domingo, 19 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 5ª semana

Faz esta semana precisamente um mês que fomos colocados em regime de tele-trabalho face ao agravar da situação e sobretudo aos receios do eventual impacto na operação da empresa no caso de um ou mais colegas ficarem infectados.

E se desde o primeiro momento a nossa missão era clara já a forma como podemos, individualmente, contribuir para diminuir as consequências do problema não é tão exacta, sendo que por um lado sentimos que contribuímos com o nosso isolamento e mantendo a empresa a funcionar o que já não é pouco, mas por outro pensamos sempre em que medida podemos fazer mais.

Da nossa parte a opção foi então de manter os compromissos que tínhamos antes com que sempre nos apoiou e que, por via da interrupção da actividade normal, se viram forçados interromper de todo essa mesma actividade, deixando de prestar o serviço habitual, seja a Academia de Jiu-Jitsu ou o ATL, os quais prontamente informaram que não iriam cobrar a mensalidade.


É aqui se coloca a questão da solidariedade e onde podemos de facto ajudar, pelo que sem excepção decidimos na primeira hora não aceitar tal disponibilidade, mantendo o pagamento das mensalidades tal como sucederia se nada se passasse de anormal nas nossas vidas. É este o contributo que podemos dar sem sair de casa, isto é, ajudar quem mais precisa a sobreviver a esta fase sem esperar nada em troca mais tarde. O mesmo se diga, claro está, ao assegurar o pagamento do salário da empregada doméstica, também ele suspenso, mas também o de dar preferência aos comerciantes do antes que queremos sejam os do depois.

A vida corre, pois, sem grandes sobressaltos. O estado de emergência foi prolongado até ao inicio do mês de Maio o que significa que estes diários semanais vão ter continuidade por mais algum tempo.

O tempo tem estado incerto onde não faltou uma granizada valente que temi pudesse destruir a minha produção de ameixas, logo agora que parecem destinadas a ser colhidas em bom numero este ano. Não foi o caso felizmente, embora tenham deixado algumas marcas.

O J. terminou mais um puzzle de 1500 peças na semana em que retomaram as aulas, sem que se perceba muito bem o que é que restará deste ano lectivo, em particular daqueles que estão em vias de ingressar na universidade. Falar-se no regresso presencial durante o mês de Maio. Veremos.

Também em Maio está previsto o retomar de uma certa "normalidade" na economia talvez mais por se perceber que corremos sérios riscos de não morrer da doença mas ficar definitivamente paralisados com os cuidados primários, posto que a cura não parece chegar tão cedo.

À falta de uma máquina de cortar relva a X. e a C. puseram mãos à obra e fizeram uma espécie de corte de cabelo à pastagem à custa de bolhas nas mãos. O fim-de-semana serviu também para matar saudades de um prato típico do norte, a francesinha, encomendado lá está no comerciante onde habitualmente vamos beber o café ao fim-de-semana.

Em vésperas de semana comemorativa do 25 de Abril há que pensar nos seu princípios, desde logo a solidariedade que este mundo cada vez mais individualista e exposto a populismos grotescos parece potenciar, sem que se perceba bem onde poderá acabar. Talvez seja como a musica cantada na voz do Chico Buarque "andamos a carregar pedras para construir tenebrosas catedrais".

Neste dia 19 de Abril haviam 20.206 casos registados e 714 óbitos.





domingo, 12 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 4ª semana

Vivemos tempos muito estranhos. Nada de novo, já o eram antes da pandemia, só se tornaram mais evidentes depois da dita. As pessoas deixaram de circular na rua, não se cumprimentam, não se encontram, tudo em prol da saúde pública. 

Resta saber como será depois de tudo isto passar isto no pressuposto mais assente numa esperança do que numa realidade prática que me leve a achar que o fim - no bom sentido, entenda-se - está próximo. Sejamos, pois, prudentes, que a coisa está para durar e já se fala, com elevada probabilidade tendo em conta quem o diz, que o estado de emergência nunca deixará de o ser antes do mês de Maio.

Esta semana é também aquela que acarreta pessoalmente uma maior carga simbólica, pois seria aquela onde parte dos planos para este ano se começariam a materializar, especialmente no que diz respeito ao ambicioso - e agora um mero sonho - de efectuar algumas viagens em família, um dos hobbies que mais apreciamos e mais gostamos de, sempre que possível, realizar.

