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sábado, 15 de outubro de 2016

Índia - Epílogo

Quando alguém decide fazer férias num território distinto do seu próprio sabe de antemão que a inexorável passagem do tempo há-de determinar que num determinado momento haverá que fazer o caminho inverso ao que tomou inicialmente.

A azáfama típica desse momento leva, normalmente, a uma tentativa - escusada, diga-se - de apressar o regresso, como se o objectivo fosse mais do que nunca regressar a casa, indiferentes a tudo aquilo a que os dias antecedentes haviam proporcionado.

Mas é também o momento do balanço desses mesmos dias, algo que a espera numa qualquer sala de aeroporto proporciona, após os inevitáveis olhares pelas lojas existentes nestes locais procurando uma compra de última hora, rapidamente se percebendo que o custo de qualquer artigo em tais lojas é consideravelmente superior àquele a que teria sido possível adquirir anteriormente o referido artigo mas que, por inconsciente decisão, se optou por diferir para momento posterior à sua compra.

Há, contudo, o outro lado da referida reflexão, o de "olhar" para o que representou a viagem.

Se receios havia antes da mesma, sobretudo devido ao preconceito que normalmente acompanha qualquer viagem para um destino "exótico", rapidamente esses receios foram desaparecendo à medida que se foi percebendo que muito para além de tudo aquilo que evidentemente colide frontalmente com os nossos (pre)conceitos de organização de uma sociedade está um país fascinante, capaz de mudar a nossa perspectiva sobre o referido conceito de sociedade e, nessa medida, tornar-nos pessoas de certa forma diferentes daquela que dias antes havia aterrado em solo indiano.

Um país com um nível de segurança assinalável (independentemente de não ser fácil passear isoladamente nas ruas, mas por motivos totalmente distintos), para o qual não é necessária qualquer vacina previamente à viagem, e onde as pessoas recorrente pedem para tirar connosco fotos ou as selfies da moda, sendo perceptível o gosto com que o fazem tornado impossível recusar tal pedido ainda que não seja perceptível a que título é que o fazem.

Não é o país onde se ouve o som celestial da cítara pelas ruas típico dos programas de viagem ou das pessoas a dançar com uma alegria e ingenuidade inusitada como nos filmes de bollywood.

É o país das pessoas comuns, de uma religiosidade profunda, do minúsculo comércio de sobrevivência, ou como diria o filósofo Epicteto pessoas que suportam a condição humana e inumana cultivando uma forma de indiferença a tudo o que não depende de si próprio.

A publicidade turística indiana anuncia o país como sendo a "Incredible Índia". E é isso mesmo, incrível.

Por todas as cidades onde passámos, Goa, Varanasi, Orchha, Fatehpur Sikri, Agra, Nova Dehli, Jaipur, Kathmandu e Pokhara (estas duas ultimas no Nepal), todos hotéis onde dormimos muito mais do que descansámos (7 ao todo) fica um sabor de algo novo, quase sempre majestoso mas indiscutivelmente belo, sempre surpreendente.

É isto a Índia. A tal "Incredible Índia".

Agora, na hora do regresso, em que o desejo de rever aqueles que nos são mais próximos e voltar à normalidade das nossas vidas parece tornar-se cada vez mais realidade, é tempo olhar para trás e pensar: cumpri o sonho de ver o Taj Mahal, vi o nascer do sol sobre os Himalaias e presenciei o pôr do sol nas águas quentes da Goa "portuguesa".

Cansado? Não. A pergunta seria antes: posso repetir tudo já amanhã?





quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Índia - Dia 5 (Agra)

Seria demasiado injusto da da minha parte não reconhecer que ao longo da minha vida tenho sido bafejado pela fortuna, não a fortuna que remete para o saldo bancário, mas aquela que me tem permitido ao longo dos anos poder cumprir diversos sonhos, nomeadamente através das viagens que tive e tenho a oportunidade de realizar.

Sorte, acaso ou simplesmente destino, sinto-me um privilegiado por poder contemplar algumas das maiores obras da humanidade.

