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domingo, 20 de novembro de 2016

Roteiros - A Madragoa e os seus museus

Desenhar um novo roteiro é um exercício que não requer qualquer esforço físico mas tão-somente o gosto de definir para nós próprios um objectivo que se prende única e exclusivamente com o gosto de conhecer novas coisas mas, porventura ainda mais, o interesse em procurar (para não dizer encontrar) as referências culturais que se enquadrem no contexto de cada roteiro.

Por isso mesmo, o maior prazer reside precisamente em perceber por essa via que bem perto dos locais onde habitualmente passamos de forma apressada podemos encontrar verdadeiros "tesouros" de interesse cultural, mas igualmente gastronómicos, talvez porque habitualmente não façam eles próprios parte dos roteiros oficiais, aqueles a que o turista "tradicional" visita, como se nada mais houvesse para conhecer.

Não pretendo, contudo, afirmar que sejam locais desconhecidos. Apenas que merecem a pena ser verdadeiramente conhecidos.

Mais interessante ainda será o facto de, não raras vezes, tais locais encontram-se localizados nos denominados bairros típicos de Lisboa, que por si só merecem - e porventura hão-de mesmo merecer - que se lhes dedique um roteiro.

Tal é caso do Bairro da Madragoa onde, entre outros exemplos relevantes de locais culturalmente relevantes, se encontram localizados o Museu da Água e o Museu das Marionetas.

O primeiro que é referido, o Museu da Água, é parte integrante de uma rede mais vasta de locais relacionados com a água em Lisboa, dos quais se haverá de referir noutros roteiros, e que impressiona pela quantidade de máquinas de dimensões consideráveis que nos remetem para a forma como a água chegava (e era contada) à casa dos lisboetas, mas também a sua relação com o aqueduto das águas livres, essa imensa "auto-estrada" de canais de pedra que dava de beber à capital.

Tratando-se de um espaço um pouco à margem da cidade, é possível efectuar uma visita de forma absolutamente tranquila, sem qualquer risco de "tropeçar" num esquadrão de turistas.

É um local que funde a vertente cultural com a lógica educacional, com vários postos interactivos para as crianças (e não só) poderem dar azo à vontade de perceber um pouco melhor a mecânica da água.

Um pouco mais em frente, já bem no centro da Madragoa, situado no Convento das Bernardas encontramos o Museu da Marioneta.

Confesso que "esperava" relativamente pouco deste espaço, porventura mais por preconceito sobre a relevância cultural de algo que, afinal de contas, é representado por bonecos mas, mais uma vez, ficou provado que preconceito e ignorância são "marido e mulher" no que toca a julgamentos precipitados e, por isso mesmo, não hesito em afirmar que se trata de um dos melhores museus da cidade de Lisboa.

Muito mais do que os tais bonecos é um local de história com centenas de anos em que, à falta de qualquer outra forma de registo, a representação era feita com recurso às mais variadas formas de imagens em forma de marioneta e que não se esgotam, bem pelo contrário, a uma perspectiva infantil dessa mesma representação, remetendo para a simbologia e rituais religiosos, o medo, a comédia, a sexualidade, etc.

Tudo isto representado por um acervo de uma riqueza que não se antecipa à entrada, com elementos de todos os "cantos do Mundo".

O contexto envolvente do Convento das Bernardas acaba por ficar um pouco desfavorecido por não ser absolutamente evidente nem tão-pouco haver uma forma de "convite" a percepcionar esse espaço, algo que poderia, porventura, ser optimizado.

Não fazendo parte do roteiro, por não se tratar de um espaço aberto ao público, mas por situar naquela mesma zona entendo ser oportuno referir-me ao edifício onde actualmente se encontra instalada a Embaixada de França, o Palácio de Santos-o-Velho, uma preciosidade que pude visitar no contexto do "Lisbon Open House", oportunidade única para visitar alguns espaços - como este - que "carregam" nas paredes e interiores partes relevantes da história de Portugal.

Entre as muitas riquezas existentes no seu interior, saliento o icónico tecto em forma de cone, decorado com peças de loiça que já ali se encontravam antes do terramoto de 1755 e que, quis o destino, assim se conservassem imaculadas, apesar de tudo ruir à sua volta.

Para se jantar (ou almoçar) não é preciso sair da Madragoa, tão repleta é a oferta de restaurante típicos localizados naquela zona.

A escolha recaiu no pequeno, castiço mas verdadeiramente bom restaurante a "Varina da Madragoa" onde temos tudo aquilo a que temos "direito" num local como estes: a simpatia do dono, a evidente empatia com os clientes, as referências à antiguidade do espaço na decoração, nos azulejos na parede, mas também nos velhos recortes de jornais que nos lembram que por ali passaram José Saramago, entre outros.

A ementa é variada, mas o bacalhau é rei.

Para finalizar o dia e andando apenas alguns metros encontramos o bar "Matiz Pombalina" um pequeno e intimo espaço ideal para conversar com uma decoração sóbria e, claro está, os arcos em tijolo que remetem para a antiguidade mal disfarçada do espaço.

Só podemos estar gratos por podermos usufruir de locais como estes, assim os queiramos descobrir e conhecer.







sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Índia - Dia 13 (Goa)

A opção pela extensão do programa de visita ao território de Goa revelou-se, independentemente do reduzido tempo de estadia, perfeitamente acertada.

Goa é uma zona da Índia absolutamente fascinante, com evidentes disrupções relativamente às restantes zonas visitadas mais a norte.

Mas, sobretudo, o que fica é a imagem da luxuriante vegetação, um povo que extravasa simpatia e com uma abordagem aos estrangeiros que possibilita um maior a vontade para quem passeia na rua, uma qualidade de vida claramente acima da média, bons restaurantes onde é possível, embora de forma não geral e com um custo "inflacionado", comer carne de vaca.