Senão veja-se, desde logo em Abril, nesta mesma semana, deveríamos estar a caminho do Dubai para participar no Abu Dhabi World Youth Jiu-Jitsu Championship, desejo antigo da C. e de nós próprios, e com viagem até já reservada e paga e posteriormente cancelada, obrigado agora à penosa tarefa de pelo menos reaver o dinheiro, para que o prejuízo financeiro não se some ao prejuízo lúdico.

Seguidamente iríamos visitar um fim-de-semana a famosa Feria de Abril, em Sevilha, local no qual por coincidência e em trabalho havia estado no ano anterior e que despertou uma curiosidade suficientemente grande para ir lá de propósito para apreciar aquele ambiente festivo, colorido e bem bebido, sem os exageros da Oktoberfest de Munich.

Se o 25 de Abril seria em Sevilha já o ambicioso plano passava no 1º de Maio por ir 3 dias a Londres, aproveitando ao máximo o tempo disponível para ver tanto em tão pouco tempo, também cumprindo um desejo dos jovens ao qual nós claramente não nos opusemos, pois Londres será sempre Londres.

No mês seguinte seria um momento igualmente especial quando algures em meados desse mesmo mês iríamos a Washington receber das mãos do grande Jack Welch o certificado do diploma de MBA começado precisamente três anos antes, num momento muito especial na minha vida (tão especial que não cabe neste texto) e que culminará nesse mês. Contudo, este evento parecia já ensombrado por uma aura pouco propícia que, para quem nisso acredita, antecipava coisa pouco boa.

Desde logo a perspectiva de podermos passar o dia 13, dia de anos do meu pai, em Washington esfumou-se quando se percebeu que os meus sogros já haviam agendado uma viagem para essa mesma altura (entretanto também ela não confirmada, fruto das circunstâncias) pelo que alguém teria de ficar em casa a cuidar dos jovens. O segundo revés foi a notícia surgida durante o mês de Março do falecimento do próprio Jack Welch, com 84 anos, embora não relacionada com a pandemia que actualmente mata nos EUA mais do que em qualquer outro local no mundo.

O epílogo desta história triste foi o inevitável adiamento do evento para o Outono. Veremos se sim. Esperemos que sim.

Por cá os tempos correm com esta estranha normalidade. O trabalho segue o seu curso há medida que se percebe que muito antes de melhorar ainda há-de piorar, nomeadamente para as empresas, quem nelas trabalha o que necessariamente irá afectar a nossa própria operação, muito ligada ao crescimento ou retracção do mercado.

Em tudo o resto discute-se se a escola há-de recomeçar e de que forma, tendo as decisões tomadas, surpreendentemente do agrado de todos, dependente do evoluir da pandemia que permitirá ou o regresso faseado dos alunos que tinham previsto a realização de exames finais, particularmente relevante para o J. empenhado no acesso à universidade ao curso que escolheu.

Compreensivelmente a C. está mais impaciente. É menos dada a contemplações e por isso houve necessidade de dar espaço à criatividade oferecendo-lhe tudo aquilo que precisa para pintar, entenda-se o quadro, os pincéis e as tintas. O resultado promete. Eu não faria melhor. Eu nunca fiz melhor.

O tempo está como o vírus, não se percebe para onde vai. Tanto chove copiosamente como faz sol. O sol é a nossa praia e aproveita-se para o gozar, em que até os gatos parecem saborear esta estranha liberdade precária e também deu para assar uns frangos no churrasco, aproveitando o tempo favorável no fim-de-semana.

Desportivamente a X. e a C. vão alinhando nos treinos agendados pelo PT da empresa em formato digital tendo eu optado por começar a saltar à corda, até perceber rapidamente que me estava a dar cabo dos calcanhares de Aquiles, tornando evidente que se é para me magoar mais vale nada fazer. Não foi exemplarmente o caso pois voltei a dar umas pequenas corridas nas redondezas, breves 3 kms de desporto ou melhor ainda, 20 minutos de comprazimento ao ar livre. O regresso aos treinos de Jiu-Jitsu por parte do J. e da C. é, para já, uma miragem que facilmente se confunde com uma esperança.

Neste último dia da semana é também aquele em que os meus pais fazem 50 anos de casados. Infelizmente a distância e a necessidade de confinamento ainda mais agravado no período da Páscoa impediram uma reunião familiar todos juntos, como pertence. A opção mais "simples" e sobretudo mais atual foi o recurso às "novas tecnologias", juntando virtualmente o que o vírus insiste em distanciar (algo diferente de separar). Espera-se que daqui a um ano tudo isto seja apenas uma recordação distante de um tempo muito próximo. 

