sábado, 8 de outubro de 2016

Índia - Dia 7 (Khajuraho e Varanasi)

Talvez devesse começar o registo de hoje alertando para o facto de que aquilo que se seguirá, seja na forma escrita ou sobretudo graficamente através das fotografias que habitualmente selecciono para ilustrar os locais descritos no texto, deveria ser não aconselhável a menores de 18 anos.

Depois de visitar Khajuraho admito que uma tal restrição constituiria uma desnecessária catalogação de um local que é tudo menos pornográfico ou simplesmente imoral.

Haverá, no fundo, sempre que lembrar que ao visitar a Índia temos de nos despir de preconceitos e assumir com naturalidade a realidade com que este povo há centenas de anos encara determinadas questões que para um ocidental têm uma contextualização totalmente distinta.

Assim, descrever Khajuraho, uma muito pequena cidade de apenas 14800 habitantes - sim, apenas 14800 habitantes - sem indústria, isto é, com níveis de poluição e de ruído consideravelmente mais baixos do que a generalidade das cidades na Índia, que se dedica em exclusivo à agricultura e ao turismo, pode ser feita de duas maneiras.

A primeira é descrevê-la como a cidade do famoso livro do Kama Sutra, porventura a referência máxima do erotismo, e que muitos já terão desfolhado para "deitar um olho" às ilustrações, comparativamente com aqueles que, certamente em menor número, o terão lido e ainda menos os que terão interiorizado devidamente o seu sentido.

Kama Sutra significa "técnica (Sutra) do amor (Kama)" e representa um tratado sensorial que está muito para além de qualquer fetichismo que se lhe possa associar, focando-se sobretudo no espírito como forma de atingir o prazer físico.

Ou seja, as muitas imagens eróticas que aparecem de forma absolutamente natural nos muitos templos representam, antes de mais, um manual do amor e de exaltação da vida e da criação, tendo como modelos o Deus Xiva e a sua mulher Parvati.

A segunda forma de descrever Khajuraho é referindo que se trata de um vasto conjunto de templos quase inteiramente construídos entre o século X e o século XI, sendo a maior parte em homenagem a deuses hindus e, em menor número, ao budismo.

Estes monumentos tiveram a sorte, aliás, de ter escapado às invasões muçulmanas, embora se notem alguns vestígios dessa presença, nomeadamente na eliminação da representação figurativa ou, dito de outra forma, sem as respectivas cabeças e rostos.

Creio, portanto, ser essa a forma correcta que interpretar a monumentalidade dos templos de Khajuraho, isto é, mais um exemplo acabado de uma riqueza cultural absolutamente ímpar, que a Unesco elevou a património da Humanidade, o que só por si faz perceber que este local está longe de corresponder a uma qualquer forma de exaltação da imoralidade.

Acresce que a verdadeira exaltação é a da figura da Mulher, em toda a sua beleza, representada por ninfas celestiais, de corpo escultural, exibindo uma feminilidade e uma perfeição que não é facilmente associada a uma tal antiguidade, com representações de adereços que poderiam bem ser absolutamente actuais.

É extraordinária esta forma de encarar a sexualidade e o erotismo porquanto a imagem que facilmente se retém dos indianos está longe de remeter para manifestações públicas de intimidade sendo visível,  a espaços, casais de namorados em romântica cavaqueira, mas nunca (que eu tenha visto) alguma outra forma de proximidade, ainda que neste caso me esteja a referir unicamente a um simples beijo.

A explosão demográfica na Índia será, pelo menos, um sinal indicativo que as relações entre os casais não se ficam unicamente pelas palavras, mas também me permito duvidar que estejam nos antípodas dos ensinamentos do Kama Sutra.

Terminada a visita a Khajuraho é templo de rumar à terra santa de Varanasi e, nessa ocasião, falar-se-á de religião.

O transporte para Varanasi é feito de avião, numa viagem que demora cerca de 35 minutos, poupando, pelo menos por agora, o corpo a algumas horas de carro. O corpo...e o espírito.







sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Índia - Dia 6 (Orchha e Khajuraho)

Agra e os seus esplendorosos monumentos ficam para trás.

É tempo de rumar a Orchha e para isso tomamos o comboio que parte às 08:02 horas com uma pontualidade própria de uma Suíça mas a que dificilmente se associa a Índia.