Contudo, aquilo que mais apela a visitar esta terra é a sua ligação histórica a Portugal.

Não tenho a certeza que as actuais novas gerações de goeses tenham noção dessa ligação e a razão pela qual os apelidos tradicionais indianos aqui são substituídos por Nunes, Sousa ou Costa (um sacerdote "lembrou-nos" que o actual primeiro-ministro de Portugal tem ascendência goesa...), e tenho ainda mais dúvidas que as futuras gerações consigam manter viva essa lembrança.

No entanto, tudo o resto esta lá há vários séculos para manter essa recordação dos tempos imemoriais da aventura de Portugal por mares tão distantes.

E essa imagem é, para um português, um motivo de grande orgulho, ao perceber que naquele território há monumentos que são património da humanidade da Unesco, que num país essêncialmenfe hindu ou muçulmano existem diversos espaços onde se erguem no topo cruzes, símbolo da religião cristã por via da influência portuguesa.

Assim, sucessivamente, os nossos caminhos e, diga-se, de bastantes indianos e pessoas de outras nacionalidade, cruzam-se com a magnífica Sé Catedral do século XVII, a basílica do Bom Jesus que remonta ao século XVI sendo a mais importante igreja de Goa, onde descansam os restos mortais de São Francisco Xavier,  ou a igreja de São Francisco de Assis igualmente do século XVII, a capela de Santa Catarina, construída no preciso ano da entrada na cidade de Afonso de Albuquerque e as ruínas da antiga igreja de Santo Agostinho, do início do século XVII, que impressiona pela percepção da monumentalidade que o espaço teria antes do desleixo, o vandalismo e até a decisão de demolição por parte do governo português em meados do século XIX a transformarem num vasto espaço arqueológico digno de ser visitado.

Eis a velha Goa.

É impossível não sentir uma sensação de orgulho profundo pela nossa história. Pela história de um pequeno território - incomensuravelmente mais pequeno do que a Índia - que um dia desbravou mares, cavalgou a ignorância, desafiou os medos, para descobrir e deixar a nossa marca em mundos tão diferentes daquele que nós próprios conhecíamos.

Mas para que não percamos a noção de que os tempos hoje são outros seguiu-se a visita a um dos mais importantes templos hindus dedicados à deusa Shiva, o Shri Manguesh Templo (o tal onde nos foi recordada a ascendência do PM), cujo interior ricamente decorado a prata é incomum pelo seu fausto, acedendo-se ao seu interior, como habitualmente, descalço, tarefa nada fácil tendo em conta o calor esmagador, que escaldava literalmente a planta dos pés.

Em seguida uma visita que se impunha na terra dos chás, uma espécie de jardim botânico onde imperam árvores ancestrais, plantas medicinais e especiarias, com direito a almoço e tudo.

O passeio por Goa terminaria com um fantástica vista sobre o mar e da respectiva costa a que se acede por uma marginal com o nome bem português de Dona Paula, para finalmente desfrutar de um passeio numa das mais frequentadas praias de Goa, a praia Miramar, onde dezenas de pessoas, famílias inteiras, passeavam pelo seu extenso areal.

O dia haveria de terminar com uma excelente amostra da gastronomia goesa, num restaurante junto à praia cujo proprietário apresenta orgulhosamente no cartão de visita o apelido Magalhães. Há dúvidas sobre o significado da nossa presença neste território?

Que outra forma poderia existir para marcar a despedida do maravilhoso país que é a Índia numa Goa cuja portugalidade nos anuncia que o regresso a Portugal está marcado para o dia seguinte, não sem antes aterrar, ainda que por pouco tempo, noutra cidade mítica na história de Portugal: Bombaim, hoje rebaptizada de Mumbai.

Por isso mesmo amanhã escrever-se-á o epílogo desta inolvidável viagem.







domingo, 25 de maio de 2014

Minimalismo

Na semana que agora termina os europeus e os portugueses de uma forma muito particular tomaram conhecimento do chumbo em referendo por parte dos suíços de uma proposta legislativa que propunha o aumento do salário mínimo nacional para um valor equivalente a 3.300 euros ou, dito de outra forma, a possibilidade de alguns dos seus habitantes passarem a usufruir do maior salário mínimo nacional do Mundo!

O "espanto" desta notícia em Portugal dever-se-á, sobretudo, ao facto de actualmente se encontrar em discussão o possível aumento dessa mesma referência de salário para 500 euros, processo que entre avanços e recuos parece agora destinado a conhecer alguma viabilidade futura, muito à custa do período eleitoral "preenchido" que se avizinha, transformando o assunto num novo tema de debate político quando, a meu ver, o mesmo deveria estar sempre à margem das questões politico-partidárias.

Essa convicção carece, portanto, de ser explicada e, talvez a melhor forma de o fazer é tentar perceber porque é que este salário de que tanto se fala é, afinal de contas, "mínimo".

Para tal é necessário começar por se perceber que este conceito não existia até 1974 momento a partir do qual se passou a entender que legalmente não seria admissível um qualquer funcionário ser pago por um valor abaixo daquele que viesse a ser definido administrativamente.

O objectivo dessa medida era o de fazer cessar (ou pretender fazer cessar) duas desigualdades sociais recorrentes, por um lado eliminar as situações de exploração no trabalho e, por outro, a desigualdade de remuneração entre homens e mulheres ou entre trabalhadores novos e mais antigos, algo que era muito evidente sobretudo na actividade industrial.