No final dessa semana, dia 12 de Abril, haviam 16585 casos confirmados e 504 óbitos.















terça-feira, 7 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 3ª semana

Se alguma expectativa houvesse sobre a possibilidade do atual estado de coisas se resolver em 15 dias, rapidamente se percebeu que, bem pelo contrário, a confinamento está reservado para um tempo indeterminado e nem se diga que as notícias que se vão ouvindo permita perceber que, tal como diz a famosa expressão também aqui já se vê "uma luz ao fundo do túnel".

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Por volta das 12 horas passou a haver uma espécie de novela contemporânea onde a directora da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde, ou o seu ministro adjunto, nos colocam a par dos mais recentes números que mesmo não sendo ao nível da catástrofe que se vai vivendo noutros países, não deixa de ser alarmante.

O trabalho vai correndo no dia-a-dia dentro de uma estranha normalidade a que até pode parecer mas não nos conseguimos habituar e ajuda a colocar as coisas em perspectiva e, mesmo que trabalhar a partir de casa implique também algum acréscimo de qualidade de vida a verdade é que facilmente se compreende que provavelmente até podemos aceitar regressar ao stress do dia-a-dia uma vez que esta nova qualidade de vida acarreta uma incerteza futura demasiado pesada para podermos achar que é preferível à certeza dos dias anteriores à pandemia.

As comunicações entre a equipa são todas por escrito com raras excepções, uma vez por semana, em que agendamos uma reunião por zoom, que invariavelmente corre para uns em pleno, para outros sem imagem e, por fim para outros sem uma coisa e outra, mas pelo menos dá para perceber que lá vamos estando animados, embora não se fale propriamente de trabalho.

As escolas encerradas há duas semanas estão agora oficialmente suspensas por férias da Páscoa sem certezas sobre a sua reabertura futura e sem certezas qual a forma de ensinar e cumprir o período final do ano lectivo. Se até aqui ainda tinham uma ocupação diária agora nem isso e por isso tendem a resignar-se às suas próprias rotinas ao computador ou ao telemóvel, dado que não parecem haver grandes condições para efectuar treinos de Jiu-Jitsu ainda que Mestre António Neto tenha ensaiado um treino virtual via Zoom que não se revelou efectivo, apesar da boa vontade do J. e da C. em estarem equipado a rigor à hora agendada para o dito treino.

As compras necessárias voltaram a ser feitas na manhã de sábado, aproveitando o menor fluxo de pessoas. Acompanhando as boas recomendações só um de nós fica na fila e o outro aguarda no carro, se bem que nem o tempo parece disposto a dar algum alento pois ao sol dos dias anteriores sobrou uma chuva intensa que ditou o adiamento de mais uma "churrascada", desta vez de frango convenientemente adquirido nesse dia para esse mesmo propósito.

Lamentavelmente não foram essas condições atmosféricas que obstaram a poder tratar do jardim, cuja relva cresce a olhos vistos uma vez que por coincidência do destino a máquina de cortar resolveu avariar ao fim de 14 anos de uso, pelo as boas intenções de tratar de alguns temas sucessivamente adiados se ficou pela limpeza do quintal enquanto se fazem planos de substituir algumas árvores por duas árvores de fruto. Talvez o resultado mental do confinamento leve a pensar meios de subsistência de cultivo próprio.

Infelizmente não poderei fazer com a relva o que fiz com o cabelo uma semana antes e cortar a direito com a máquina em pente curto, rezando para que também ela não avariasse e de um momento para o outro ficasse com um corte típico de alguém com um problema mental grave.

No final dessa semana, dia 5 de Abril, haviam 11279 casos confirmados e 295 óbitos.

domingo, 5 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 2ª semana

Poderia achar-se que o famoso provérbio se aplica indistintamente da causa mas verdade é que a segunda semana chegou sem perspectivas optimistas quanto ao possível fim do confinamento social e menos ainda quanto à eventual redução da proliferação do vírus.

De Espanha e de Itália chegam todos os dias notícias impensáveis há 1 mês atrás para quem, como nós, vivia um momento de algum fulgor económico, boas perspetivas futuras mesmo que alguns arautos da desgraça anunciassem a mais do que previsível chegada de uma recessão, embora certamente os próprios estivessem longe de adivinhar que uma bactéria seria muito mais letal e rápida do que a usual ganância do homem que, de tempos a tempos, gera outro tipo de pandemias, de natureza financeira, quando se percebe que toda o sistema se alimenta muito mais de especulação do que de razão.

