leva-la?
Desculpem-me se não chorei tudo o que devia quando partiram,
Acreditem que por dentro correm lágrimas de sangue,
Podemos ir visitar a casa dos tios?
A tia Milú ainda cá anda, como antecipou o tio Manuel,
Parece-se tanto contigo avó,
Tocas mais uma vez o teu clarinete?
Posso ordenhar as vacas e as ovelhas?
Jogamos mais uma cartada da bisca?
Desculpem-me se não vos disse nada disto em vida,
Mas afinal de contas só tenho 6, 7, 8, 9 anos,
Podemos repetir tudo outra vez?
Obrigado...


domingo, 14 de abril de 2019

De regresso a Edimburgo / Air ais gu Dùn Èideann


A parte "simpática" de ter uma viagem que não está condicionada por nada nem ninguém para além dos dias de chegada e partida é o de podermos adaptar o programa de viagem de acordo com as circunstâncias sempre imprevisiveis de quem, afinal de contas, viaja com um destino em mente mas sem a pressão das horas.

Se a isto juntarmos a possibilidade de otimizar o tempo em cada paragem de acordo com a realidade de cada local, quase sempre distinta do que nós próprios antecipamos, permite transferir para o dia seguinte aquilo que não se fez de véspera porque, por algum motivo, não foi possível.

Tal foi o caso das visitas a dois locais de interesse em Glasgow, bem perto da Catedral, que na véspera e por se tratarem de edificios públicos, estavam encerrados precisamente ao público.

Importa referir que, sem prejuizo do que mais adiante se irá dizer, que a principal razão para o prolongar da estadia foi a quase obrigatoriedade de visitar o local onde se encontra uma das maiores obras de arte da história, ainda que reconhecendo que este titulo está necessáriamente repleto de subjetivismo, mas sendo a arte precisamente uma realidade inteiramente sujeita a subjetividades dependentes do gosto de cada um, não vale a pena perder tempo a pensar no que os outros pensam e fazer a nossa própria avaliação.

Essa obra intitulada Christ of Saint John of the Cross, do pintor espanhol Salvador Dali, sempre me impressionou ao ponto de ser quase um ponto de honra poder, uma vez que fosse na vida, contempla-la. E isso proporcionou-se precisamente em Glasgow, embora não da forma esperada.

Mas, em primeiro lugar, estava agendada a visita a um edifico histórico, o Provand's Lordship, o unicio edificio do período medieval de Glasgow, decorado com mobiliário e pinturas do século 17, tornam a visita a este local de fato interessente, sem ser contudo obrigatório.

Mesmo em frente fica então o local onde se encontraria a pintura de Dali, no St. Mungo Museum of Religious Life and Art, um edificio bem mais interessante do exterior do que no seu interior ao qual acedemos para ávidamente chegar ao objetivo quase unico de ali estar.

Contudo, sala após sala parecia adiar-se o tão ansiado encontro por a dita pintura parecia não estar em lugar algum o que, diga-se, até fazia sentido face ao tipo de museu em causa.

Terminada a visita, a desilusão. A pintura não estava naquele museu. Felizmente, na entrada estava precisamente uma brochura com o famoso quadro e questionado sobre o seu paradeiro fomos informados que havia 13 anos já ali não se encontrava e que apenas ali tinha estado por ocasião das obras do seu local de origem, o Kelvingrove Art Gallery and Museum, para onde rapidamente nos dirigimos.

Este imponente museu espanta logo à sua entrada e deixa um pouco desconforto por não ter sido possivel a ele dedicar mais tempo, tratando-se claramente de um local que encerra uma magnifica coleção de obras de arte, a que só o tempo necessário permite a correta fruição.

Não sendo possível dedicar esse tempo ao museu optou-se por imediatamente ir direto ao que vinhamos e contemplar a grandiosidade da obra de Dali, repleto de emoção pela beleza daquele quadro mas também por representar aqueles raros momentos em que percebemos que os nossos sonhos se realizam.
Descrever o que o quadro nos transmite não é tarefa simples por encerrar sensações que as letras ainda não descrevem ou, pelo menos, a arte do escritor não sabe descrever.

Em seguida percorremos algumas das outras salas, repletas de quadros de autores de renome das diferentes escolas de pintura. Ficou muito por ver, mas antes da saída ainda se arranjou tempo para voltar à sala escura onde repousa o Christ of Saint John of the Cross. Quem já visitou a Capela Sistina em Roma sabe o que representa contemplar a perfeição e a cada momento encontrar novos elementos de beleza.