A viagem não é longa, embora a chegada nada tenha tido de Suíça, pois contava um atraso de 43 minutos. Não que o comboio pare em muitas estações, até porque corresponderá mais ou menos ao "nosso" Alfa Pendular, mas porque na Índia circulam muitos comboios, a todo o momento, cada um com mais de 15 carruagens para passageiros, para além de enormes comboios de carga.

Não sendo uma viagem "em executiva" a comodidade é boa e justifica a opção.

Sobre este tema da comodidade talvez se justifiquem algumas notas.

Um dos temas "quentes" de que pretende viajar ou comenta as viagens à Índia passa pela qualidade dos hotéis, referindo-se quase sempre que a opção deve recair em hotéis de 5 estrelas.

Ora bem, o problema começa aqui. Tanto quanto me apercebo na Índia não há sequer a habitual classificação estrelar, por isso a categoria do hotel é feita de duas formas: toma-se-lhe a "pinta" por fora - e isso, acreditem, é muito fácil fazer - e arriscar num hotel de categoria equivalente a um 4 estrelas.

Sucede que o que se verifica é que o risco é praticamente nulo. Os hotéis neste patamar são genericamente bons quando não mesmo bastante bons e, por isso mesmo, tenho sérias dúvidas que o custo adicional de um categoria superior justifique em termos de qualidade essa opção.

Por outro lado e como sempre refiro, para mim hotel passa por ser apenas e só o local onde passo umas horas - e, no caso, até são bem poucas - para tomar banho e dormir, por isso apenas exijo duas características: que seja asseado e que tenha wc privativo.

Nos dias que correm faz sentido uma terceira quase exigência - doutro modo como poderia escrever estes registos diários - de poder ter Wi-Fi, essa invenção que normalmente se pede num restaurante mesmo antes da ementa.

Por aqui o Wi-Fi raramente é gratuito, e quase sempre limitado a uma hora de utilização. Tem chegado para as necessidades.

Dizia, portanto, que comboio nos trouxera ate Orchha, uma pequena cidade, curiosamente pouco frequentada por turistas, o que dificilmente se percebe, perante a beleza dos seus monumentos, em particular o palácio Jahangiri Mahal que reúne, como tantas vezes se tem visto, as influências muçulmanas e hindus, onde é possível entre outras coisas, fotografar de bastante perto (convém talvez não ser muito perto) os muitos macacos capuchinhos que por ali andam, numa atitude de complacência de quem parece desfrutar do palácio em si mesmo mas também da vista magnífica sobre os 27 vestígios arqueológicos do local, incluindo mais dois palácios e dois templos.

Bem ali perto encontra-se o Templo Chaturbhuj, outro exemplo da imponência dos templos, este dedicado a Vixnu, situando-se nas margens do rio Betwa onde é possível (e deve-se) visitar os 14 belos cenotáfios.

Orchha constituiu, portanto, mais um admirável exemplo que de melhor a Índia tem para oferecer.

Depois de almoço seguiram-se quase quatro horas de carro até Khajuraho, o tempo que leva para percorrer uma distância de aproximadamente 200 kms.

E porquê tanto tempo para uma tão relativamente curta distância?

Talvez fosse tema para a série de livros "Uma Aventura"...

Passo a (tentar) explicar.

A estrada para Khajuraho tem duas faixas de rodagem, uma para cada lado, nas quais não se pode circular a mais de 80 kms/hora, velocidade esta que creio nunca é atingida, simplesmente porque...é impossível.

Junte-se uma estrada que em quase todo o seu percurso se encontra em mau estado, a cada 100 metros uma junta de búfalos, um rebanho de cabras e, claro está, milhares de vacas invadem e se deitam na estrada, como que dizendo "eu sou sagrada, arranja maneira de dar a volta sem me tocares" e um incontável número pessoas que atravessam a estrada como se não houvesse amanhã.

Mas não é tudo. 

Apesar das duas faixas de rodagem (uma para cada lado), todas a viaturas circulam apenas numa: a do meio. Presumo que tal se deve ao facto da estrada estar menos má nesse local ou como forma de evitar pessoas, motorizadas e animais que quase sempre circulam mais à esquerda ou direita, consoante a direção (embora esteja longe de ser uma "ciência exacta" por aqui).