E é aqui que este "roteiro" da Índia se torna pessoal, porventura demasiado pessoal, por expor publicamente um momento que para mim representou uma emoção que a minha limitada capacidade de escrita não conseguirá nunca transpor para um texto.

Desde muito cedo despertou-se em mim o sonho de visitar o Taj Mahal. Aquela imagem idílica que "entrava" pelos meus olhos pela televisão ou num qualquer postal ilustrado transformou-se numa quase obrigação em criar condições de vida para um dia, quem sabe, poder estar fisicamente perante aquele edifício ora branco ora rosado consoante a luz solar, que sempre me pareceu demasiado irreal para existir de facto.

Não conseguirei, portanto, reproduzir a comoção que me invadiu quando olhei de frente para aquele mausoléu que afinal de contas é um monumento ao amor sentindo, ainda assim, que apesar de ali tão perto continuava a não ser real, fosse o edifício ou o simples facto de eu próprio estar ali naquele momento.

E sim, é um monumento ao amor, uma homenagem de um rei à sua segunda esposa mas primeiro amor da sua vida a quem construiu aquele gigantesco monumento de mármore branco em apenas 22 anos, 6 meses após a sua morte.

Por isso, ao mesmo tempo que ganhava consciência do facto de tudo aquilo era real, desejei muito, como se fosse comigo próprio, que naquele instante todas as pessoas de quem mais gosto, sejam os meus filhos (as minhas obras de arte), os meus pais, os meus queridos avós (os que já faleceram e a que ainda, embora vergada pela doença de Alzheimer, ainda está entre nós), o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos, os amigos de sempre (aqueles que nunca nos abandonam nem abandonarão), todas aquelas pessoas que ao longo da vida me tornaram naquilo que sou, sejam eles professores ou aqueles colegas de trabalho a quem devo o profissional em que me tornei, pudessem estar ali comigo juntamente com o amor da minha vida a quem gostaria de construir todos os monumentos possíveis em vida e os meus sogros.

Como se já tudo isto não fosse bastante e suficiente percebi que toda a absoluta coerência e geometria do Taj Mahal gira à volta do número 22, número este que desde sempre e sem que haja uma explicação racional para o facto - ainda para mais vindo de um não crente - se manteve sempre com o meu "número da sorte". 

Não tenho explicação para isto. Poderá ser uma feliz coincidência ou qualquer outra coisa que cada um de nós, no seu interior, entender que possa ser.

Talvez o meu destino fosse mesmo visitar o Taj Mahal num qualquer momento da minha vida. Não sei. Se o era, então já o cumpri.

Mas nem só de Taj Mahal "vive" a monumental cidade de Agra.

Anterior ao próprio Taj Mahal ergue-se num pequeno espaço o denominado "baby" Taj Mahal por ter dimensões consideravelmente menores mas a partir do qual se percebe emergirem os conceitos fundamentais de arquitectura do seu colossal irmão "famoso", estando em curso o projecto de elevar este monumento a património da humanidade, passando Agra a ter 4 monumentos com o referido título.

Um desses monumentos é o Forte de Agra, uma gigantesca fortificação, parcialmente não visitável, mas que permite, ainda assim, o acesso a um confortável número de palácios no seu interior, com a monumentalidade digna de uma riqueza histórica e religiosa, que passa de uma forma que nos dias de hoje parece bastante improvável pela fusão entre o hinduísmo e o Islão.

É tempo de descansar, o dia começou cedo - 05:55 - mas, sobretudo, por tudo aquilo que representou do ponto de vista pessoal.

Termino, porque já percebi que dá Índia não se volta a mesma pessoa, desejando a todos que possam um dia cumprir os seus sonhos, sejam eles quais forem.

