domingo, 15 de julho de 2012

Prazo de validade

O distanciamento temporal relativamente à ocorrência de certos factos é, normalmente, o elemento indispensável a uma análise não necessariamente correcta, mas certamente equidistante em relação à prodiga reacção “a quente” que normalmente se verifica quando a demanda por uma explicação se verifica em momento em que ocorrem os factos que a determinam.
Em certas vertentes esse distanciamento é, em si mesmo, obrigatório, nomeadamente ao nível do estudo da História, perspectivando-se nessa ciência que qualquer análise despojada de preconceitos apenas estará em condições de ser feita decorrido que seja, no mínimo, um quarto de século.
Não penso que o assunto que motiva a presente dissertação careça de tal hiato temporal mas, ainda assim, será razoável perspectivar uma reanálise aos factos que determinaram num certo dia feriado de 1 de Maio a corrida desenfreada a uma superfície comercial em busca de um almejado desconto de 50% em compras superiores a 100€.
Não é sequer do ponto de vista do operador que a questão merece agora a minha atenção, pois certamente a leitura que é possível fazer hoje como então não varia significativamente, na medida em que poucas dúvidas restam de se ter tratado de uma “jogada” comercial – aparentemente com contornos de ilegalidade – do qual o referido operador não se terá certamente colhido qualquer prejuízo, bem pelo contrário.
O que me interessa focalizar é a razão pela qual largas centenas – milhares? – de pessoas se prestaram a um exercício de auto-fustigação em busca de mantimentos como se repente alguém tivesse anunciado que o Mundo acabaria precisamente no dia seguinte.
A explicação mais evidente é a que remete para a “oportunidade” do negócio, a partir do qual é feito o “convite” às pessoas para num dia determinado poder comprar muito com pouco.
A questão é, no entanto, um pouco mais profunda, uma vez que tal “convite” surge num momento de crise económica e, sobretudo, de crise social, em que o acesso a determinados bens parece começar a ser uma pálida imagem de uma Sociedade habituada a nível de vida pautado por índices médios de riqueza e a enraizados hábitos de consumo.
Ora o que ficou claramente evidente é que estes hábitos – ou não fossem eles isso mesmo – custam a desprender-se de quem a eles se habituou e por isso mesmo ao tal “convite” para gastar as pessoas responderam de forma afirmativa, adquirindo porventura aquilo que necessitavam e, com toda a certeza, muito daquilo que não necessitavam, uma vez que só dessa forma poderiam alcançar a “meta” nada psicológica dos 100€ a partir dos quais poderiam beneficiar do tão almejado desconto.
E fizeram de forma assertiva, por vezes mesmo selvática, lembrando outras “corridas” bem dramáticas de populações a dirigirem-se de forma desesperada para os camiões que lhes traziam a comida que lhes faltava.
É certo que noutras paragens – bem mais ricas por sinal – existem datas certas para eventos de natureza idêntica, nas quais se oferecem oportunidades de “negócio” em grandes cadeias de venda a retalho, originando igual procura do melhor lugar na fila para entrar a que corresponderá presumivelmente o mais rápido acesso ao artigo desejado.
Não foi, contudo, este tipo de evento que se passou no denominado “Dia do Trabalhador”.
O que se passou nesse dia foi uma espécie de alinhamento astral planetário ou dizendo de outra forma, a confluência num só momento de bem engendrada manobra mediática, num momento de crise económica profunda aliado à propensão consumista de um povo com memória curta que parece ignorar que foi precisamente pela “facilidade” com durante anos a fio cedeu a estas mesmas manobras que levaram a um sobre-endividamento de grande parte das famílias.
Recordo-me da alegoria do burro a quem o dono colocou uma cenoura à frente do nariz para o motivar a trabalhar, não percebendo que – fazendo jus à sua categoria animal – jamais poderia alcança-la.
Não querendo recorrer ao insulto fácil para estabelecer a analogia pretendia, a sensação que me percorre é que de alguma forma se continua a cair facilmente no mesmo engodo, levando-nos a correr atrás do almejado vegetal, ignorando que ele se encontra cada vez mais distante de nós. Assim vão as cousas.