Ou seja, o conceito de salário mínimo tem na sua génese um base de justiça social mas igualmente uma convicção que o valor definido nessa base representa ele próprio o mínimo considerado como aceitável numa Sociedade para garantir as condições mínimas de vida e de subsistência reduzindo dessa forma, presume-se, a pobreza, algo que a nova Constituição democrática de então se apressou a consagrar no seu artigo 59º com parte das incumbências do Estado.

Não falta neste como noutros temas quem defenda os prós e os contras da existência de um salário mínimo e mesmo sobre a sua eficácia, discussão essa que presumo venha a perpetuar-se no tempo, sem que daí decorra sequer necessariamente um mal especial.

O problema, contudo, é que se esta discussão pode assumir um carácter quase empírico na Suiça que dispõe de um dos maiores níveis de vida do planeta e onde existe formalmente um salário mínimo, a questão ganha outros contornos se analisada à luz da realidade portuguesa que formalmente apresenta um cenário de manifestas desigualdades sociais na vertente da distribuição dos rendimentos ou, para um melhor entendimento, em que a distância (ou fosso) entre os mais ricos e os mais pobres é mais acentuada, sendo mesmo uma das mais elevadas de todo os espaço da União Europeia (*).

Para alguns, este efeito de desigualdade será expectável e provavelmente aceite como natural numa economia competitiva (ou de mercado) mas, para outros, este facto é simplesmente inaceitável numa sociedade justa e equitativa.

Nem o será, tão-pouco, à luz dessa mesma competitividade, porque ela própria deve assentar antes de mais em factores em que o custo do trabalho deve ser proporcional ao nível de competência de um qualquer trabalhador e, nessa medida, a lei da oferta e da procura deveria (previsivelmente) inverter a lógica habitual, ou seja, a concorrência deveria levar a um aumento do nível salarial tendo em vista a manutenção dos quadros mais qualificados na empresa e não a sua substituição por um mão-de-obra mais "barata".

A infeliz e recorrente associação deste conceito de "mão-de-obra barata" à maior ou menor competitividade do país é, em si mesmo, uma falácia, uma vez que ela deve assentar antes de mais em factores como a inovação, qualificação e qualidade do produto (entre outros) algo que, curiosamente, algumas empresas que haviam deslocalizado as suas unidades de produção para o continente asiático - paradigma deste conceito - parecem estar agora a perceber ao regressar ao "local de partida" precisamente o menor custo de produção raramente compensa a ausência dos factores atrás referidos.

A questão do salário mínimo representa, portanto, uma questão de dignidade pessoal, de um patamar mínimo que separa a qualidade de vida (mesmo que ela própria mínima) e a pobreza e, por isso mesmo, nunca deveria constituir uma "arma de arremesso político" numa qualquer Sociedade e, em especial, numa Sociedade especialmente fragilizada como a Portuguesa sobretudo porque, aqueles que o fazem, jamais souberam ou previsivelmente saberão o que significa sobreviver (e não viver) com uma tal coisa de salário mínimo. Assim vão as cousas.

domingo, 11 de maio de 2014

Limpeza

A discussão sobre os méritos da denominada "saída limpa" em relação ao amplamente debatido sem que em bom rigor se tenha alguma vez sabido em que consistiria o "plano cautelar" parece encaixar na perfeição numa expressão utilizada pelo líder da bancada parlamentar do PSD que, conscientemente ou não, afirmou em tempos que "a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor".

De facto, creio ser virtualmente impossível melhor sintetizar o resultados práticos das implementação das medidas previstas no memorando de entendimento, para além de todas aquelas que não sendo sequer referidas em tal documento foram sucessivamente sendo referidas como se de facto fizessem, como se essa mera referência fosse em si mesmo o seu próprio justificativo.

Não me deterei, portanto, na escalpelização dos diversos factores que no entender de uns serão motivo de regozijo e de acordo com outros corresponderá a uma profunda preocupação.

Interessa-me, isso sim, perceber em que motivo poderá numa qualquer circunstância ocorrer um tal momento em que um país possa estar "muito melhor" mas em que as pessoas que aí vivem "não está melhor".

À cabeça surge-me então a imagem de uma cidade em que, fruto das especiais circunstâncias, todas as pessoas que nela viviam morreram ou tiveram de a abandonar mas em que o facto de todas as casas se terem mantido intactas é o principal motivo de satisfação.

A analogia é necessariamente forçada mas ilustra, a meu ver, aquilo que parece traduzir a afirmação do Dr. Luís Montenegro.

A questão que parece escapar ao próprio é que não é possível equacionar um país melhor onde as pessoas estejam piores, simplesmente porque por definição são precisamente as pessoas a substancia de qualquer país.

São eles individual ou colectivamente que configuram a natureza de qualquer país, o garante do seu desenvolvimento ou a causa da sua regressão e, por isso mesmo, nunca uma realidade poderá dissociar-se da outra.

Ou talvez não, embora pelos piores motivos.

Existem, de facto, países reconhecidamente "ricos" mas onde a generalidade das populações vive abaixo do limiar da pobreza em que, porventura, a lógica do Dr. Luís Montenegro poderá ter alguma razão de ser.

Esses países são aqueles onde existem os maiores níveis de desequilibro na distribuição da riqueza, em que a produção do país é canalizada em favor de uns (poucos) e em desfavor de outros (muitos) que não beneficiam em nada com a riqueza produzida pelo seu próprio país.

Este cenário é particularmente evidente em países dotados de especiais riquezas naturais, todos eles situados fora da Europa, cuja fruição dessa mesma riqueza é do domínio exclusivo do poder dominante e de todos aqueles que o "alimentam" e dele são os principais beneficiários.