Os meus fundos de investimento que cresciam à ordem de uns galopantes 23% caiam agora a pique, não tendo sido pior o desastre porque no momento da declaração de pandemia pela OMS tive a decisão ajuizada de resgatar todos os fundos ainda positivos, recolhendo as possíveis mais-valias, deixando os restantes a aguardar melhores dias que, já se sabe, haverão de chegar.

Esta semana começa com uma espécie de sentimentos mistos, por um lado percebe-se claramente que as pessoas começaram a assimilar a "nova rotina", bastante visível no crescimento do volume de trabalho, seja através de e-mails ou de chamadas telefónicas o que pelo menos permite perceber que o mundo não parou e os negócios continuam a mexer. Por outro lado também passou a ser perceptivel que muitos desses negócios caminham a passo acelerado para um destino incerto, face aos problemas de tesouraria das empresas a quem, de um momento para o outro, deixaram de ter clientes e passaram a somar despesas.

Sucedem-se as medidas do governo, da UE, do BCE, do FMI, de tudo o que movimenta dinheiro no mundo, sobrando para mais tarde perceber quem e de que forma os Estados, ou seja, todos nós, iremos pagar a factura das maquinas de fazer dinheiro trabalharem agora imunes ao vírus. Em particular o lay-off passou a fazer parte do léxico comum o que naturalmente de uma forma ou de outra acabará por ter um crescente impacto no negócio da corretagem, pior ainda se se perpetuar no tempo.

Tirando isso mantivemos as boas práticas do regime de recolhimento, assegurando as mesmas rotinas de um qualquer dia normal de trabalho, que começa invariavelmente por volta das 9h da manhã, interrompe-se para a hora de almoço, recomeça das 14 horas e irá findar, às 18h da tarde. É importante manter tais rotinas não apenas para a nossa paz de espírito, eliminar falsas imagens de "férias prolongadas" e assegurar a normalidade possível aos Clientes, talvez mais do que nunca confiantes de que o seu parceiro corretor habitual não deixará de o apoiar nesta altura particularmente complexa.

O tempo lá fora está como o vírus, incerto. Tanto chove como faz sol. Se faz sol então o café a seguir ao almoço é tomado no jardim em frente à casa, com o sol pela cara, pequeno assomo de liberdade perdida, sem no entanto violar qualquer regra de confinamento.

Como em qualquer crise, particularmente esta que desaconselha deslocações, haverá sempre que tenha a arte e o engenho de adaptar a sua actividade às circunstâncias e, fazendo parte de uma comunidade relativamente pequena e de tendência rural onde (quase) todos se conhecem, tratámos de aproveitar o facto de os fornecedores habituais de carne, frutas e legumes fazerem serviço take-away, outra palavra que, mesmo já existindo passou a fazer parte do léxico comum, para nos abastecermos para os próximos dias, tendo constatado que sendo as encomendas tantas já não conseguem dar vazão a tantos pedidos, pelo que não foi de estranhar que num caso tivesse sido um táxi a fazer a entrega e noutro tivéssemos nós próprios de ir buscar ao local a encomenda de carne.

De resto a opção foi por ir aos supermercados do costume ao sábado de manhã para evitar filas, bem visíveis à distância devido ao condicionamento do numero de pessoas permitidas ao mesmo tempo no interior do estabelecimento, levando a que a dita fila se forme no exterior, com um espaçamento de pelo menos 1 metro, havendo quem use mascara e quem não a utilize, tema controverso até na "comunidade cientifica".

Ao ver esse cuidado das pessoas em assegurar a distancia entre uns e outros não posso deixar de me lembrar de certos filmes apocalípticos, onde impera sobretudo o medo. Veremos o que sobrará desse medo quando tudo finalmente passar.


Entretanto o J. começou a ocupar o tempo a fazer um puzzle de 2000 peças que supostamente deveria entretê-lo no mínimo durante 2 semanas mas que, talvez por uma questão genética, o próprio tratou de acabar numa única semana. Digo genética porque eu era precisamente igual. Desconfio que quando terminar a pandemia teremos de arranjar um espaço suplementar para arrumar os puzzles.


As redes sociais são, por esta altura, o foco onde tudo se passa, seja nas remas de mensagens via wattsup ou equivalente, onde pelo menos não faltam sinais da infindável imaginação do ser humano, desde logo motivadas por um estranho fenómeno que levou milhares de pessoas a colocarem a aquisição de papel higiénico à frente de outros bens essenciais, fenómeno esse que espero um dia venha a ser devidamente estudado e enquadrado do ponto de vista sociologico.