Eu "avisei" que isto hoje seria absolutamente pessoal...









quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Índia - Dia 4 (Fatehpur Sikri e Agra)


Saídos bem cedo da bela e, para não variar, movimentada cidade de Jaipur, colocamo-nos a caminho de Agra, que distam uma da outra cerca de 225, possíveis de percorrer num tempo bem mais "simpático" desde logo porque não é necessário enfrentar o trânsito infernal à saída de Jaipur - embora não se possa propriamente falar de ausência de trânsito - mas também porque a autoestrada é surpreendentemente boa, ainda que também o nosso conceito deste tipo de estrada seja questionado no momento em que percebemos que nela circulam todo o tipo de veículos - literalmente - que é atravessada a todo o momento por peões e, cereja no topo bolo, porque frequentemente sucede circularem veículo em contra-mão. Sem problema, buzina-se e nada acontece. Wellcome to Índia.

Antes da chegada a Agra tempo para uma paragem num daqueles locais que quase justifica uma viagem à Índia, um local chamado Fatehpur Sikri, ao qual se acede num autocarro apinhado de gente, igual a tantos outros que existem nas cidades, suficientemente decrépitos para se pensar que jamais se entraria num deles. Enganei-me.  

Fatehpur Sikri éuma fortaleza imponente do tempo dos sultões, isto é, de influência muçulmana, construído em arenito vermelho, conferindo uma beleza inacreditável que se estende por diversos pisos no seu interior, quatro para ser mais exacto, embora não se trate de um edifício de quatro andares.

O primeiro piso era reservado às audiências públicas. O segundo, terceiro e quarto destinavam-se à segunda, terceira e quarta esposa, sendo a primeira muçulmana, a segunda cristã e a terceira muçulmana e onde, tirando o sultão, apenas os eunucos por ali circulavam.

Anexo ao forte encontra-se uma outra construção absolutamente deslumbrante, uma grandiosa mesquita de nome Jami Masjid, a cujo interior apenas se acede descalço, muito embora o chão esteja positivamente a arder.

Este é também um local onde colocar em pratica a táctica do macaco que não vê, não ouve e não fala faz todo sentido, tantas, mas tantas, são as solicitações para comprar algo ou fazer alguma acção de caridade que rapidamente se tornariam num inferno se caíssemos na asneira de "contribuir para este peditório".

A monumentalidade dos edifícios é esmagadora é difícil de descrever nestas linhas.

Faz-nos relativizar tudo aquilo que vamos vendo de menos bom e aproveitar ao máximo aquilo que de melhor a Índia tem para oferecer.

Antes da entrada em Agra veio finalmente o almoço.

E refiro-me a este aspecto pela primeira vez não para descrever o restaurante mas por se tratar de um "ponto quente" sempre que alguém fala na Índia.

Não há ninguém que não conheça alguém que conhece alguém que passou mal na Índia por ter comido ou bebido a comida ou a água de cá.

Pessoalmente opto sempre por me lembrar de quem conhece alguém que conhece alguém que gostou imenso de visitar a Índia e não teve problemas....gástricos.

Chamem-me optimista ou outra coisa qualquer mas a verdade é que seguindo-se regras básicas a possibilidade de tais problemas diminui consideravelmente.

Desde logo pela escolha do restaurante.... Sinceramente, mais vale deixar o guia/condutor escolher o local de repasto. Por um lado aumenta a garantia de alguma qualidade culinária - por aqui chama-se "multicuisine" - mas também ao nível de higiene, por outro provavelmente garante ao referido guia/condutor uma refeição gratuita o que, convenhamos, para quem ganha certamente tão pouco, custa ainda menos "alinhar" nesta evidente cumplicidade entre restaurante e guia/condutor.

Não fica mais barato do que se a opção recaísse por uma das milhares de bancas de comida existentes nas ruas, mas não fica suficientemente caro para se pensar duas vezes. E sinceramente.... Vale a pena arriscar?

Quanto à água a coisa está facilitada. Os hotéis oferecem sempre duas garrafas por dia. Basta colocá-las no frigorífico durante a noite e temos água para o dia seguinte todo, até porque a transpiração torna-se, na prática, o nosso melhor diurético, não sendo necessário ir ao wc a cada meia-hora.

Se esta estratégia resulta? Até agora sim. No final logo se vê.

O dia termina coma chegada à caótica Agra, a terra do Taj Mahal, que antecipo....enfim....todo nós já vimos o postal.