O "problema" é que não é este certamente o caso de Portugal que, no domínio das riquezas naturais, continua tão dependente nos "tempos que correm" como antigamente, por isso mesmo, não será igualmente por aqui que se perceberá em que medida se tornou possível a concorrência simultânea da melhoria do país em desfavor do empobrecimento geral.

O resultado desta equação encontra-se, provavelmente, na capacidade em responder a uma "simples" questão: porque é que em 2011 os mercados questionavam a sustentabilidade da dívida pública portuguesa e, três anos depois, esses mesmos mercados parecem não duvidar da sustentabilidade de uma dívida que se agravou substancialmente.

O que parece afinal ter mudado "para melhor" não terá sido exactamente o próprio País mas a percepção especulativa sobre as condições desse mesmo País, situação, aliás, da qual têm vindo a "beneficiar" a generalidade dos países periféricos, incluindo a cada vez mais endividada Grécia.

É que, contrariamente ao que o Dr. Luís Montenegro (entre outros) poderá julgar, o bem geral nunca poderá ser o resultado do empobrecimento progressivo do país. Assim vão as cousas.

sábado, 26 de abril de 2014

O dia inicial

O momento mais patético da vida de um qualquer ditador é aquele em que o próprio perde a noção de que o seu "reinado" terminou, normalmente à luz dos tempos que conduzem ao fim dessa mesma ditadura.

Assim, se ficaram "famosas" as circunstâncias que levavam Hitler a julgar no interior do bunker onde - segundo rezam as crónicas - se haveria de suicidar, que a Alemanha ainda haveria de ganhar uma guerra à qual já se havia nessa altura rendido, também Salazar julgou até ao momento da sua morte que ainda conduzia os destinos de um país que já lhe havia arranjado sucessor.

Ora essa tal personagem que lhe havia de suceder, carregou também consigo uma espécie de opus final quando, já no exílio, afirmou que o golpe de Estado do 25 de Abril foi o principio do fim de uma "nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça".

Talvez seja então necessário perceber que Suiça era esta de que falava o sucessor de Salazar de forma a se perceber em que medida o Portugal de 24 de Abril de 1974 estaria próximo de se tornar num espécie de "estado-gémeo" daquele país da Europa Central.

A verdade é que a Suiça com que Marcello Caetano "sonhava" era, já nessa altura, um estado democrático, pacífico (fruto de uma política de neutralidade histórica), uma economia prospera e moderna, com uma muito baixa taxa de desemprego e um elevado nível de competitividade (devido à elevada formação e escolaridade da generalidade dos seus habitantes).

Sem dispor de riquezas naturais - excepto a água - e com um muito reduzido peso da agricultura, a Suiça tinha então (como hoje) um dos PIB's per capita mais elevados do mundo, baseado sobretudo no sector financeiro mas igualmente numa industria especializada em alta tecnologia.

Em suma, a Suiça era à data da revolução de 1974 - como hoje - uma das economias mais competitivas do Mundo.

Será então razoável admitir que um país que no final dos anos 60 se encontrava em situação de colapso económico fruto da politica de isolacionismo e do custo do esforço de guerra em África, onde parte significativa da população vivia uma situação de analfabetismo, em que uma percentagem ínfima frequentava o ensino secundário, onde a população era essencialmente rural destituída dos mais elementares parâmetros mínimos de competências, estaria de facto a "caminho de se transformar numa Suiça"?

Poderia uma das mais duradouras ditaduras da Europa ocidental pretender comparar-se em termos futuros com um Estado onde, por exemplo, vigora um dos exemplos mais completos de "democracia directa" a partir do qual as principais questões do país são decidas por via de referendo (algumas, aliás, bem controversas)?

A resposta é demasiado óbvia para poder ser contestada e por isso mesmo, não é de estranhar que precisamente fosse a Suiça um dos Estados de eleição da onda de emigrantes que por essa altura saíam do país em fuga de um regime ditatorial e de uma total falta de perspectivas futuras.

Ninguém, para além de Marcello Caetano, poderia perspectivar que o regime que o próprio ajudou a perpetuar, poderia ser algo mais do que um país muito mais próximo do 3º mundo do que qualquer outro Estado democrático europeu, os tais que nessa altura já se haviam distanciado desse mesmo regime.

Para perceber o distanciamento entre a realidade e  os motivos pelos quais a queda de um regime se havia feito sem o disparar de um único tiro e com o apoio generalizado da população, cito precisamente um realizador suíço - Lionel Baier - que afirmava então "Quando somos pequenos e suíços a democracia é coisa normal. Os primeiros que me fizeram ter consciência do preço da democracia foram os portugueses.".

Suprema ironia, os tais suíços em que supostamente nos haveríamos de tornar, tinham uma percepção mais lúcida da realidade do que estertorante regime.

Tal como tive ocasião de afirmar em dissertações anteriores, a realidade histórica será sempre o principal "inimigo" de todos aqueles que, por ignorância ou por mera incapacidade de acompanhar essa mesma realidade, pretendem nega-la a todo o custo, "construindo" uma realidade paralela que, tal como a Suiça de Marcello Caetano, apenas existe nas suas próprias cabeças. Assim vão as cousas.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O lado B

Ao longo dos quase 3 anos de crónicas semanais (ou dissertações consoante o entendimento de cada um) foram recorrentes as alusões à actual conjuntura económica e social de Portugal, fruto das consequências que, em ambos os níveis, daí têm decorrido para os portugueses e que - temo - não deixarão de se fazer sentir durante largos anos, independentemente de qualquer mudança que se possa verificar na direcção do Governo, por ocasião das próximas eleições legislativas.

Admitindo, porém, que tal como diz o ditado "não há mal que sempre dure" creio que é também possível e até mesmo de alguma justiça fazer por esta mesma via um registo de alguns dos principais elementos positivos de um tal período, mesmo que não pretendendo assumir que outros não haverão para além daqueles que se seguidamente se haverá de referir.