Mas se nessas mesmas redes sociais cai um volume considerável de informação útil e válida e até de entretenimento, também não é menos verdade que rapidamente se transformou numa espécie de pandemia paralela, onde a desinformação e as famosas "fake news" são recorrentes, umas fruto da ignorância de quem as veicula, outras manifestamente o resultado da mente perversa de quem, nestas alturas, pretende obter um ganho qualquer, mais ou menos evidente, seja ele politico ou meramente de causar alarme social.



Por isso mesmo e para bem da minha sanidade mental comecei voluntariamente a ocultar todas as notícias falsas ou de incentivo ao ódio colocando ao mesmo tempo os amigos que replicam tais mensagens, sejam eles mais ou menos chegados, numa quarentena virtual forçada de 30 dias, até lhes passarem os "sintomas".

O bom tempo de fim-de-semana permitiu o usufruto do quintal ou jardim, fazendo uso do barbeque e da possibilidade que nem todos têm de almoçar ao ar livre, ao som dos pássaros que, por esta altura e na falta do som dos carros e dos humanos, se fazem ouvir maravilhosamente.


No final dessa semana, dia 29 de Março, haviam 5962 casos confirmados e 119 óbitos.

sábado, 4 de abril de 2020

Diários de uma pandemia - 1ª Semana

Era uma vez um vírus. Creio que é assim que começam quase todas as histórias de encantar, com heróis e heroínas, vilões e os bobos de serviço, que servem para dar um toque cómico ao tom geral de tragédia que, invariavelmente terá um final feliz.

Nesta história, contudo, é ainda cedo para dizer quando será o final e, prevendo-se (e esperando-se) que seja feliz, quanto sangue, lágrimas e sacrifícios em geral será necessário derramar quando se puder afirmar, com segurança, "acabou". 

Confesso, com algum remorso, que eu próprio desvalorizei inicialmente os sinais que "vinham da China", convicto que o dito vírus que agora começava a ganhar nome próprio fosse ele Coronavírus ou COVID-19 nunca colocaria em causa o modo de vida europeu e mundial mesmo que inevitavelmente cá um dia chegasse. E chegou. Chegou com toda a pujança.

Os primeiros tempos são, já se sabe, de um misto de desconfiança e desnorte, com uma crescente insegurança, alimentada diariamente pelas televisões e pelos números esmagadores que chegam de fora mas que, em meados de Março ainda não haviam chegado a Portugal, porventura por via da nossa localização geográfica no extremo da Europa, como se de uma nuvem epidémica estivesse a varrer todos os locais mas que de alguma forma estivesse a desviar-se destas paragens, como se fossem aquelas tempestades que parecem afectar uns países mais do que outros.

Apesar da crescente ansiedade e o avolumar de informações por parte de outros corretores e parceiros seguradores que entretanto desmarcavam eventos previamente agendados e entravam agora sucessivamente em regime de tele-trabalho, nós continuávamos firmes nos nossos postos de trabalho, embora fosse notória o progressivo alheamento e consequente redução da produtividade individual em função das notícias "que iam chegando".

Mas a realidade continua a ser o que é, e a ela não é possível fugir eternamente, ainda que falar de uma "fuga" talvez se afigure como exagerado, uma vez que de uma forma ou de outra ela há-de se impor, resta saber se de forma tranquila ou pela força.

Talvez por isso mesmo num tempo quase recorde a empresa iniciou o processo de transformação das nossas rotinas de trabalho "on site" para tele-trabalho, por fases, e começando por todos aqueles que tinham uma situação familiar porventura mais exposta às possíveis consequências nefastas do vírus, isto é, aqueles colaboradores com filhos menores.

Não foi por isso mesmo estranha a notícia que eu e a X., colegas na mesma empresa durante o dia e marido e mulher no restante tempo, fomos informados da decisão de iniciar o regime de tele-trabalho a partir do dia 16 Março, passando a acumular no mesmo espaço as "funções" que durante cerca de 15 anos foi possível manter separado.

E é aqui que começam estes diários, ou falsos diários posto que serão escritos numa base semanal.

A escola por esta altura já tinha encerrado e pela frente tínhamos o desafio de articular o trabalho, os deveres escolares e tudo o mais o resto, até mesmo incerteza do afastamento dos familiares mais próximos, os pais e irmãos, por tempo indeterminado.