O efeito é engraçado (embora não pareça) e é mais ou menos este: imagine-se andar nos carrinhos de choque nas feiras mas em que no último instante cada carrinho muda de direcção e por isso nuca colidem. É isto que se passa na estrada de Khajuraho. 

Não termina, contudo, aqui a dita "aventura". Como já é de noite, apita-se menos, então conduz-se com os máximos acesos....toda a gente.

Antes que perguntem, estamos bem, obrigado. Isto é a Índia.

Amanhã o dia reserva uma visita a um local que tem direito a bolinha vermelha no canto.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Índia - Dia 5 (Agra)

Seria demasiado injusto da da minha parte não reconhecer que ao longo da minha vida tenho sido bafejado pela fortuna, não a fortuna que remete para o saldo bancário, mas aquela que me tem permitido ao longo dos anos poder cumprir diversos sonhos, nomeadamente através das viagens que tive e tenho a oportunidade de realizar.

Sorte, acaso ou simplesmente destino, sinto-me um privilegiado por poder contemplar algumas das maiores obras da humanidade.

E é aqui que este "roteiro" da Índia se torna pessoal, porventura demasiado pessoal, por expor publicamente um momento que para mim representou uma emoção que a minha limitada capacidade de escrita não conseguirá nunca transpor para um texto.

Desde muito cedo despertou-se em mim o sonho de visitar o Taj Mahal. Aquela imagem idílica que "entrava" pelos meus olhos pela televisão ou num qualquer postal ilustrado transformou-se numa quase obrigação em criar condições de vida para um dia, quem sabe, poder estar fisicamente perante aquele edifício ora branco ora rosado consoante a luz solar, que sempre me pareceu demasiado irreal para existir de facto.

Não conseguirei, portanto, reproduzir a comoção que me invadiu quando olhei de frente para aquele mausoléu que afinal de contas é um monumento ao amor sentindo, ainda assim, que apesar de ali tão perto continuava a não ser real, fosse o edifício ou o simples facto de eu próprio estar ali naquele momento.

E sim, é um monumento ao amor, uma homenagem de um rei à sua segunda esposa mas primeiro amor da sua vida a quem construiu aquele gigantesco monumento de mármore branco em apenas 22 anos, 6 meses após a sua morte.

Por isso, ao mesmo tempo que ganhava consciência do facto de tudo aquilo era real, desejei muito, como se fosse comigo próprio, que naquele instante todas as pessoas de quem mais gosto, sejam os meus filhos (as minhas obras de arte), os meus pais, os meus queridos avós (os que já faleceram e a que ainda, embora vergada pela doença de Alzheimer, ainda está entre nós), o meu irmão, a minha cunhada, os meus sobrinhos, os amigos de sempre (aqueles que nunca nos abandonam nem abandonarão), todas aquelas pessoas que ao longo da vida me tornaram naquilo que sou, sejam eles professores ou aqueles colegas de trabalho a quem devo o profissional em que me tornei, pudessem estar ali comigo juntamente com o amor da minha vida a quem gostaria de construir todos os monumentos possíveis em vida e os meus sogros.

Como se já tudo isto não fosse bastante e suficiente percebi que toda a absoluta coerência e geometria do Taj Mahal gira à volta do número 22, número este que desde sempre e sem que haja uma explicação racional para o facto - ainda para mais vindo de um não crente - se manteve sempre com o meu "número da sorte". 

Não tenho explicação para isto. Poderá ser uma feliz coincidência ou qualquer outra coisa que cada um de nós, no seu interior, entender que possa ser.

Talvez o meu destino fosse mesmo visitar o Taj Mahal num qualquer momento da minha vida. Não sei. Se o era, então já o cumpri.

Mas nem só de Taj Mahal "vive" a monumental cidade de Agra.

Anterior ao próprio Taj Mahal ergue-se num pequeno espaço o denominado "baby" Taj Mahal por ter dimensões consideravelmente menores mas a partir do qual se percebe emergirem os conceitos fundamentais de arquitectura do seu colossal irmão "famoso", estando em curso o projecto de elevar este monumento a património da humanidade, passando Agra a ter 4 monumentos com o referido título.

Um desses monumentos é o Forte de Agra, uma gigantesca fortificação, parcialmente não visitável, mas que permite, ainda assim, o acesso a um confortável número de palácios no seu interior, com a monumentalidade digna de uma riqueza histórica e religiosa, que passa de uma forma que nos dias de hoje parece bastante improvável pela fusão entre o hinduísmo e o Islão.