Em primeiro lugar e sem que daqui se possa inferir que se trata de uma qualquer espécie de competição, creio que uma das consequências positivas da crise foi o surgimento de uma convicção mais ou menos generalizada da necessidade de uma gestão mais eficaz dos rendimentos individuais ou, dito de outra forma, uma maior apetência para a poupança.

Em bom rigor não deveria ter sido necessário chegar a este ponto para que se chegasse a esta conclusão/necessidade mas - realidade incontornável - a menor propensão para a poupança é directamente proporcional à convicção por parte da "oferta" relativamente a uma maior disponibilidade das pessoas para o consumo, com especial relevo para os bancos que não deixaram de procurar cativar esse mesmo "apetite" a qualquer custo ou, no caso vertente, a qualquer preço.

Não é menos certo que a poupança excessiva tem - paradoxalmente - um efeito negativo na economia por ser propiciadora de uma retracção no consumo que tem como resultado uma redução do investimento que gera, por seu turno, mais desemprego, ou seja, menos dinheiro disponível e ainda menos consumo.

Se desta crise resultar uma percepção geral de que é essencial uma gestão equilibrada dos rendimentos entre aquilo que é necessário ao bem estar de cada um e aquilo que é puramente acessório, a Sociedade estará certamente mais bem preparada para o que ainda há-de vir e para uma eventual nova crise futura, fazendo jus à afirmação que não é possível viver eternamente "acima das possibilidades de cada um".

Numa segunda perspectiva de factores positivos, entendo que a interiorização da noção de empreendedorismo é igualmente merecedor de um destaque, porque dela resultam em si mesmo duas consequências também elas positivas.

Por um lado a crise e, sobretudo, as situações de desemprego, tendem a motivar as pessoas a encarar o seu próprio futuro como algo que poderá passar por cada um de nós, "abraçando" projectos empresariais próprios que permitirão - assim se espera - obter resultados positivos para o seu autor mas que não deixarão de ser igualmente relevantes para a Sociedade na medida em que o sucesso de um tal projecto acarreta necessariamente mais-valias ao nível da disponibilização de novos produtos ou serviços, mas igualmente na potencial criação de mais emprego, ainda que admita que nem sempre estas iniciativas individuais estarão adequadamente assentes em bases suficientemente fortes (estudos de mercado, etc) para uma subsistência duradoura.

Por outro lado e "olhando" para as empresas, esta noção de empreendedorismo tem levado muitas empresas a reconhecer as limitações do mercado português e, consequência de tal facto, a abrirem as suas "portas" a outros mercados - não necessariamente o Europeu - sendo o crescimento sustentado das exportações uma flagrante demonstração desta mudança de atitude por parte dos empresários, a qual só poderá ter alguma perspectiva de sucesso se fundada num conhecimento profundo desses "novos" mercados e sobretudo uma consciência de que tal não tem, quase nunca, como consequência o lucro imediato.

Fixando as perspectivas positivas dos "tempos de crise" e com a ressalva inicial de não pretender encerrar este elenco sem admitir que outras mais haverá, interessa-me relevar o renascer de uma atitude activa por parte das populações no sentido de reconquistar uma auto-consciência de que há ideais pelos quais merece sempre a pena  lutar.

Seja pela forma das curiosas "Grandoladas" ou de uma maior intervenção cívica em debates públicos o que importa é cada um de nós "perceber" que o nosso próprio bem-estar futuro depende exclusivamente das nossas opções mas também de uma capacidade de interiorizar um maior sentido critico, de exigência mas igualmente de reforço da cidadania para que esse desiderato possa ser alcançado, desde logo numa maior e mais consciente participação nos actos eleitorais, independentemente da escolha que cada um.

É que o ditado a que me refiro inicialmente não termina por ali pois, por alguma razão, a sabedoria popular entendeu dar-lhe continuação ao dizer que também não há "bem que nunca acabe". É fundamental que tenhamos consciência plena disso mesmo. Assim vão as cousas.      

domingo, 17 de novembro de 2013

O trevo da sorte

Diz a tradição que encontrar um trevo-de-quatro-folhas é sinal de boa sorte, porventura associado ao facto se tratar daquelas "anomalias" da natureza na medida em etimologicamente um trevo, isto é, "três folhas" não pode (ou não deve) ter "quatro folhas" e manter ainda assim o mesmo nome, como de facto acontece.

Mas de onde surge, afinal, este aparentemente inusitado interesse sobre o mundo das plantas?

Resulta do facto da tradição a que me refiro ser uma tradição Celta, ou seja, aqueles mesmos que actualmente reconhecemos por República da Irlanda e que se preparam para completar em 15 de Dezembro próximo o respectivo programa de ajustamento, dispensando qualquer nova forma de ajuda externa, seja ela em forma de resgate ou de "programa cautelar", mesmo não se percebendo bem qual a diferença entre as duas.

Ora, de acordo com a minha perspectiva e contrariamente ao que algumas "vozes" do Governo e dos partidos que o suportam, a decisão da Irlanda é, infelizmente, uma má notícia para Portugal, curiosamente também na semana onde o país saiu da denominada "recessão técnica" ainda que em termos homólogos, isto é, naquilo que é verdadeiramente comparável, se perceba que o PIB contraiu de facto 1%, ou dito de outra forma menos "simpática", a economia portuguesa continua a destruir riqueza. 

Perguntar-me-ão - e com toda a justiça - porque é que a boa notícia da Irlanda é uma má noticia para Portugal?