Sem ter entrado em loucuras de açambarcamento que se iam ouvido de quem, de forma descontrolada e antevendo o Apocalipse, desatou a fazer compras desenfreadamente, tivemos o cuidado de nos abastecer o suficiente para não ser necessário fazer compras de forma contínua, uma vez que os conselhos para "ficar em casa" eram já por esta altura uma constante, mesmo que admitindo excepções.

Por coincidência do destino também eu próprio me encontrava de "férias" do MBA ou, dito de outra forma, entre cursos, aguardando o inicio daquele que será o ultimo trimestre, tendo tomado a iniciativa de iniciar a leitura antecipada do livro aconselhado para esse mesmo trimestre, algo que admito venha a "facilitar" todo o restante trabalho que me espera.

O "quartel-general" improvisado foi montado na sala de jantar, laptops frente a frente e impressora a meio, com os telemóveis ali mesmo ao lado e um rádio que passou a debitar musica quase sempre clássica ou outros estilos sempre que a C. ocupava o meu lugar.

A primeira semana de trabalho foi, sem surpresa, verdadeiramente atípica, uma vez que tal como nós próprios muitas outras pessoas estariam a mudar as suas rotinas, adaptando-se a uma nova realidade - a dita realidade - pelo que não foram nem muitos os telefonemas nem muitos os e-mails para responder, o que permitiu intercalar as minhas próprias tarefas com os deveres escolares da C. que iam sendo enviados por e-mail e aos quais cabia responder enquanto o J. se mantinha quase sempre pelo quarto alternando o estudo e os deveres com os jogos no computador, sem nunca nós próprios intervirmos, como se fosse este o ambiente normal de uma sala de aula onde, por definição, essa intervenção jamais se verifica.

E depois havia o resto do tempo, o qual passava em boa parte a ser ocupado a ver o evoluir da situação no mundo, com o primeiro caso confirmado em Portugal "apenas" no dia 2 de Março e à data do inicio do tele-trabalho ainda sem registo de mortes por cá. 

Mas a dita da realidade é inexorável e a notícia dessa morte acabaria por chegar no dia 16 de Março.

Não há um segredo para conseguir imediatamente adaptar as rotinas tão subitamente alteradas e por não haver segredo nem técnica alguma inventada para nos explicar antecipadamente o que fazer em caso de confinamento social por via de uma pandemia. Por isso mesmo adapta-se o tempo às circunstâncias, por exemplo mantendo a rotina de fazer exercícios em casa, "tarefa" na qual participei inicialmente para rapidamente concluir que não seria por ali que iria manter a forma.

Esporadicamente faziam-se caminhas curtas e ao final da tarde, tal como curtas eram as tentativas de retomar os hábitos de corrida, sempre nas redondezas e isoladamente como diziam as regras de confinamento mas também por curtas distâncias e evitando os passeios para não nos cruzarmos com outras (poucas) pessoas que por ali também circulavam.

A verdade é que sempre achei que ao fazer as ditas corridas, mesmo que com todos os cuidados e até autorizado pelo Estado de Emergência que entretanto havia sido decretado, estava de certa maneira a fugir ao "espírito" da coisa, o qual remetia claramente para um dever de consciência de evitar o mais possível o contacto com outras pessoas para dessa forma evitar a possível propagação do vírus.

É importante referir que nesta altura não podíamos nós próprios afirmar que não estivesse algum de nós infectado uma vez que como era já mais do que sabido o tempo de incubação do dito é de sensivelmente 14 dias e até à bem poucos dias estivéramos todos em plena actividade laboral e escolar o que significa que, potencialmente, poderíamos ter estado em contacto com alguém infectado sem que esse alguém o soubesse. Aliás, pessoalmente estivera poucos dias antes em contacto com alguém que me ia relatando por mensagens o seu estado, o qual apresentava todos os sintomas "clássicos" do vírus, ainda que não comprovado por teste adequado.

Ainda assim, e porque tinha prevista uma deslocação mais a X. à empresa precisamente no dia 15 de Março entendi alertar a Administração do possível contágio dessa colega, aconselhando a que não estivesse presente na referida reunião de forma profilática, algo que embora com alguma desconfiança foi aceite, pelo que a reunião acabou por ter lugar através do recurso ao Zoom, ferramenta bastante familiar por ser usada diversas vezes ao longo do MBA.