domingo, 8 de julho de 2012

A receita

Um dos elementos da “troika” – o FMI – mostrou-se “preocupado” com a elevada taxa de desemprego em Portugal e, mais se adianta, não parecem dispor de qualquer mecanismo para a contrariar.
Existe nesta equação uma verdadeira sensação de estranheza pela aparente incapacidade em lidar com tal situação uma vez que nem a mesma se pode considerar como “novidade” nem tão pouco poderá algum dia entender-se como não expectável.
O argumento de que este fenómeno possa não ter paralelo com situações de natureza semelhante no passado ou no presente é insustentável e, claro está, indefensável.
É-o por uma simples constatação dos factos, uma vez que, em caso algum, até à data alguma vez sucedeu que um país intervencionado não tenha sofrido um incremento da respectiva taxa de desemprego.
Não querendo ir mais longe no tempo bastará para o efeito verificar o que se passou na Argentina, na Islândia, na Irlanda ou na Grécia para se perceber que este efeito “em cadeia” é uma das consequências da referida intervenção externa.
A razão porque tal acontece é que a “fórmula” do FMI não assenta em momento algum numa perspectiva de crescimento do emprego.
Assenta, isso sim, numa perspectiva de implementação de políticas de austeridade que visam reduzir ao menor valor possível o papel do Estado na economia e da dívida pública situação que, em termos genéricos, não contém em si qualquer erro de perspectiva.
Por seu turno o Estado – preso aos compromissos assumidos – inicia normalmente dois processos internamente no sentido da redução da despesa pública e no aumento da respectiva receita.
E é precisamente por aqui que o problema ganha força.
O Estado é, quase por inerência, incapaz de se auto-governar e, por isso, mesmo não se afigura como viável a possibilidade de uma “cura de emagrecimento” pela restruturação da função pública e do seu sector empresarial.
Como tal não é possível então corta-se onde menos se devia cortar, isto é, nos benefícios sociais, na saúde e na educação sem deixar de passar pela justiça ou, como alguns o designam, no conceito de Estado Social (ou o que resta dele).
A consequência bifurcada desta situação, como não poderia deixar de ser, é o aumento da "factura" suportada pelos cidadãos quando têm de recorrer a serviços que a Constituição designa de tendencialmente gratuitos mas que parecem “caminhar” em sentido precisamente contrário.
Ao mesmo tempo que tal se vislumbra não existem sinais evidentes de redução da despesa pública em sectores onde seria forçoso adoptar uma política reformista e, consequência de tal facto, os números da execução orçamental do 1º trimestre indiciam um crescimento da despesa pública em valores nada despiciendos.
Se do lado da despesa é este o famigerado “cenário” do lado da receita parece não haver melhor cenário, pela “simples” razão de que, tal como alguns economistas (e não só) alertaram em devido tempo, a capacidade de esforço dos cidadãos ao aumento de impostos tem – como quase tudo na vida – os seus limites.
Ora, aparentemente, tal limite foi de facto ultrapassado e por isso mesmo verifica-se a realidade inversa à expectável, isto é, não só a receita fiscal não aumenta como em concreto até se reduz e, diga-se, reduz-se ao ponto de poder contrarias as famosas “metas” do governo em termos de deficit orçamental.
Também aqui a explicação para este facto não requer a intervenção de um qualquer prémio Nobel.
A diminuição do poder de compra das famílias – pelo aumento dos custos, redução de benefícios e aumento dos impostos – tem como consequência imediata a contracção no consumo da qual resulta o aumento generalizado de falências/insolvências uma vez que as empresas deixam de conseguir escoar/vender os seus produtos.
Como há um menor consumo e menos empresas a pagar impostos é consequência natural que o Estado receba menos impostos, surgindo igualmente com especial fulgor a “famosa” economia paralela que parecia ter "desaparecido" da ementa dos portugueses mas que agora, segundo consta, voltou em grande força, até porque “velhos hábitos” dificilmente se perdem.
Mas se, por um lado, reduz a sua colecta de impostos, por outro aumenta as suas responsabilidades perante o número crescente de desempregados que emergem das referidas falências/insolvências.
Ou seja, não só não consegue aumentar a sua receita como ainda vê a sua despesa crescer.
Qual foi então a parte desta equação que o Governo e os “senhores” da “troika” não conseguiam prever que viesse a acontecer?
O cenário é dramático e sem perspectiva de um final feliz, ainda que ele só visse a ocorrer daqui a largos anos, e tem como consequência a necessidade recorrente de novas políticas de austeridade que se somam às anteriores e que ao invés de resolverem o problema apenas o agravam de forma eventualmente insanável.
A imagem daquilo que será provavelmente o “fundo do poço” parece agora personificado na Grécia que, entre as suas próprias responsabilidades, a acção reiterada dos mercados agravando sistematicamente as suas condições de financiamento e a catadupa de medidas de austeridade chegou agora ao seu “beco sem saída”, situação a que os gregos parecem agora responder dizendo - em forma de voto em partidos radicais – que chegou a hora da rotura.
E essa rotura surge porque, sejam quais forem as suas consequências, dificilmente constituirão um pior cenário do que aquele que actualmente enfrentam apesar do “auxilio” externo, o que não deixa de constituir o pior dos receios para os restantes parceiros europeus que correm sérios riscos de ver esfumar a possibilidade de recuperação por parte dos bancos dos seus créditos sobre o estado Grego.
A ironia de tudo isto é evidente.
Os gregos passaram sem aviso prévio, do papel de “criminoso” para o papel de “vítima”, mas de uma “vítima” que agora controla o seu “carcereiro”, consciente que não há formas boas ou más de morrer, porque no final de contas o resultado prático é precisamente o mesmo.
Pelos vistos, e a avaliar pela reacção do FMI e de alguns Estados-Membros da EU, toda esta situação decorreu – tal como aparentemente se verifica em Portugal – de uma incapacidade de previsão antecipada das consequências dos planos de resgate financeiro que eles próprios impuseram.
Em resposta a isso parecem agora todos “interessados” em resolver o “problema grego” e a salvar o Euro e para isso, pasme-se, falam sistematicamente da necessidade de implementar políticas de crescimento e de emprego no espaço da UE.
Talvez seja então este o momento de Portugal perceber que os remédios que não curam doenças não são necessários de tomar e, porventura, aproveitando a mudança de paradigma europeu, perceber que o caminho até aqui seguido não fomenta nem o crescimento económico nem o emprego. Antes que seja tarde demais. Assim vão as cousas.