É tempo de descansar, o dia começou cedo - 05:55 - mas, sobretudo, por tudo aquilo que representou do ponto de vista pessoal.

Termino, porque já percebi que dá Índia não se volta a mesma pessoa, desejando a todos que possam um dia cumprir os seus sonhos, sejam eles quais forem.

Eu "avisei" que isto hoje seria absolutamente pessoal...









quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Índia - Dia 4 (Fatehpur Sikri e Agra)


Saídos bem cedo da bela e, para não variar, movimentada cidade de Jaipur, colocamo-nos a caminho de Agra, que distam uma da outra cerca de 225, possíveis de percorrer num tempo bem mais "simpático" desde logo porque não é necessário enfrentar o trânsito infernal à saída de Jaipur - embora não se possa propriamente falar de ausência de trânsito - mas também porque a autoestrada é surpreendentemente boa, ainda que também o nosso conceito deste tipo de estrada seja questionado no momento em que percebemos que nela circulam todo o tipo de veículos - literalmente - que é atravessada a todo o momento por peões e, cereja no topo bolo, porque frequentemente sucede circularem veículo em contra-mão. Sem problema, buzina-se e nada acontece. Wellcome to Índia.

Antes da chegada a Agra tempo para uma paragem num daqueles locais que quase justifica uma viagem à Índia, um local chamado Fatehpur Sikri, ao qual se acede num autocarro apinhado de gente, igual a tantos outros que existem nas cidades, suficientemente decrépitos para se pensar que jamais se entraria num deles. Enganei-me.  

Fatehpur Sikri éuma fortaleza imponente do tempo dos sultões, isto é, de influência muçulmana, construído em arenito vermelho, conferindo uma beleza inacreditável que se estende por diversos pisos no seu interior, quatro para ser mais exacto, embora não se trate de um edifício de quatro andares.

O primeiro piso era reservado às audiências públicas. O segundo, terceiro e quarto destinavam-se à segunda, terceira e quarta esposa, sendo a primeira muçulmana, a segunda cristã e a terceira muçulmana e onde, tirando o sultão, apenas os eunucos por ali circulavam.

Anexo ao forte encontra-se uma outra construção absolutamente deslumbrante, uma grandiosa mesquita de nome Jami Masjid, a cujo interior apenas se acede descalço, muito embora o chão esteja positivamente a arder.

Este é também um local onde colocar em pratica a táctica do macaco que não vê, não ouve e não fala faz todo sentido, tantas, mas tantas, são as solicitações para comprar algo ou fazer alguma acção de caridade que rapidamente se tornariam num inferno se caíssemos na asneira de "contribuir para este peditório".

A monumentalidade dos edifícios é esmagadora é difícil de descrever nestas linhas.

Faz-nos relativizar tudo aquilo que vamos vendo de menos bom e aproveitar ao máximo aquilo que de melhor a Índia tem para oferecer.

Antes da entrada em Agra veio finalmente o almoço.

E refiro-me a este aspecto pela primeira vez não para descrever o restaurante mas por se tratar de um "ponto quente" sempre que alguém fala na Índia.

Não há ninguém que não conheça alguém que conhece alguém que passou mal na Índia por ter comido ou bebido a comida ou a água de cá.

Pessoalmente opto sempre por me lembrar de quem conhece alguém que conhece alguém que gostou imenso de visitar a Índia e não teve problemas....gástricos.

Chamem-me optimista ou outra coisa qualquer mas a verdade é que seguindo-se regras básicas a possibilidade de tais problemas diminui consideravelmente.

Desde logo pela escolha do restaurante.... Sinceramente, mais vale deixar o guia/condutor escolher o local de repasto. Por um lado aumenta a garantia de alguma qualidade culinária - por aqui chama-se "multicuisine" - mas também ao nível de higiene, por outro provavelmente garante ao referido guia/condutor uma refeição gratuita o que, convenhamos, para quem ganha certamente tão pouco, custa ainda menos "alinhar" nesta evidente cumplicidade entre restaurante e guia/condutor.

Não fica mais barato do que se a opção recaísse por uma das milhares de bancas de comida existentes nas ruas, mas não fica suficientemente caro para se pensar duas vezes. E sinceramente.... Vale a pena arriscar?