Entretanto os meus sogros haviam regressado da República Dominicana e, correctamente, submeteram-se à quarentena recomendada a quem vinha de fora, algo que interromperam momentaneamente sob o pretexto de nos fazerem chegar umas frutas e recordações de viagem, mas que no fundo não foi mais do que um motivo para matar saudades da família, particularmente dos netos.

Assim foi estranho vê-los chegar ao portão de máscara na cara, sem qualquer forma de cumprimento direto a nós que, por seu turno, nos mantínhamos do lado de cá do portão. O distanciamento social não nos afasta apenas dos vizinhos mas também dos familiares e nesse aspecto nem este pretexto serviria aos meus pais se deslocarem de Alcobaça (ou o inverso) para matar saudades, pois a idade e sobretudo a saúde teima e colocá-los nos denominados "grupos de risco".

A par do trabalho e a crescente preocupação sobre o destino de muitas empresas nossas Clientes tentava-se perceber o verdadeiro impacto nas nossas vidas, ao mesmo tempo que se recuperavam os hábitos de leitura, colocar o visionamento de filmes em dia.

No final dessa semana, dia 22, já haviam 1600 casos confirmados e 14 óbitos.













domingo, 27 de outubro de 2019

Ode à Memória

Olá meus queridos avós,
Posso tratar-vos por tu?
Bem sei que as convenções e os costumes o desaconselham,
Mas vamos imaginar que tenho 6, 7, 8, 9 anos,
Quando a minha ingenuidade me impedia de pensar que algum dia haveriam de partir,
Deixem-me recordar-vos assim,
Podemos ir a São Martinho outra vez para te poder ver tomar o teu banho de praia anual?
Peço-vos que me desculpem se a minha idade alguma vez vos fez sentir tristes,
Desculpem-me se eu pensava que uma galinha podia voar,
Posso voltar a comer o maior e mais bem cheiroso pêssego do arressaio?
À medida que foram partindo algo de mim foi morrendo também,
Felizmente não a cabeça e o coração para saber o quanto gosto de vocês,
Para me lembrar de vocês todos os dias,
Posso ver-te fazer bolas de futebol?
Ensinas-me a fazer uma para eu guardar para sempre?
Desculpa se eu achava que os púcaros eram para deitar abaixo,
Os vossos netos sentem a vossa falta,
Os vossos bisnetos também,
Mesmo aqueles que vocês não chegaram a conhecer,
Desculpem-me se não vos vi antes de descerem à terra,
A minha ultima imagem de vocês tem de ser viva como eu vos conheci,
Podemos andar de mota outra vez?
Lembram-se quando os vossos netos andavam de bicicleta no adro da igreja,
Quando os sinos tocavam para a missa, casamentos e funerais,
E vínhamos à janela ver quem passava escondidos atrás da cortina,
Um dia também tocaram por vocês,
Pareceu-me diferente, mais longo, mais triste,
Podemos voltar receber o Senhor Prior com as amêndoas da Pascoa?
Com os melhores fatos de Domingo?
Lamento que os vossos bisnetos nunca venham a viver tudo isto,
Espero poder transmitir-lhes quem eram vocês,
Podemos andar de carroça mais uma vez?
Posso ser eu a leva-la?
Desculpem-me se não chorei tudo o que devia quando partiram,
Acreditem que por dentro correm lágrimas de sangue,
Podemos ir visitar a casa dos tios?
A tia Milú ainda cá anda, como antecipou o tio Manuel,
Parece-se tanto contigo avó,
Tocas mais uma vez o teu clarinete?
Posso ordenhar as vacas e as ovelhas?
Jogamos mais uma cartada da bisca?
Desculpem-me se não vos disse nada disto em vida,
Mas afinal de contas só tenho 6, 7, 8, 9 anos,
Podemos repetir tudo outra vez?
Obrigado...


domingo, 14 de abril de 2019

De regresso a Edimburgo / Air ais gu Dùn Èideann


A parte "simpática" de ter uma viagem que não está condicionada por nada nem ninguém para além dos dias de chegada e partida é o de podermos adaptar o programa de viagem de acordo com as circunstâncias sempre imprevisiveis de quem, afinal de contas, viaja com um destino em mente mas sem a pressão das horas.

Se a isto juntarmos a possibilidade de otimizar o tempo em cada paragem de acordo com a realidade de cada local, quase sempre distinta do que nós próprios antecipamos, permite transferir para o dia seguinte aquilo que não se fez de véspera porque, por algum motivo, não foi possível.