domingo, 1 de julho de 2012

Telhados de vidro

O “caso” Miguel Relvas é o paradigma de uma situação que se insere num contexto substancialmente mais vasto e que, partindo desta situação concreta, permite analisa-la à luz de um conjunto de vertentes que ainda que distintas se encontram geralmente interligadas.
Não sendo meu propósito específico entrar em pormenor nos contornos concretos deste “caso” pelo simples facto de não os dominar e poder por essa via incorrer na análise gratuita dos factos – tal como tantos o têm feito – analisarei em particular as referidas vertentes ou, dito de outro modo, aquilo que parece constituir a “espuma” que transborda de um copo demasiado cheio.
As referidas vertentes que considero até ao apuramento real – presume-se – dos factos situam-se, desta forma e de acordo com o meu entendimento, nos domínios do judicial, da transmissão da informação e, como não poderia deixar de ser, na vertente política.
Na primeira das perspectivas que considero como relevantes na análise que pretendo transmitir, relevo em especial o facto de neste caso como em tantos outros se constatar a violação sucessiva do “famoso” segredo de justiça, cada vez menos segredo e cada vez mais uma verdadeira fonte inesgotável de notícia não oficial ou, como também se diz, de fonte segura ou próxima do processo.
O problema, claro está, desta violação é que a mesma tem origem precisamente naqueles que estavam incumbidos de guardar o referido segredo o que imediatamente levanta a questão sobre as diversas formas de corrupção que vão minando a nossa Sociedade incluindo – pelos vistos – entre aqueles que supostamente a combatem.
Daqui resulta uma exposição pública dos visados - directa ou indirectamente - nos processos o que nos remete para a segunda das vertentes a qual, conforme atrás ficou dito, corresponde à transmissão da informação, nomeadamente através dos órgãos com esse mesmo nome ou agências noticiosas.
A “luta” que aqui se desenrola também estará longe de se considerar novidade, isto é, a questão fulcral é saber-se se o interesse jornalístico subjacente a qualquer notícia – independentemente da sua relevância – deverá permitir que a violação de um direito legitimo de qualquer cidadão possa ser sistematicamente violado por uma classe de jornalistas à luz de critérios que longe de ser definidos por entidades autónomas ou independentes são, em concreto, aferidos em causa própria.
Ora o problema que também daqui resulta é o de gerar um efeito contrário ao que se pretenderia com a difusão da notícia inicial, na medida em que a esta se segue quase sempre um conjunto – normalmente vasto – de outras informações que, ainda que reportando-se à mesma pessoa já apresentam uma ligação pouco “visível” ao processo principal.
Incapazes de discernir entre o principal e o acessório da informação que lhe vai sendo passada de forma desgarrada, as pessoas tendem para agir em conformidade com o mais simples dos processos de julgamento sumário, em que uma mera referência jornalística implica imediatamente a condenação pública dos visados e um “ataque” para além de qualquer dúvida sobre o respectivo carácter o que nos transporta para o terceiro e, creio, último plano de análise, ou seja, o plano politico.
A verdade é que pessoas como o Dr. Miguel Relvas não são equiparáveis nas suas funções à generalidade das pessoas, uma vez que por um lado são agentes políticos e por outro, desempenham cargos públicos de relevância.
E é precisamente este que determina – ou deveria determinar – o comportamento do próprio visado no momento subsequente à divulgação de uma notícia que objectivamente questione simultaneamente a sua honestidade e o seu carácter.