Quanto à água a coisa está facilitada. Os hotéis oferecem sempre duas garrafas por dia. Basta colocá-las no frigorífico durante a noite e temos água para o dia seguinte todo, até porque a transpiração torna-se, na prática, o nosso melhor diurético, não sendo necessário ir ao wc a cada meia-hora.

Se esta estratégia resulta? Até agora sim. No final logo se vê.

O dia termina coma chegada à caótica Agra, a terra do Taj Mahal, que antecipo....enfim....todo nós já vimos o postal.





terça-feira, 4 de outubro de 2016

Índia - Dia 3 (Jaipur)

O terceiro dia de visita trouxe a possibilidade de passear pelas principais referências históricas, culturais e, por inerência, também turística, da cidade de Jaipur.
Esta cidade de 6,8 milhões de habitantes tem com referência a segunda maior montanha da Índia (embora de incomparável dimensão com a mais famosa de todas, os Himalaias), na qual imperam três fortificações interligadas por 12 kms de muralhas, impecavelmente conservadas, que ainda hoje parecem tão impenetráveis como o eram no tempo das invasões mongóis.

Uma dessas fortificações e a principal atracção turística de Jaipur corresponde ao Amber Fort, cuja imponência "esmaga" os nossos sentidos, sendo impossível uma sensação de comparação com o mosteiro de Potala no Tibete pela forma como se ergue pela montanha como se dela fizesse parte.

O Amber Fort fica situado num dos extremos da cidade, dentro de uma cidadela cujos edifícios originais incluindo as fundações do próprio Forte remontam ao século XI.

Supostamente o acesso ao seu interior deveria ter ocorrido montado na garupa de um elefante facto que se verificou ser impossível por coincidir com as festividades locais, altura que os passeios de paquiderme são suspensos, não sem alguma desilusão pessoal pelo facto.

No interior do Amber Fort, embora despido de conteúdo, reina a riqueza dos mármores, dos frescos nas paredes, o rendilhado esculpido na pedra e até, pasme-se, uma sala decorada com espelhos abaulados especialmente vindos do país na Europa que hoje em dia se chama de Bélgica, algo surpreendente se pensarmos que a encomenda foi feita no século XV...

Neste palácio de Reis e marajás viviam para além do soberano, as suas muitas mulheres e ainda mais concubinas, e tudo está desenhado para albergar os quartos das ditas senhoras, respeitando exemplarmente o recato/reclusão que lhes era imposto e o local de trabalho do próprio soberano.

Os homens, esses, ficavam à porta da fortaleza, posto que o seu interior apenas poderiam circular aqueles a quem o destino retirou a masculinidade, essas quase curiosidades humanas, denominadas de eunucos.

A vista das muralhas do Forte é o que se espera e se antecipa, chega até onde a vista alcança.

Como em quase tudo na Índia também este Forte está dedicado a uma divindade, Shila Devi, existindo no seu interior um templo ao qual apenas se pode aceder descalço e sem qualquer objecto de cabedal.

O que se passa "lá dentro" corresponde aqueles momentos que se tornam difíceis de expressar por palavras, quanto mais por escrita.

O som de um tambor que não se percebe de onde emerge, mas que garantidamente não emana de uma gravação, vai subindo de intensidade acompanhando uma desenfreada é absolutamente caótica marca de devoção, com oferendas à divindade, flores que são atiradas pelo ar, em direcção a estátua que se ergue por detrás de um pano bordeaux, que rapidamente se fecha.

Os visitantes, crentes ou não, são presenteados com uma marca de tinta vermelha no meio da testa, representando a terceira visão, conferindo boa sorte ao seu portador, e com uma espécie de bolo de açúcar com leite que lembra muito curiosamente o doce de leite. Saboroso, portanto.

Infelizmente não é possível fotografar no seu interior, mas de pouco serviria porque não poderia nunca passar as sensações que se desfrutam no seu interior.

É hora de seguir caminho e sair do Forte e da cidadela o local onde, diga-se, se avistam mais turistas.

Sobre este aspecto importa referir que a sensação que se tem em certos momentos na Índia é de que seremos nós próprios os únicos turistas ali presentes.

Nada mais falso. A questão é que o intenso calor, a anarquia do tráfego mas igualmente uma percepção de insegurança (falsa, na realidade) afasta os turistas dos habituais passeios a pé pela cidade, refugiando-se atrás de milhentas viaturas de turismo e dos respectivos guias.