Tal foi o caso das visitas a dois locais de interesse em Glasgow, bem perto da Catedral, que na véspera e por se tratarem de edificios públicos, estavam encerrados precisamente ao público.

Importa referir que, sem prejuizo do que mais adiante se irá dizer, que a principal razão para o prolongar da estadia foi a quase obrigatoriedade de visitar o local onde se encontra uma das maiores obras de arte da história, ainda que reconhecendo que este titulo está necessáriamente repleto de subjetivismo, mas sendo a arte precisamente uma realidade inteiramente sujeita a subjetividades dependentes do gosto de cada um, não vale a pena perder tempo a pensar no que os outros pensam e fazer a nossa própria avaliação.

Essa obra intitulada Christ of Saint John of the Cross, do pintor espanhol Salvador Dali, sempre me impressionou ao ponto de ser quase um ponto de honra poder, uma vez que fosse na vida, contempla-la. E isso proporcionou-se precisamente em Glasgow, embora não da forma esperada.

Mas, em primeiro lugar, estava agendada a visita a um edifico histórico, o Provand's Lordship, o unicio edificio do período medieval de Glasgow, decorado com mobiliário e pinturas do século 17, tornam a visita a este local de fato interessente, sem ser contudo obrigatório.

Mesmo em frente fica então o local onde se encontraria a pintura de Dali, no St. Mungo Museum of Religious Life and Art, um edificio bem mais interessante do exterior do que no seu interior ao qual acedemos para ávidamente chegar ao objetivo quase unico de ali estar.

Contudo, sala após sala parecia adiar-se o tão ansiado encontro por a dita pintura parecia não estar em lugar algum o que, diga-se, até fazia sentido face ao tipo de museu em causa.

Terminada a visita, a desilusão. A pintura não estava naquele museu. Felizmente, na entrada estava precisamente uma brochura com o famoso quadro e questionado sobre o seu paradeiro fomos informados que havia 13 anos já ali não se encontrava e que apenas ali tinha estado por ocasião das obras do seu local de origem, o Kelvingrove Art Gallery and Museum, para onde rapidamente nos dirigimos.

Este imponente museu espanta logo à sua entrada e deixa um pouco desconforto por não ter sido possivel a ele dedicar mais tempo, tratando-se claramente de um local que encerra uma magnifica coleção de obras de arte, a que só o tempo necessário permite a correta fruição.

Não sendo possível dedicar esse tempo ao museu optou-se por imediatamente ir direto ao que vinhamos e contemplar a grandiosidade da obra de Dali, repleto de emoção pela beleza daquele quadro mas também por representar aqueles raros momentos em que percebemos que os nossos sonhos se realizam.
Descrever o que o quadro nos transmite não é tarefa simples por encerrar sensações que as letras ainda não descrevem ou, pelo menos, a arte do escritor não sabe descrever.

Em seguida percorremos algumas das outras salas, repletas de quadros de autores de renome das diferentes escolas de pintura. Ficou muito por ver, mas antes da saída ainda se arranjou tempo para voltar à sala escura onde repousa o Christ of Saint John of the Cross. Quem já visitou a Capela Sistina em Roma sabe o que representa contemplar a perfeição e a cada momento encontrar novos elementos de beleza.

Era hora de regressar a Edinburgo, não sem antes passar em frente ao grandioso edificio da Univerdade de Glasgow, mesmo ali ao lado.

Aquela cidade estranha ao inicio, com um ar algo intimidante da noite anterior, deu lugar a uma imagem de uma elegante cidade, com muito para ver.

O regresso a Edimburgo, contudo, ainda não seria imediato posto que havia mesmo a caminho um local de relevante interesse turistico não porque soubessemos exatamente até que ponto esse interesse resultaria mais da fama mediática ou da sua real beleza.


Refiro-me à Rosslyn Chapel que se tornou famosa por fazer parte do enredo de uma obra literária e do filme que dela resultou e que por ter vendido milhões em livros e em receitas atraiu àquele local um numero considerável de visitantes.


Creio que fará sentido, sobretudo a quem leu o livro, de seu nome "O Código Da Vinci", dizer que poucas ou nenhumas referências ao livro e filme existem naquele local. O que existe, isso sim, é uma belissima capela, repleta de singularidades que fixam o nosso olhar a cada momento, sejam as colunas ou as ricamente decoradas paredes tudo é belo e estranho naquele local.

Mereceu plenamente a correria para ali chegar antes que fechasse e antes de regressar o ponto de partida, Edimburgo.