Fundamentalmente porque Portugal desde cedo entendeu ser de toda a conveniência para si próprio "colar-se" à Irlanda por oposição à "colagem" que tendencialmente se ia fazendo de que haveria mais factores de coincidência entre a realidade portuguesa e o desastre grego do que com os mais do que evidentes sinais de que, passo a passo, a Irlanda lá ia recuperando a sua economia.

Acontece que essa colagem não é sequer intelectualmente honesta, porque em momento alguma o "processo" irlandês foi comparável com o "processo" português, na mesma medida em que existem muito mais factores que distanciam os dois países do que aqueles que os aproximam.

Desde logo a crise Irlandesa tem a sua origem numa crise bancária, fruto de uma excessiva exposição a produtos financeiros baseados no "sub-prime" dos EUA facto que, tal como sucedeu noutras "paragens", haveria mais tarde de expor as fragilidades do sistema financeiro irlandês o que a partir do inicio da crise financeira internacional em 2008.

Por esse mesmo facto a intervenção da "troika" centrou-se na reestruturação do sistema financeiro, através da recapitalização dos bancos, ainda que, tal como em Portugal, os contribuintes tenham sido "chamados" a suportar uma parte dos custos.

Importa, contudo, ter presente que o PIB irlandês cresceu em média 5,5% ao ano, entre 1987 e 2007 e que, por exemplo o investimento directo estrangeiro em sectores tecnológicos era 10 vezes superior ao da União Europeia em 2003, resultando de uma estratégia de "troca" entre entre uma politica de contenção salarial por baixos impostos.

Não era este o "cenário" em Portugal que, diga-se, não estava sequer exposto ao sub-prime, mas onde os sinais da crise são de certa forma coincidentes com o momento da adesão à moeda única, assente num modelo económico que privilegiava os denominados bens não transacionáveis e uma forte dependência do crédito externo e, por fim, uma politica de investimentos públicos de reduzida eficiência.

A "reboque" da crise financeira internacional de 2008 e da subsequente flexibilização das metas do déficit público assistiu-se durante o ano seguinte a um forte investimento público que teve como consequência uma "desconfiança" dos (quase) sempre atentos mercados relativamente à sustentabilidade da divida soberana portuguesa, situação que haveria de agravar-se por via do que já então se passava na Grécia.

Também aqui o programa de assistência financeira a Portugal foi totalmente distinto do que haveria de ser "desenhado" para a Irlanda, tendo como objectivo a consolidação orçamental que haveria de ser feita, quase em exclusivo, à custa do aumento de impostos (solução mais rápida) em detrimento da contenção da despesa pública (solução mais demorada), do qual resultou o efeito conhecido de aprofundamento da recessão, com o inevitável aumento do desemprego e da emigração.

Tudo o resto é conhecido e demasiado complexo para "caber" em tão breves linhas, mas o que é hoje demasiado evidente é que o modelo da "troika" para Portugal é contraditório em si mesmo, pois ao gerar maior recessão determina a diminuição da receita só passível de ser compensada por novos aumentos de impostos e de outras forma de contribuição o que, provavelmente, aprofundará essa mesma recessão.

Talvez por isso mesmo e certamente por outros motivos a Irlanda que, diga-se, tem cerca de metade da população portuguesa e um salário mínimo três vezes superior ao português, estará hoje em dia a financiar-se nos "mercados secundários" a dez anos com um taxa de juro de 3,5% ao passo que Portugal, para esta mesma maturidade, se está a financiar pagando um juro acima de 6%.

Em suma, percebe-se que Portugal "veja" na Irlanda um modelo a seguir, mas a realidade diz-nos que, muito provavelmente, vamos ter de continuar a procurar o nosso "trevo-de-quatro-folhas" por mais algum tempo, sem se saber bem até quando. Assim vão as cousas.

domingo, 27 de outubro de 2013

O jogo do faz de conta



Na (quase) interminável saga do improvável herói da escritora J.K. Rowling - o feiticeiro Harry Potter - quando os jovens estudantes das artes de feitiçaria se referiam ao principal vilão do enredo nunca o faziam pelo seu próprio nome, com receio dos males que daí adviriam para os próprios ao evoca-lo.

Ora, esta forma de abordar um assunto quase tabu é, no essencial, uma forma de diplomacia, uma vez que revela um uso formal de um determinado tom com o objectivo claro de não causar danos colaterais ou uma situação de evidente incómodo para as partes directamente envolvidas.

Por isso mesmo, não me resta outra possibilidade que não seja de utilizar este mesmo expediente para, através das linhas seguintes, abordar um tema “na ordem do dia”, socorrendo-me precisamente das mesmas “ferramentas” que os jovens feiticeiros utilizavam para não causaram prejuízos a eles próprios.

Falo, em concreto, de um determinado país africano que não deve ser nomeado que decidiu unilateralmente e sem uma justificação compreensível pela generalidade das pessoas suspender a “parceria estratégica” com Portugal.

Ao fazê lo dessa forma criou uma evidente situação de mau estar nos seus parceiros – pelo menos até essa data – e, como não podia deixar de ser, “alimentou” uma série de suspeitas sobre a verdadeira natureza de uma tal decisão, a qual não pode deixar de se considerar como gravosa para os interesses de Portugal numa altura em que o investimento estrangeiro é um dos motores da estratégia de recuperação da nossa economia.

Tais rumores surgem essencialmente em resultado de uma determinada posição assumida pelo ministro dos negócios estrangeiros português durante uma visita ao país que nós sabemos que gerou uma “onda” de reacções por parte dos partidos da oposição mas igualmente por parte da própria magistratura, fruto da convicção que tal posição não apenas configurava uma evidente submissão da soberania portuguesa mas, sobretudo, uma intromissão grave do poder politico na esfera do seu poder “gémeo”, isto é, o poder judicial, em clara violação do principio da separação de poderes.