Esse comportamento não poderia deixar de ser o de imediatamente se demitir ou, como se diz no dicionário do politicamente correcto, colocar o seu lugar à disposição do Primeiro-Ministro.
Ao faze-lo estaria imediatamente a deixar a mensagem que não se encontra “agarrado” ao cargo que ocupa, que em momento algum dele depende e que não permitirá em circunstância alguma que o seu carácter seja colocado em causa por quem quer que seja.
Quem tiver acabado de ler o parágrafo anterior certamente reconhecerá que é isto precisamente que se passa em países como os Estados Unidos ou no Reino-Unido, apenas para citar alguns exemplos.
Ao mesmo tempo que ao assumir esta posição estaria a proporcionar a sua própria defesa – nem que seja pelo esquecimento público – “libertaria” o Governo (e em particular o Primeiro-Ministro) do desgaste e da perda de tempo com assuntos que, pese embora a sua importância, são certamente menores face aos grandes problemas que o país atravessa.
Infelizmente nada disso se passa, havendo aliás o processo inverso de “defesa” institucional e, presumo, solidária, de alguém que perante os ataques sucessivos que lhe são dirigidos apenas vai contra-argumentando com uma espécie de auto-defesa que não convence sequer algumas das principais figuras do seu partido.
A ironia de tudo isto é que as “personagens” deste enredo são precisamente as mesmas que há não muito tempo clamavam – em campos opostos, é certo – pela necessidade da salvaguarda do segredo de justiça, que levantavam a “bandeira” da defesa da liberdade de imprensa ou que, por fim, exigiam de forma veemente a demissão de todos aqueles que se viam envolvidos em processos de suspeição pública.
Diz-se, com propriedade, que quem tem “telhados de vidro” não deve atirar pedras. O problema é que em política parece que, ao contrário do risco de quebrar os próprios vidros, as pedras parecem apenas resvalar para longe.
Para longe daquilo a que se convencionou chamar de Responsabilidade Política. Assim vão as cousas

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Palácio Benagazil

Costuma dizer-se que grande parte do que nós somos começa na escola, desde cedo, logo na Creche.

No meu caso tudo começou aqui, no Palácio Benagazil, junto ao Aeroporto de Lisboa, onde os funcionários da Transportadora Aérea deixavam os seus filhos.




O tempo, contudo, não tem sido "simpático" para a estrutura do edifício e do espaço envolvente.

Espero que ainda seja possível a sua recuperação, para que no futuro não seja apenas uma memória pessoal minha e de todos aqueles que por lá passaram.

domingo, 24 de junho de 2012

A genealogia de um povo - Parte I

Devo confessar que poucos são os temas sobre os quais a minha vontade pessoal em me debruçar sobre eles é mínima ou mesmo nula.

E um desses temas é o futebol.

Tal entendimento não deriva de uma menor gosto por esta modalidade mas, tão-somente, por entender que sobre o mesmo são já tantos que falam e escrevem que, creio, pouco ou nada restará para dissertar adequadamente sobre esta matéria.

Contudo, nos dias que correm, é quase incontornável abordar esta temática, fruto, claro está, do evento do Campeonato Europeu.

Com a auto-restrição que me impus relativamente à abordagem aos assuntos do futebol, a minha visão só poderá centrar-se na forma como os portugueses lidam com a perspectiva de sucesso ou insucesso que naturalmente decorre de qualquer competição.

A primeira constatação é a que resulta de uma espécie de exacerbamento patriótico de parte significativa da população traduzido no arvorar da bandeira nacional e no recorrente trautear do hino, simbolicamente de mão no peito.