Contudo, pessoalmente, a vida de uma qualquer cidade não se resume às suas atracções turísticas, dela fazendo parte integrante as pessoas que nela vivem o que, no caso da Índia, é impossível ignorar, tal é o movimento frenético em cada esquina, nas incontáveis pequenas lojas, no comércio que pode ir de um barbeiro de rua até grandes lojas de joalharia e tapeçaria.

Por isso não poderia, em consciência, deixar de circular ao ritmo da própria passada pelas ruas estreitas, apinhadas de gente (e bastante lixo, já terei feito perceber....), e sentir tudo isto, os sons, os cheiros, a música - e, acreditam, os indianos gostam muito de cantar - ou seja tudo aquilo que não estará normalmente num roteiro turístico.

Diga-se, no entanto, que esta "ousadia" está longe se ser tarefa fácil, sobretudo se duas ou três crianças decidirem "juntar-se" a uma comitiva para a qual não foram convidadas, "reclamando" uma boa acção no valor de 10 rupias (menos de 15 cêntimos....), rapidamente se percebendo que a nossa boa-vontade teve um efeito multiplicador do número de potências beneficiários da nossa caridade.

Não se pense, contudo, que as referências turísticas de esgotam nas fortificações nas montanhas de Jaipur.

Destacam-se ainda o belíssimo palácio Jal Mahal que emerge das águas do lago artificial onde se encontra estacionado quase no centro e que mesmo não sendo visitável (só o seria por barco) é uma vista incontornável da cidade.

Num outro local da cidade ficam situados duas outras referências de Jaipur, o palácio da cidade, local imponente, a residência dos Reis de Jaipur, incluindo o actual (a Índia sendo uma república constitucional tem, apesar disso, um rei, ainda que totalmente despojado de poderes), albergando igualmente o museu da cidade, que mesmo não correspondendo exemplarmente à noção que vulgarmente temos de museu (uma vez mais há que adaptar os conceitos ao local) permite ter uma percepção sobre as roupas usadas pelo marajá Sawai Man Singh II, fundador de Jaipur, no século XVII.

Por fim destaque para um local denominado Jantar Mantar, que longe de designar um sítio onde se possa fazer a última refeição do dia, corresponde antes de mais a um espaço onde se encontra, situado um observatório astronómico, onde tudo o que tenha qualquer relação com a astrologia, astronomia e, claro está, a determinação das horas se encontra representado em volumosas peças de arquitectura que impressiona tanto pela precisão dos seus instrumentos como pela sensação de modernidade de uma construção que, afinal de contas, foi edificada no século XVIII.

Neste roteiro seguir-se-à a cidade de Agra, e ainda que apenas reservado para o dia 5, Agra, mesmo não parecendo, rima com Taj Mahal.




segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Índia - Dia 2 (Jaipur)

Se alguma conclusão se pode, com rigor, extrair em tão pouco tempo de viagem, uma será certamente o de nos confrontar com a absoluta relatividade de certos conceitos com que normalmente nos "habituámos" a lidar perante a realidade da sociedade indiana.

A primeira noção que se torna relativa é a noção de trânsito.

Entre Nova Deli e Jaipur são cerca de 235 kms o que, numa qualquer cidade europeia demorariam a percorrer, no máximo, cerca de 3 horas por auto-estrada. 

Esse é precisamente o tempo que ocupam os primeiros 100 kms da viagem, sendo boa parte desse tempo passado no trânsito para sair de Nova Deli. Ou seja, os referidos 235 kms demoram qualquer coisa como 6 horas de viagem, de carro e por auto-estrada.

Entre as muitas obras que ocupam boa parte das faixas de rodagem em Nova Deli, o absoluto descontrolo no tráfego onde circulam simultâneamente milhares de carros, milhares de tuk-tuk, milhares de motas e, claro está milhares de pessoas que atravessam as estradas com a maior das descontracções.

Numa das ocasiões e porque à entrada de cada estado as viaturas comerciais têm de pagar uma taxa, o condutor (e todos os outros condutores que ali paravam) atravessou "nas calmas" 8 faixas de rodagem (a certo ponto são 16 faixas....) para pagar a dita taxa, regressando com a mesma tranquilidade de quem, de facto, deve acreditar em Ganesh, Shiva ou qualquer um dos milhares de deuses a quem os indianos prestam devoção.