Na base do referido pedido de desculpas estará então – ao que parece – umas investigações em curso em Portugal sobre personalidades ligadas ao governo do país cujo nome não deve ser pronunciado e que, pela proximidade às cúpulas de poder e em função do interesse “estratégico” de ambos os países deveriam, aparentemente, beneficiar de uma presuntiva imunidade.

Sucede, porém, que as sociedades democráticas não funcionam bem assim e, por isso mesmo, percebe-se que estes valores são facilmente confundíveis em países como aquele que nós sabemos, onde vigora para todos os efeitos um sistema que apenas na aparência é democrático, dominado por uma espécie de nepotismo de vocês sabem quem.

Este domínio tem vindo aliás e de forma progressiva a estender-se – qual polvo - para dentro de outros países (incluindo, naturalmente, Portugal), sob a força incontornável do respectivo poderio financeiro e das suas riquezas naturais, ainda que dessa força não resulte a nível interno uma qualquer melhoria do seu próprio bem-estar social mas, pelo contrário, o agravamento da distância entre essa mesma riqueza e o desenvolvimento humano, efeito aliás comum em regimes de natureza ditatorial.

No fundo as relações diplomáticas entre os Estados de matriz democrática e quaisquer outros sem essa mesma “configuração” parecem assentar numa espécie de lógica dos “três macacos”, isto é, aqueles – para quem não sabe – que não vêm, não ouvem e não falam.

A questão é que a ausência de sentidos não altera a realidade.

O que essa realidade nos demonstra é que, pelos vistos, uma das partes da suposta parceria “estratégica” teria muito mais a perder do que a outra e, por isso mesmo, estará disposta a tudo fazer para evitar o seu fim, nem que para isso tenha de abdicar dos seus mais elementares princípios de soberania. Assim vão as cousas.

domingo, 29 de setembro de 2013

A (incons)ciência dos números

Em dia de eleições autárquicas entretenho-me a "observar" um curioso dado estatístico que remete para o Mapa n.º 4-A/2013 da Direcção-Geral de Administração Interna que refere que o número de eleitores recenseados em Portugal em 30 de Junho de 2013 era de 9.485.604.

Na senda desta mesma observação dos números verifico que a população portuguesa no ano de 2013 será de 10.562.178 expressão porventura demasiado exacta para uma realidade constantemente em mutação mas que, de 10 em 10 anos é acertada em função de um "exercício" à escala nacional que, qual professor que conta os alunos na sala de aula quer, no fundo, saber afinal quantos somos.

Ora, sucede que nenhuma estatística é suficientemente boa ou funcionará por si mesmo se não tiver "agarrada" uma outra ciência que lida igualmente com os números e que dá pelo nome de matemática.

Não me considerando - longe disso - um "expert" nesta ancestral ciência não me inibo, ainda assim, de ensaiar um breve cálculo inerente à presente dissertação para chegar a uma conclusão aparentemente simples de que em Portugal apenas se encontram "impedidos" de exercer o direito de voto um total de 1.076.594 habitantes.

Em face de tal número creio, mesmo correndo o risco de incorrer na mais exemplar das ignorâncias, poder afirmar que há algo que "não bate certo".

Resta-me, pois, tentar em seguida "explicar" este entendimento para que, mesmo que daí não resulte qualquer efeito útil, se perceba - no mínimo - os seus fundamentos.

Vejamos o seguinte: em Portugal e de acordo com os referidos censos 15,60% da população tem menos de 14 anos, ou seja, aproximadamente 1.647.700 dos portugueses tem devidamente justificada a ausência nos actos eleitorais e, desde logo, também por aqui se vê que este número excede o valor da diferença entre cidadãos recenseados e o número de habitantes do país.

Haverá aqui, certamente, que esclarecer que nem todos os cidadãos recenseados residem em Portugal.

O "problema" é que nem por tal facto a "divergência" de números é explicável uma vez que de acordo com os dados de 2010 o número de portugueses recenseados no estrangeiro era aproximadamente de 228.000, valor este que, mesmo tendo em conta o crescimento da emigração nos anos mais recentes, não tenderá a sofrer uma variação suficientemente ampla para justificar o que quer que seja.

Acresce, contudo, que perante a lei apenas os cidadãos com mais de 17 anos podem exercer o respectivo direito de voto pelo que, em bom rigor, o número de pessoas com um impedimento para o referido exercício será ainda maior como maior será a incongruência que tenho vindo a procurar demonstrar.

Poderia, ainda assim, para confirmar este mesmo incompreensível registo estatístico, "lembrar" que em Portugal 3,4 em cada 1000 habitantes não são de nacionalidade portuguesa ou, dito de outro modo, que não podem votar ou têm um direito de voto limitado, o que significa que numa base de pouco mais de 10.000.000 de habitantes esse número ascenderá a qualquer coisa como.... bom, "é fazer as contas", e por aqui também se concluirá que, como é costume dizer-se, os números "não batem certo".

Mantendo a linha racional que tenho procurado evidenciar importa, na lógica do que atrás fica dito, tentar perceber a razão pela qual existe - a meu ver - uma tamanha distorção entre a realidade e os números e essa só pode ser explicada por um factor que nem é novo na nossa Sociedade mas que tarda em ser resolvida, ou seja, a total e manifesta desactualização dos cadernos eleitorais que pura e simplesmente não expurgam devidamente aqueles que por mais do que um motivo não podem - de facto - votar.

Esse numero - que em si mesmo poderia ter um impacto decisivo numa qualquer eleição - poderá ascender - pasme-se - a mais de um milhão de pessoas e o mais grave e simultaneamente irónico é que este número é "oficial" porque é também ele apurado no âmbito dos censos decenais.