Nada me move contra este movimento com tão forte carga simbólica embora, e esta é a perspectiva que me interessa abordar, entenda que tamanha manifestação de “carinho” pelos símbolos da nação não pode nem deve cingir-se a eventos que ocorrem de dois em dois anos, no curto espaço de um mês (ou menos, consoante a prestação da equipa nacional) e, ser quase exclusiva de quem seja aficionado do chamado “desporto-rei”.

Bem pelo contrário, este espírito deveria ser transversal a todos os portugueses e em qualquer circunstância, isto é, não ser temporalmente circunscrita e não se resumir ao desempenho da Selecção Nacional nesse mesmo período.

Deveria, antes de mais, ser um sentimento que nos deveria acompanhar em todos momentos, numa perspectiva de superação pessoal e colectiva, tanto mais relevante em períodos de crise como os que atravessamos.

Dessa forma, a valorização da nossa cultura milenar, a preservação dos espaços públicos, do respeito pelos símbolos e instituições, exercício de uma cidadania activa e de cívismo, entre muito outros aspectos simbólicos, ganharia uma nova força, porventura menos mediática mas certamente não menos importante.

Infelizmente “percebe-se” que assim não seja.

O futebol é, há largos anos, uma espécie de escape de um sentimento colectivo, nele se congregando simultaneamente todas as ambições mas igualmente o seu oposto, ou seja, também as frustrações.
Tal é particularmente “visível” na forma extrema como lidamos nesses momentos concretos com as vitórias ou com as derrotas, a partir dos quais “flutuamos” quase sempre entre a euforia extrema e a desilusão profunda.

De igual modo é mais do que evidente que o “desviar” da atenção mediática para este tipo de eventos tem um efeito de descompressão relativamente àqueles sobre os quais incidem normalmente os “holofotes”, isto é, o Governo e respectivos membros, independentemente da cor política de ocasião.

Esta circunstância traz-me à minha memória a letra da canção “Meu Caro Amigo” de Chico Buarque que dizia assim:

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol

Enquanto boa parte dos cidadãos estiver “entretido” com este tipo de eventos desportivos ou mega concertos, a acção governativa estará certamente menos exposta à opinião pública e, diria mesmo, da própria atenção das oposições.

Por isso mesmo o refrão da referida canção acabava invariavelmente por dizer que:

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A síntese de tudo isto é que o sentimento de uma verdadeira nacionalidade não se deve por um lado resumir à adesão em massa a eventos de natureza fugaz nem levar-nos a pensar que nesse mesmo período os problemas que a todos nos afectam deixaram de existir ou sequer se encontram suspensos temporalmente. 

Ontem, ao cruzar uma rua deparei-me com um conjunto de crianças que não teria mais de 3 anos e que gritavam em coro por Portugal e esta imagem e som recordou-me - com alguma emoção, diga-se – que o sentimento expresso por essas crianças era puro, por ser simultaneamente incondicional mas igualmente inocente e absolutamente sincero.

Não consigo imaginar melhor lição para todos nós. Assim vão as cousas.

domingo, 17 de junho de 2012

EB1 de BATUDES (2)


EB1 de BATUDES

No passado dia 7, em dia feriado, um conjunto vasto de pessoas, incluindo professores, pais e encarregados de educação, familiares e amigos e, claro está, os alunos, deitaram mãos à obra e transformaram a Escola Rural de EB1 de Batudes numa escola melhor.

Os jornais locais registaram para a posteridade esta iniciativa.