De ora em diante a noção de trânsito passará certamente a ser outra, valendo no caso o facto da paisagem nunca se tornar monótona, tal é a diversidade que nos invade a cada novo quilometro.

O segundo conceito que se torna absolutamente relativo é o da noção de pobreza.

Nesse aspecto Jaipur torna mais evidente o muito reduzido nível de vida de boa parte dos indianos que sobrevivem (será forçado dizer que vivem) em condições sub-humanas, rodeados de enormes quantidades de lixo e de uma espécie de jardim zoológico ao ar livre.

Sim, nessas mesmas ruas onde cabem pessoas cabem igualmente cães, dromedários, elefantes, macacos, cabras, cavalos, gatos (poucos), galinhas, porcos e, claro está, as "famosas" vacas indianas.

De todo este "reino animal" são precisamente estas últimas que prosperam melhor (embora algumas pareçam ter menos sorte na vida de tão escanzeladas que são) porque, sendo considerado um animal divino, não acabam os seus dias num qualquer prato de restaurante nem seque servem para matar a fome a quem, afinal de contas, parece bem necessitado de comer.

A imagem de vacas a passear calmamente pela estrada ou simplesmente a "pastar" no lixo é recorrente e faz jus à fama.

De resto os indianos servem-se basicamente de carne de galinha e de cabra, ficando a carne de porco "reservada" para as classes mais baixas, sendo impossível encontrar referência a este animal que tantas religiões rejeitam numa ementa de restaurante.

Às vacas fica reservado o "papel" de fornecer o leite para beber, fazer manteiga ou queijo.

O terceiro conceito que se desmancha, por assim dizer, ao tomar contacto com a realidade local é de uma certa noção de felicidade, ainda que forçada pelas circunstâncias.

De facto não deixa de ser comovente ver meninos a brincar na rua ou nos telhados das suas "casas" lançando papagaios ao vento (que em bom rigor nem corre), como que indiferentes ao seu presente e mais ainda ao mais do que inevitável futuro de miséria.

Ao mesmo tempo percebe-se que quase todos têm o seu negócio particular, de dimensões tão exíguas que nem o epíteto de micro-empresa poderão ter, mas que cada um mantém para seu sustento, isento de ambições, como se aquilo se bastasse para ter o necessário para cada novo dia.

Não posso afirmar isto com total convicção e muito menos colocar-me na pele destas pessoas, mas posso pelo menos pensar - inocentemente, admito - que assim possa ser. Torna, pelo menos, mais "fácil" olhar para tamanha pobreza sem sentimento de "culpa" por sermos a outra face de um mundo que é, demasiadas vezes, demasiado injusto.

A cidade de Jaipur encontra-se rodeada por fortificações ancestrais que protegiam a cidade das invasões mongóis. Em cada um desses fortes é possível desfrutar de uma vista fantástica sobre a cidade que entretanto, tal como se verifica em quase toda a Índia, cresceu desmesuradamente, sendo hoje em dia os fortes e respectivas montanhas apenas testemunhas de um passado grandioso.

Não sendo um dia dedicado a visitas fica o registo de um jantar com direito a música tradicional que, mesmo "cheirando" a coisa para turista ver, não desilustra e sobretudo não pode deixar-nos influenciar por preconceitos desnecessários, aqueles mesmo de que voluntariamente nos "despimos" quando olhamos para tudo aquilo que está nos antípodas da atracção turística.

Fica, portanto, prometido o olhar sobre Jaipur para o quarto dia.








Índia - Dia 1 (Nova Dehli)

Imagine-se uma cidade que tem oficialmente 23 milhões de habitantes (não oficialmente serão mais...) e se não for exercício fácil fazê-lo então será, porventura, mais "simples" imaginar uma cidade onde cabe toda a população portuguesa...duas vezes e mais ainda algumas centenas de milhar e então passamos a ter uma (sucinta) imagem do que é Nova Deli.

Por felicidade do destino ou mera coincidência conforme a crença de cada um o dia de hoje corresponde a um feriado nacional indiano, aquele que assinala a data de nascimento do seu fundador e homem da paz, Mahatma Gandhi.

Por isso mesmo as ruas e os muitos parques que existem nesta cidade encontravam-se especialmente repletas de de famílias, visitando as principais atracções turísticas da cidade, em contraponto com o número de viaturas que circulava na estrada que, segundo nos informam, corresponderá apenas a 20% do trânsito "normal".