Era hora de regressar a Edinburgo, não sem antes passar em frente ao grandioso edificio da Univerdade de Glasgow, mesmo ali ao lado.

Aquela cidade estranha ao inicio, com um ar algo intimidante da noite anterior, deu lugar a uma imagem de uma elegante cidade, com muito para ver.

O regresso a Edimburgo, contudo, ainda não seria imediato posto que havia mesmo a caminho um local de relevante interesse turistico não porque soubessemos exatamente até que ponto esse interesse resultaria mais da fama mediática ou da sua real beleza.


Refiro-me à Rosslyn Chapel que se tornou famosa por fazer parte do enredo de uma obra literária e do filme que dela resultou e que por ter vendido milhões em livros e em receitas atraiu àquele local um numero considerável de visitantes.


Creio que fará sentido, sobretudo a quem leu o livro, de seu nome "O Código Da Vinci", dizer que poucas ou nenhumas referências ao livro e filme existem naquele local. O que existe, isso sim, é uma belissima capela, repleta de singularidades que fixam o nosso olhar a cada momento, sejam as colunas ou as ricamente decoradas paredes tudo é belo e estranho naquele local.

Mereceu plenamente a correria para ali chegar antes que fechasse e antes de regressar o ponto de partida, Edimburgo.









domingo, 14 de outubro de 2018

Um dia em Glasgow / Latha ann an Glaschu

Aviso prévio, existem duas Glasgow, a maior cidade da Escócia, uma que se pode viver de noite e outra, complementamente diferente, durante o dia.

Por isso mesmo, em bom rigor, há que descrever a estadia nesta cidade em dois momentos, isto é, o dia da chegada e que corresponde ao final do dia na cidade e dia imediatamente seguinte.

Devo, em abono da verdade, revelar que o motivo principal da inclusão desta cidade no roteiro pela Escócia não estaria tanto relacionado com referências de destaque da cidade, ou seja, que só por si justificassem uma visita à mesma, mas fundamentalmente um desejo pessoal com vários anos de visitar o local onde se encontra uma das obras-primas de eleição da história da pintura, uma daquelas relações de fascínio incompreensivel que só algumas obras conseguem transmitir e que por isso mesmo, dificil mesmo será traduzir em palavras escritas aquilo que fundamentalmente essa obra nos transmite.

Antecipo-me à curiosidade e desde já anuncio tratar-se de uma pintura do mestre Salvador Dali, denominada de "Cristo de São João da Cruz" a qual, em jeito de antecipação, supunha poder ser visitada na St Mungo Museum of Religious Life and Art, local onde o nosso guia de viagem indicava poder ser visitada.

Mas voltemos à noite de Glasgow.

Desde logo que se nota uma estranha animação de rua, daquela em que a nossa percepção sobre os movimentos transita constantemente entre a sensação de insegurança ou de ter entrado num qualquer filme do cineasta Ken Loach quando este filme sobre a miséria, patologias sociais e familiares e de bem-estar social. Numa só frase: toda a gente na rua nos parece estranha, ou pegando na descrição anterior, miserável do ponto de vista social e familiar.

A sensação não é de facto simpática para o visitante, habituado até então a uma Escócia verdejante, habitada por uma classe média-superior, educada e civilizada. Preconceito? Talvez. Mas nada nos prepara para o que sentimos e quando isso acontece refugiamo-nos em raciocinios porventura pouco racionais, posto que não tivemos sequer tempo para conhecer verdadeiramente aquele local quanto mais poder tirar verdadeiras conclusões sobre o mesmo.

O objectivo da saída noturna era sobretudo de arranjar local para jantar, deixando de fora os muitos pubs de onde era possivel ouvir claramente o som desafinado de sessões de karaoke, regado pela cerveja local e algo mais.

Surge então um restaurante chinês como opção quando quase todas as outras já pareciam fechadas, apesar de apenas serem 9 horas da noite. Mas mesmo este local parece indiciar algum cuidado com o ambiente externo: podia jantar-se mas pagando préviamente. Assim fizemos, comemos e rapidamente regressámos ao hotel. Venha a Glasgow de dia.

E de facto existe outra cidade durante o dia. Uma cidade agradável, repleta de edificios do período Vitoriano, razoavelmente limpa, quase que tornando inimaginável ser esta a mesma cidade que também tem um lado sombrio.