Ou seja, "à cabeça" e logo à abertura das urnas mais de 10% abstêm-se involuntariamente de votar entre outras causas porque uma parte dela já não pertence sequer ao "mundo dos vivos".

Esta situação que, para além do mais, tem custos significativos para o próprio Estado na medida em que o número de autarcas e respectivo vencimento é definido em função do número de eleitores, parece não ter uma solução à vista, tendo-se perdido uma excelente oportunidade para tal quando há não muitos anos se iniciou o processo do chamado "cartão único" que permitiria uma maior clareza, uma vez que um dos seus pressupostos iniciais seria o de passar a incluir o número de eleitor de cada cidadão, algo que não se veio a verificar.

A pergunta lógica no meio de tanto factor sem lógica é: a quem interessa a manutenção desta situação?

Para além das hipóteses anteriormente referidas, não parece haver uma resposta lógica e muito menos simples a esta questão. Sinto-me, por isso mesmo, e assumindo essa fraqueza, vencido por uma incapacidade pessoal de procurar explicar o inexplicável. Assim vão as cousas.

terça-feira, 19 de março de 2013

A genealogia de um povo - Conclusão


As minhas deambulações pela natureza do conceito daquilo que é ser português, “levaram-me” anteriormente as temáticas da simbologia nacional associado ao furor exacerbado de uma competição desportiva de massas e da memória colectiva através da reflexão sobre a simbologia dos feriados nacionais.

É agora chegado o momento de encerrar esta espécie de trilogia involuntária abordando uma vertente que considero da maior relevância na determinação daquilo a que, conforme o título que encima a presente dissertação, nos remete para o nosso posicionamento perante a nossa própria identidade.

Esta terceira aproximação a tal conceito não podia deixar de enveredar pelos denominados “caminhos do património”.

Este trilho, que facilmente se confunde com a noção de cultura, “transporta-nos” para os momentos iniciais da nossa história enquanto país, seja na perspectiva de um estado formal com fronteiras definidas seja num período ainda mais remoto.

Ora, destes períodos não resta ninguém, como é absolutamente razoável concluir, que possa relatar nos dias de hoje tudo aquilo que então se passava e como era a Sociedade de então.

Restam, pois, duas formas de aceder a tais informações, isto é, pela análise crítica da documentação que “sobreviveu” a todas as vicissitudes dos séculos que matematicamente se sucedem uns aos outros, ficando dependente nesse caso da interpretação que cada um de nós possa dar a esses intemporais testemunhos de tempos idos, mas também pela possibilidade que o destino nos reservou de poder participar numa espécie de exposição permanente.

Tal “exposição” corresponde, como não podia deixar de ser, ao património físico dos monumentos, a pintura, mas também o traçado arquitetónico das diversas localidades, independentemente da sua dimensão e importância geográfica.

São precisamente estes marcos da nossa identidade, que o tempo se “encarregou” de trazer até aos nossos dias que nos ajudam a integrar-nos em Sociedades que, nada tendo a ver com a actual, explicam em grande parte esta mesma Sociedade, como se de uma marca hereditária se tratasse.

Este vector é de primordial relevância e, por isso mesmo, carece de ser devidamente acautelada no tempo presente para que possa ser usufruída no futuro.

Creio, contudo, que esta tenha deixado de ser há largos anos uma prioridade do poder político, quer seja pelos fracos recursos financeiros normalmente atribuídos a esta área – pouco “visível” na captação do voto dos eleitores – quer pela desvalorização do seu enquadramento orgânico nas estruturas governamentais, reservando-se-lhe normalmente um foro de Secretaria de Estado.

Acontece que a manutenção e conservação de todos estes locais carecem precisamente de um esforço adicional, uma vez que tal como diz o ditado “o tempo não perdoa” e neste aspecto é de uma “crueldade” inapelável perante elementos que não dispõem de qualquer capacidade de auto-regeneração.

Poder-se-ia conduzir esta necessidade pela via meramente económica e, ainda assim, seria a justificação bastante e suficiente para o princípio que lhe subjaz, tendo em conta a importância do sector do Turismo numa economia que, fruto das circunstâncias, poucos mais fontes de “riqueza” consegue produzir.

Mas o meu propósito não é esse.

A minha análise recai sobre uma verdadeira “herança” que necessitamos de fazer “circular” entre gerações e que as permitirá dispor de uma percepção de tudo aquilo que somos a partir daquilo que fomos.

Numa época em que as cedências de parcelas daquilo a que se convencionou chamar de soberania são uma realidade premente à luz dos interesses de confluência e integração económica, são estes elementos de natureza estática que precisamente “resistirão” a tais movimentos e que permitem a cada um de nós afirmar a tal identidade única e indissolúvel.

Contudo, o “cenário” de abandono, degradação e mesmo desinteresse de alguns dos principais momentos da nossa História, parece indicar um caminho precisamente contrário.

Ao passar recentemente perto da mais antiga igreja de Portugal, datada de um período anterior à sua própria nacionalidade (Sec.VII) e à qual foi conferido o estatuto de Monumento Nacional, constato que a mesma se encontra num absoluto estado de ruína por falta de conservação e, por isso mesmo, inacessível ao público.

Atrevo-me a pensar que, no fundo, esta é a nossa própria imagem, isto é, um povo cuja memória colectiva se encontra a meio caminho entre o desaparecimento e a esperança de um futuro melhor.

Ignoramos, contudo, que, tal como aos distintos navegadores de antigamente, a decisão relativamente ao caminho a trilhar pertence precisamente a nós próprios. Assim vão as cousas.