Deixo a cada um imaginar o que se será num tal dia "normal".

A este propósito é justo dizer que todo o preconceito que haja sobre a forma como se conduz na Índia é perfeitamente justo e adequado.

De facto reina um caos difícil de traduzir em escassas palavras, mais ainda se o referido epíteto for acompanhado por uma convicção de se tratar de um caos "controlado". Explicando melhor: não há acidentes.

Apesar de ninguém, mas literalmente ninguém, respeitar as mais elementares regras de trânsito, não se percebe que entre os milhares de tuk-tuk, motorizadas com duas ou três pessoas (sem capacete e levando quase tudo ao colo), pessoas que atravessam com as famílias inteiras a estrada em qualquer local e, claro, todas as outras viaturas, não se percebe que alguém perca muito tempo a assinar "declarações amigáveis".

A verdade porém é que também não seria justo afirmar que as viaturas estarão imaculadas no seu estado, porque facilmente se conclui que não haverá uma única que não tenha um qualquer sinal de colisão num dado momento da sua "vida".

Segundo se diz, quando o acidente ocorre, os automobilistas encostam as viaturas, o responsável pelos danos pede desculpas, o lesado aceita-as e segue cada um à sua vida. Tudo normal.

Como é que então se conduz por estes lados? É simples: com uma mão no volante e outro na buzina. Sim, buzina-se muito, por tudo e por nada e ninguém parece importar-se muito com isso. 

Normal também, mas chocante aos olhos de um ocidental é a extensa pobreza que se revela a cada passo ao longo das estradas. Famílias inteiras vegetam pelos parques, alguns apenas deitados junto a uma árvore ouros procurado vender algo batendo no vidro do carro.

No fundo o problema é sempre o mesmo, a procura desenfreada da grande cidade à procura de melhores condições de vida colide com a incapacidade dessa mesma "grande cidade" em proporcionar condições de vida e emprego para todos e daí à pobreza é um pequeno passo.

Todo este movimento humano tem, naturalmente, uma implicação imediata na mais do que evidente falta de higiene das ruas, perante uma total indiferença de quem passa.

O "segredo" de quem se aventura por estas paragens é, dessa forma, duplo: predisposição mental para entender esta realidade como natural e não julgar essa mesma realidade à luz dos nossos próprios conceitos. Quem não o fizer...mais vale não vir. 

Por outro lado e de um modo geral os indianos são afáveis e simpatizam bastante com os ocidentais, por isso mesmo é perfeitamente possível - e sucedeu mesmo - que um casal peça para tirar uma foto connosco e a sua família para posteriormente emoldurar e colocar em sua casa, como recordação de um dia em que estiveram com alguém que não conhecem mas que representará qualquer coisa se de importante  para eles próprios.

Da nossa parte não custa (literalmente) nada, e assim se faz a nossa boa acção do dia o que na Índia tem uma relevância transcendental.

Apesar de ser maioritariamente hindu a cidade de Nova Deli (tal como toda a Índia) tem marcas históricas que remetem sobretudo para o Islão, fruto da presença ancestral dos mongóis da cidade, sendo sobretudo relevantes os imponentes mausoléus entre os quais se destaca uma surpreendente réplica do Taj Mahal na cidade de Agra (com direito a dia próprio como não podia deixar de ser).

Desengane-se que espera encontrar riqueza decorativa no seu interior. Não, o interior está reservado para o túmulo (ou túmulos) daquele que escolheu aquele espaço e aquele edifício para o seu repouso eterno.

A beleza está, portanto, no exterior, na imponência dos edifícios, tudo impecavelmente arranjado nomeadamente os jardins, banhado por uma cor ocre, que resulta da combinação perfeita entre um sol que raramente se mostra e uma neblina permanente que transforma uma temperatura um pouco acima dos 30 graus numa sensação térmica consideravelmente superior devido a uma humidade superior a 90%....

Destacam-se ainda a bela estrutura de homenagem aos mortos indianos na guerra, a chamada Porta da Índia, e os imponentes edifícios governamentais, onde à distância (não é possível aproximar-nos) se percebe passearem livremente macacos.

Assim termina o primeiro dia, o jet lag começa a fazer-se sentir e amanhã é dia da primeira das grandes viagens de carro até Jaipur.