O objectivo imediato da visita apontava para o local onde poderiamos visitar o ex-libris da cidade a Catedral de Glasgow em cujas traseiras se destaca a Necrópole, um curioso edificio histórico denominado Provand's Lordship e, finalmente, o tão ambicionado St Mungo Museum of Religious Life and Art onde, supostamente, haveriamos de nos encontrar com a fantástica pintura de Dali.

Mas esta coisa de viajar tem sempre surpresas e esta talvez nem fosse o caso de a ser mas quer a Provand's Lordship quer a St Mungo Museum of Religious Life and Art estavam encerrados, como tantas vezes acontece com edificios públicos às segundas-feiras.

Como seria inimaginável partir desta cidade sem tornar real o sonho de ver o quadro de Dali logo ficou definido adiar a saída da cidade para um pouco mais tarde no dia seguinte, de forma possibilitar o dito cumprimento de sonho, ainda que também neste capítulo ainda não estivessem esgotadas as surpresas...

A Catedral de Glasgow é, de facto, um edificio de monumental beleza, de caracteristicas totalmente distintas dos locais de culto visitados até então, com toda a iconografia católica bem presente num país quase todo ele protestante, cujas origens remontam ao século XII mas impecávelmente conservada.

Nas traseiras da Catedral ergue-se um espaço de consideráveis dimensões na zona mais alta da cidade onde fica localizada a Necrópole da cidade, ela propria uma verdadeira cidade onde todas as campas parecem ter sempre mais de 100 anos, uma espécie de museu alternativo onde a história da cidade repousa.

Sobre esta Necrópole e os cemitérios em geral na Escócia importa ter presente que são entendidos antes de mais como verdadeiros jardins, locais onde é possivel passear descontraidamente, passear com as crianças, até mesmo namorar ou fazer um piquenique. Sim, presenciámos todos estes momentos. Nada ali é macabro ou pode ser entendido como desrespeitoso por ali andar. Faz parte da paisagem. A relva verde e cuidada é o tom dominante conjuntamente com milhares de pedras tumulares quase todas elas impecavelmente cuidadas.

Dali partimos para as restantes atracções na cidade, destacando-se em particular a City Chambers, a câmara da cidade, a Mitchell Library que em frente tem uma curiosa estátua do Duke de Wellington montado no seu cavalo, algo que não seria nada de extraordinário não fosse o caso de ter na sua cabeça um daqueles cones de sinalização que frequentemente podemos ver nas estradas colocado sob... a sua cabeça. Primeiro pensamos que é apenas um acto de vandalismo, mas depois percebe-se que é mesmo assim, certamente não desde o inicio, o que transformou este monumento numa das 10 mais bizarras atracções do mundo.

A George Square é também um local de referência. Espaço amplo e agradavel.

Seguiu-se um longo trajecto a pé até uma das curiosidades da cidade de Glasgow, a Tenement House, um apartamento do século XIX, que conservou até aos dias hoje todas as condições em que foi habitado ao longo do século XX, um verdadeiro museu sobre o que era viver em Glasgow durante esse período.

O dia haveria de terminar junto ao rio, com uma visita à Clydside Distillery, uma das muitas distilerias da Escócia, uma espécie de romaria que não pode deixar de ser feita ao visitar este país, seja qual for a marca,
conhecendo e sobretudo aprendendo a apreciar o famoso wiskey escocês e ali perto a Riverside Museum of Transport and Travel, uma impressionante e imperdivel coleção de todo o tipo de meios de transporte, impecavelmente organizado e com entrada gratuita, num edificio igualmente impressionante.

Do lado de fora encontramos um enorme navio ao qual não foi possivel aceder em virtude do adiantado da hora, no denominado Tall Ship at Riverside.

O dia terminava e a ideia de voltar à Glasgow "da noite" não era suficientemnete apelativa pelo que o jantar foi perto do hotel. O dia seguinte ficava reservado para o que faltava.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

A caminho de Glasgow / Air an t-slighe gu Glaschu

A fantástica Ilha de Skye ficou para trás e, como em qualquer viagem que se preze, não é ainda o tempo para retrospectivas do que ficou visto ou ficou por ver, o tempo é um ditador e o alinhamento da viagem não se presta a revoluções.