Curva perigosa

Durante largos anos “contestei” o princípio filosófico de Nietzsche da “teoria do eterno retorno” por entender que o ser humano dificilmente cometerá contra si próprio os mesmos erros do passado, na perspectiva de que teria necessariamente aprendido a respectiva “lição” com esses mesmos erros.
Confesso, agora, a minha ingenuidade depois de analisar os resultados eleitorais em França e na Grécia.
Estes dois Estados para além de pertencerem ambos ao velho Continente, fazerem parte da União Europeia, partilharem a mesma moeda e, estarem ambos metidos “até ao pescoço” no profundo abismo no qual a Europa parece estar a cair vertiginosamente, tiveram no momento das respectivas eleições gerais – num caso para a Presidência e no outro para a escolha do Governo – um outro factor que os “aproximou”.
Esse factor foi a deriva dos respectivos eleitorados para os sectores da extrema-esquerda e da extrema-direita.
Este efeito, cujos fundamentos são facilmente percetíveis e já anteriormente por mim referidos em dissertações passadas, derivam da insatisfação quase generalizada com as políticas seguidas pelos respectivos titulares do poder, sentimento agravado de forma exponencial com os efeitos da crise, nomeadamente a sua repercussão ao nível do desemprego, carga fiscal e redução dos direitos sociais.
Ora esta deriva poderia ser entendida como “natural” – se é que o apoio a correntes extremistas pode alguma ver beneficiar de tal epíteto – face aos antecedentes históricos de algumas latitudes geográficas que noutros tempos e noutros contextos não haviam hesitado em elevar ao poder regimes suportados por partidos políticos de extrema-direita ou extrema-esquerda, rapidamente transformados em regimes ditatoriais com as consequências – para os próprios e para grande parte do Mundo - que são por demais conhecidas e que não justificam novos comentários.
A questão é esta “lógica” está longe de poder ser alguma vez aplicável a países como a França ou a Grécia e, no entanto, em ambos os casos verificou-se um acentuado crescimento dos votos mais à direita e mais à esquerda.
A razão de ser desta “desconformidade” prende-se com a própria história de ambos os Estados que deveria permitir – pelos vistos em abstracto – pensar que em caso algum esta deriva radical pudesse vir a verificar-se.
Vejamos o caso da França que sofreu uma ocupação por parte da Alemanha nazi, após uma rendição no mínimo controversa, subjugando o país ao despotismo de um regime de matriz anti-semita e abertamente contra tudo aquilo que ficasse à margem do seu conceito de raça ou que se opusesse ao avanço cavalar por toda a Europa, deixando para trás um rasto de milhões de mortos.
É esta mesma França que agora distribui 20% dos seus votos a um partido de extrema-direita que traz para a linha da frente da discussão politica a lógica anti-emigração e o discurso antieuropeísta, num país que é o paradigma da assimilação – nem sempre no melhor sentido – de uma sociedade multicultural e multirreligiosa com raízes quase integralmente centradas na diáspora africana.
O “caso” grego sendo semelhante em termos da tendência que se verifica para a radicalização é, ainda assim, distinto relativamente às suas motivações.
Na situação grega o que se verificou foi uma espécie de escape dos eleitores, as verdadeiras “vítimas” da austeridade que os empurra a passos largos para um limbo entre a falência e marginalização relativamente aos seus parceiros europeus, que funcionou como um verdadeiro voto de protesto contra os partidos tradicionais de poder, sem uma verdadeira consciência das eventuais consequências práticas de uma eventual vitória por parte de um partido extremista poderia ter no futuro do seu país não sendo, contudo, difícil de antecipar que rapidamente o tal limbo ficaria definitivamente esclarecido.
O curioso disto tudo é que a Grécia é, e para a posteridade sempre será, o chamado “berço” da Democracia, isto é e para que se perceba o significado prático, foi o sistema politico ateniense que serviu de modelo à construção do formato da maioria dos governos democráticos actuais, tal como os conhecemos.
Por outro lado a Grécia esteve também ela subjugada por um regime ditatorial até bem recentemente que, por coincidência, haveria igualmente de cair num dia 25 de Abril.
O “caldo” está, pois, entornado e parece querer estender-se a outras geografias, cada um com as suas motivações mas com um denominador comum assente na crise económica e social europeia.
É este entendimento que é deveras preocupante e que parece cada vez mais ir ao encontro da teoria filosófica que dá o mote à presente dissertação, ou seja, o desaparecimento progressivo das pessoas que funcionavam como testemunhos vivos de uma determinada época – quais guardiões da memória colectiva – dá lugar de forma progressiva a novas gerações que aderem com aparente facilidade ao discurso radical de alguns sectores da sua própria Sociedade.
Se em tempos idos se pedia aos navegadores para ignorar o “canto das sereias” que os haveriam de levar para o fundo do mar, agora proclama-se a via da rotura com o sistema político em alternativa à mudança pura e simples da mentalidade dominante desse mesmo sistema.
Ignoram, contudo, que eliminado o sistema vigente, outro surgirá no seu lugar o qual por sua vez haverá de criar condições para que aqueles que levaram a cabo a tal rotura não o possam voltar a fazer no futuro através da supressão de direitos, liberdades e garantias fundamentais ou, dito de outra forma, pela imposição de uma ditadura. Assim vão as cousas.