O destino seguinte não seria, porventura, daqueles que seria por si mesmo apelativo em função de quaisquer referências culturais relevantes mas, porque a cultura popular também é ela própria uma forma de cultura, era incontornável "aderir" a uma das muitas referências iconográficas da Escócia, uma espécie de herói dos tempos modernos, não porque seja de origem escocesa ou pelos seus grandes feitos, mas sim porque quis o destino boa parte das imagens que percorrem o imaginário dos fãs do feiticeiro Harry Potter terem sido precisamente filmadas nesta região.

Um desses locais é a localidade de Glenfinnan que tem, para além de um monumento de homenagem ao já anteriormente referido Bonni Prince Charlie, um viaduto onde passa, literalmente, o comboio que no filme haverá de levar os aprendizes de feiticeiro à escola de Hogwarts.

Tudo está montado para ser lembrado como tal. Apesar da distancia considerável a que passa o dito comboio faz questão de apitar préviamente à sua chegada, antecipando a emoção daqueles que por alí se encontram prepositadamente para esse efeito, lançando fumo branco durante o caminho, envergando as mesmas cores que o fizeram involuntáriamente famoso, a ele e ao aqueduto.

Diga-se que a "emoção" dura escassos minutos e por isso mesmo é tempo de seguir em frente passando pela localidade de Fort William, uma pequena e pacata vila onde é possivel passear pela sua principal avenida e apreciar as lojas à falta de motivos maiores para ali permanecer por muito mais tempo.

O caminho até Glasgow faz-nos passar por duas maravilhas naturais escocesas, Glencoe e Loch Lomond.


O primeiro destes locais, Glencoe, é um vale verdejante, ladeado por montanhas onde polulam caminhantes mais ou menos organizados e que desagua num dos muitos lagos da Escócia, o Loch Leven. Diz-se que será um dos locais mais bonitos de toda a Escócia. Por mim não faço escolhas, é bonito, unico e incomparável. É assim que melhor se aprecia cada local.





O Loch Lomond fica situado no Parque Nacional de Trossachs e faz a fronteira entre as Highlands e as Lowlands da Escócia, no qual "flutuam" inúmeras ilhas, quase sempre de pequenas dimensões mas bastande arborizadas.

É mais um cenário idilico que se percebe ser bastante apreciado para passeios de barco e mesmo para veranear nas suas margens devido à água sempre calma (e doce).

Dali a Glasgow são cerca de 23kms coisa pouca portanto e que se faz com relativa rapidez.

Desembarcados nesta cidade é tempo de descansar no hotel e escolher onde jantar, o que em si mesmo dá direito a uma anotação de viagem propria, mas isso ficará para o dia seguinte.




O último dia na Escócia / An latha mu dheireadh ann an Alba

Regressados ao ponto de partida não era ainda exatamente o tempo de retomar as visitas ao que ficara por visitar no final do primeiro dias uma vez que, estando o carro disponivel, havia que desfrutar disso mesmo e fazer alguns kilometros para visitar a Abadia de Dunfermline, uma espécia de panteão nacional dos heróis escoceses.

Um local muito aprazível, não tanto por essa caracteristica de panteão que, diga-se não é assim tão visivel por via da acção dos tempos, mas por se tratar de um local de fato bonito e que justificou a visita.

Era tempo de regressar a Edimburgo, devolver o carro após quase 2500kms ou o seu equivalente em milhas, sempre conduzidos do "lado errado", mas felizmente sem quaisquer problemas.

Por isso mesmo o primeiro ponto de visita seria aquele que ficara inacabado por causa de Sua Alteza Real a raínha de Inglaterra (e da Escócia).

O palácio de Holyrood bem no extremo oposto do Royal Mile de Edimburgo é um museu repleto de referências históricas da Escócia, particularmente à Queen Mary cuja história de vida (e de morte) está precisamente ligada à ascensão de uma antepassada da Raínha Isabel II, muito apropriadamente a da Raínha Isabel I, prima da dita Queen of the Scots, do qual resultaria a união do reino, logo após a sua cabeça ter literalmente rolado por via de uma acusação de tentativa de assassinato da sua prima.

Tudo impecavelmente decorado é um marco na cidade, que não pode ser esquecido, mesmo que tenhamos de adiar para o fim.

Para o final do dia ficaria o passeio pelo jardim da cidade de uma ponta à outra, detendo-nos particularmente numa curiosa fonte a Ross Foutain, em tons de azul e dourado.

E o fim é isso mesmo, o terminar de uma viagem, em que ainda muito ficou por ver, alguns (muitos) castelos, caminhadas pelos campos verdejantes. Mas as viagens são também isso, ficar algo por ver para um dia poder regressar.